Category Archives: Cultura

Cartas do Bornéu – 19

As lantacas do sultão

As lantacas do sultão

Em 1523, Simão de Abreu seria enviado de Ternate a Malaca pelo primo António de Brito, inaugurando, por assim dizer, uma nova rota regular entre as Malucas e Malaca, fazendo ao mesmo tempo a primeira aproximação oficial lusa ao arquipélago filipino. Era a via do Bornéu que se abria em toda a sua extensão (até então as viagens oficiais regressavam sempre ao porto de origem, ou seja, Malaca), muito mais curta do que o caminho de Java e Banda, e que seria oficializada em 1526 pela viagem de D. Jorge de Meneses, assistindo nós aqui a uma reedição da visita da frota de Magalhães cinco anos antes, pois também Meneses é recebido com honras e fausto na corte do sultão Bolkiah.

Arquivo Histórico Ultramarino

ARQUIVO HISTÓRICO ULTRAMARINO

Um repositório de conhecimento

No Arquivo Histórico Ultramarino conserva-se grande parte do acervo documental das antigas colónias portuguesas, sobretudo a partir do século XVII. Este antigo palácio dos condes da Ega seria, durante o Estado Novo, adaptado para Arquivo Histórico Colonial com a documentação vinda da Biblioteca Nacional, hoje consultada por todos os que se interessam pela História da Expansão.

Cartas do Bornéu – 18

O trato e os padrões

O trato e os padrões

O trato de mercancia entre portugueses e a gente da ilha do Bornéu acontece na sequência da tomada de Malaca e da imediata necessidade de encetar cordiais relações com os sultanatos costeiros da região, quase todos islamizados, ficando à partida assegurado o apoio de reinos hindus e budistas sobreviventes à vaga proselitista, caso dos javaneses de Mahajpati e dos samatrenses de Minangakabau, que enviariam a Malaca, respectivamente, “ofertas de paz” e “quatro navios”, cortesias às quais Albuquerque correspondeu com igual peso e medida.

Cartas do Bornéu – 17

Atalaia marítima

Atalaia marítima

Embora nos garantam os serviços de turismo malaios que a zona norte do Bornéu está livre da ameaça de piratas, a verdade é que tudo pode acontecer, daí a existência de um posto de polícia junto à praia e da visita que me fizeram dois dos agentes escalados, a mim e à meia dúzia de estrangeiros presentes na altura. Pelo sim e pelo não, o melhor é proceder ao registo de todos os visitantes.

Confesso que me passou várias vezes pela cabeça a possibilidade de um rapto.

Cartas do Bornéu – 16

Porto de Nossa Senhora de Agosto

Porto de Nossa Senhora de Agosto

Assinala o ponto mais elevado da ponta do Bornéu um redondo monumento inaugurado em 2005 e não muito longe dele, com vista privilegiada para a baía em forma de lua crescente, uma placa de cimento a fazer lembrar as que ainda resistem no interior de Portugal, indicando quantos quilómetros faltam para os locais onde queremos chegar e lembrando-nos isso mesmo quando ali chegamos, com informação a respeito de um herói local, um chefe rungu. Diz-nos que o “bravo guerreiro” resistiu à agressão dos piratas invasores nessa baía, usual porto de desembarque desses predadores responsáveis pelo progressivo êxodo das tribos locais para o interior da ilha.

Cartas do Bornéu – 15

Posto de contemplação

Posto de contemplação

Boia o corpo inerte de uma tartaruga, inchado e de borco, nas águas da baía de Kudat, triste apontamento para um manso final de tarde nessa pacata cidadezinha onde aproveito para matar saudades de umas “parothas” e “teh tariks” como devem de ser. O “Madras”, restaurante tamil, é dos poