Category Archives: Cultura

Bengala e o Reino do Dragão – 40

O Horizonte Perdido

O Horizonte Perdido

É muito provável que James Hilton, autor do romance “Horizonte Perdido”, escrito em 1933, tenha tido acesso a algumas das cartas enviadas pelos jesuítas portugueses no já distante primeiro quartel do século XVII, fosse a “Relação” de Cacela, a missiva de Cabral ou as cartas de António de Andrade, esse o verdadeiro pioneiro na região himalaica. Atente-se à seguinte passagem da obra do escritor britânico: “O mosteiro, no entanto, tinha mais a oferecer do que simples exibições de chinoiserie. Uma das suas características, por exemplo, era uma biblioteca muito agradável, alta e espaçosa (…). Conway, após uma rápida olhadela a algumas das estantes, encontrou motivos de sobra para se surpreender.

Bengala e o Reino do Dragão – 39

A identificação do Shangri-La

A identificação do Shangri-La

No decorrer das suas investigações em torno do mítico reino do Cataio, que até então não tinham logrado identificar, os jesuítas João Cabral e Estêvão Cacela ouviriam falar de um outro misterioso reino. “É porém aqui muito célebre um reino que dizem ser muito grande, e se chama Xembala, e fica junto a outro que chamam Sopo”, escreve Cacela na sua “Relação”. Sabia o padre que o dito reino do Sopo era habitado pelos tártaros (mongóis), “como entendemos pela guerra que este rei nos diz que aquele Reino tem de contínuo com a China”, acrescentando depois que, apesar do reino da China estar populado por muita mais gente, “a do Sopo é mais esforçada”, e por isso tinha por hábito vencer os chineses em todas as batalhas travadas.

Bengala e o Reino do Dragão – 38

O arco e a flecha

O arco e a flecha

Estêvão Cacela traça-nos um retrato dos butaneses apresentando-os como gente branca, “ainda que a pouca limpeza com que se tratam faz que o não pareçam tanto”. O cabelo traziam-no comprido, cobrindo-lhes as orelhas e parte da testa, e o rosto estava desprovido de barba. E para se certificar que assim continuava faziam uso, com bastante frequência, de umas tenazes que traziam penduradas ao peito, “que só servem de arrancar tudo o que aponta”. O traje dos butaneses não diferia daquele utilizado por outros povos tibetanos, pois “os braços trazem despidos, e do pescoço até aos joelhos se cobrem com um pano destes de lã, trazendo mais outro pano grande por capa”.

Bengala e o Reino do Dragão – 37

Butão e os reinos vizinhos

Butão e os reinos vizinhos

Estêvão Cacela reserva algumas das páginas do seu relato para nos fazer uma descrição geral do reino que tiveram o privilégio de calcorrear. Diz-nos que o Butão “é assaz grande e estendido e muito povoado, tendo a este rei uma sujeição ao jeito voluntária sem obrigação de lhe haverem de deferir nem seguir sua doutrina, nem ele ter poder de gente para constranger ninguém a nada; antes como sua principal renda está no que lhe dão voluntariamente, a ninguém quer ter descontente, e cada um é muito livre para fazer o que quiser, como o mesmo rei por muitas vezes nos disse, falando-nos ainda acerca dos seus lamas que são os mais sujeitos”.

Bengala e o Reino do Dragão – 36

A aprendizagem do Butanês

A aprendizagem do Butanês

Também ficamos a saber, ao ler a “Relação”, que os nossos padres logo desde o período inicial de itinerância deram os primeiros passos no idioma local. Como confessa Cacela, “em estes meses procuramos com toda a diligência aprender a língua”. Em Chagri os padres continuariam com a aprendizagem do Butanês, mas com grande dificuldade devido à falta de mestres adequados. Como já se viu, o monge que os acompanhava era de Chaparangue, no Tibete Central, onde se falava uma língua totalmente diferente. Cacela chama a atenção para as diferenças notórias nos dialectos do universo tibetano: “(…) posto que estes reinos tenham todos a mesma língua, há muita variedade na pronunciação e nas terminações, e a corrupção dela em algumas partes a faz quase outra, particularmente neste Reino, que, por ficar neste canto sem trato, nem muito comércio dos outros reinos, está muito mudada”.

Bengala e o Reino do Dragão – 35

Diálogos teológicos

Diálogos teológicos

Durante a nossa curta visita a Chagri tenho a oportunidade de compartilhar com os guelões locais – para seu deleite, devo dizê-lo – a extraordinária aventura de Estêvão Cacela e João Cabral. E também eles me fornecem preciosos dados sobre a vida e obra do seu líder espiritual e temporal, anfitrião dos padres portugueses. Apontam, por exemplo, a data do seu nascimento, 1594, informando ainda que Shabdrung, com a idade de 23 anos, «no Ano do Dragão de Fogo», juntar-se-á às hostes do lama Hoptshopa de Gyon e com eles viajará até ao Butão. Aos 27 anos, «que é o Ano do Macaco de Ferro», após a conclusão da pirâmide funerária de prata contendo as relíquias do pai, estabelecerá então o seu próprio corpo monástico «que contava inicialmente com trinta monges». Esse seria o começo da ordem do Palden Drukpa no País.

Bengala e o Reino do Dragão – 34

A arte e o intelecto do monarca

A arte e o intelecto do monarca

Os eremitérios espalhados pelos montes em redor do mosteiro de Chagri continuam hoje a ser ocupados por eremitas que ali permanecem vários meses em recatado silêncio e sem qualquer contacto com os seus semelhantes, nem mesmo aqueles que os abastecem à distância com alimentos, isto no caso dos ditos ascetas não estarem a cumprir estritos períodos de total jejum. Nos seus escritos Estêvão Cacela refere os objectos manufacturados por Shabdrung durante esse retiro espiritual. Entre eles “uma imagem de vulto de Deus em sândalo branco, pequena mas excelentemente feita” e algumas pinturas que ainda hoje são motivo de reverência por parte dos butaneses.

Bengala e o Reino do Dragão – 33

O retiro de Shabdrung

O retiro de Shabdrung

Pelo depoimento prestado por Estêvão Cacela, depreende-se que os jesuítas viajaram com Shabdrung em diferentes partes do reino antes de ficarem definitivamente hospedados em Chagri. Lembra o padre Cacela que “nestas serras e noutras o acompanhamos dois meses até chegar a sua casa que está naquela serra onde teve o seu recolhimento sem ter consigo mais do que os seus lamas”. Como bem salienta o padre português, o palácio fora propositadamente erguido para dar guarida ao rei e a alguns dos seus monges apenas. Situava-se num local agreste e de difícil acesso pois “para fazer aí uma casa é necessário muita penedia e aplainar com muito trabalho algum espaço da serra, que é muito alcantilada”.

Bengala e o Reino do Dragão – 32

Punakha e o fácies ocidental do ministro

Punakha e o fácies ocidental do ministro

Fugido à perseguição religiosa no Tibete, no século XVII, o rei Ngawang Namgyel (esse o verdadeiro nome de Shabdrung Rinpoche, literalmente, “aquele a cujos pés todos se prostram”) teve o mérito de criar um país unificado e com identidade distinta a partir daquilo que era até então uma manta de retalhos de pequenos feudos em guerra.

O que pode ser designado como segunda fase do programa de Shabdrung para governar o Butão começaria com o período de construção dos mosteiros-fortalezas de que falávamos numa das últimas edições, iniciado em Simtokha em 1629 e concluído em Lingzhi e Gasa por volta de 1646.

Bengala e o Reino do Dragão – 31

Os canhões da unificação

Os canhões da unificação

Situada a dois mil metros de altitude naquele que é considerado um dos mais belos vales do País, Paro foi desde tempos imemoriais relevante rota de comércio que ligava o Tibete ao subcontinente indiano e hoje ostenta (ainda) alguns dos mosteiros mais emblemáticos do Butão. Erguido em 1645, a mando de Shabdrung, o dzong de Rinpung (inconfundível devido ao seu telhado amarelo) usufrui de vista privilegiada sobre o vale de Paro. Durante séculos serviria este imponente edifício de cinco andares como eficaz meio de deterrência às inúmeras tentativas de invasão por parte dos tibetanos, e, já na era actual, tornar-se-ia mundialmente conhecido por terem sido aí filmadas muitas das cenas do filme “O Pequeno Buda”, de Bernardo Bertolucci.

Bengala e o Reino do Dragão – 30

Os dzongs defensivos

Os dzongs defensivos

A costumeira itinerância do monarca butanês deve-se também ao período conturbado da época. Datam dessa altura os inúmeros dzongs (mosteiros-fortalezas) que vemos espalhados pelo País, muitos dos quais construídos por iniciativa do monge guerreiro. Aliás, deve-se a ele esse conceito arquitectónico tão sui generis. O dzong de Simtokha, datado de 1629, o primeiro dos muitos que o “unificador do Butão” mandou erguer, funciona hoje como centro monástico e administrativo, e abriga um dos principais institutos de aprendizagem de Dzongkha, o idioma oficial do reino. Resistiu a inúmeros ataques, sendo um deles liderado por cinco lamas descontentes em estreita colaboração com o exército invasor tibetano.

Bengala e o Reino do Dragão – 29

O encontro com o rei monge

O encontro com o rei monge

Há muito que a notícia da presença dos padres no reino tinha chegado a Shabdrung. Após três dias de marcha, Cacela e Cabral depararam com uma aldeia onde os aguardava um outro lama que a mando do rei os viera buscar. Logo mandaram avisar Shabdrung e este expediu mais monges, desta feita com cavalgaduras ajaezadas para a circunstância. Assim, confortavelmente instalados, em cortejo, seguiram caminho os dignitários estrangeiros. Mais adiante seriam acolhidos por nova remessa de emissários. Nas palavras de Cacela, “outra gente sua convidando-nos com o seu chá, que eles e os seus usam muito”.

Bengala e o Reino do Dragão – 28

A capela escondida de Kyichu

A capela escondida de Kyichu

Em Paro, Cacela e Cabral enfrentaram novas dificuldades. O homem que os acompanhava roubou-lhes tudo o que levavam para sustento e alojou-os numa casa muito escura onde ficaram numa situação de quase cativeiro. Informa-nos a “Relação” que era “uma casa onde ao meio dia nos não víamos, e mais parecia cárcere que outra coisa”. Ao tentar sair desse local foram impedidos por familiares do tal homem, que correram a chamá-lo. E este impediu-os pela força: “Era notável a paixão com que este homem veio a nos impedir e querer outra vez à força meter em casa, valendo-se das armas e de tudo o que pôde contra nós”. Com toda a paciência e a ajuda de vizinhos, lá conseguiram desembaraçar-se do personagem e foram albergados essa noite em casa de “um bom velho que por amor de Deus Nosso Senhor nos fez gasalhado”.

Bengala e o Reino do Dragão – 27

Joaquim Magalhães de Castro

O Vale de Paro

Regressemos à viagem e aos seus protagonistas, que deixámos ficar às portas da antiga capital. Ao chegar a Paro, ao vigésimo quinto dia do mês de Março, festa da Anunciação, “dia em que o verbo se fez carne”, os missionários mostraram-se maravilhados com o vale, “mui formoso, largo e aprazível”, que se deparava à sua frente e se espraiava “entre serras que de uma e outra parte o vão acompanhado, elas em si alegres à vista e mui acomodadas, as searas de trigo e arroz de que então estavam cobertas”. Cacela chama-nos a atenção para os dois rios bordejados de salgueiros – “com muitas levadas de águas que das ribeiras saem” – e mostra-se bastante impressionado com a arquitectura local e o peculiar ordenamento urbano.

Bengala e o Reino do Dragão – 26

A moeda evocativa

A moeda evocativa

Considero estranho, agora, há distância de muitos meses, que o professor Yonten Dargye, aquando a nossa conversa num dos belos salões da Biblioteca de Thimphu, não tivesse feito qualquer alusão a uma moeda local evocativa da memória de João Cabral com o valor nominal de 300 ngultrum, emitida em 1994 pelas autoridades do seu país. Deparei com ela por mero acaso ao fazer uma pesquisa na Internet. No verso da dita temos em primeiro plano um João Cabral barbudo e de bordão na mão palmilhando terreno pedregoso. Em segundo plano uma outra pequena figura, quiçá o mesmo João Cabral, desta feita acompanhado de um iaque com uma enorme carga no lombo.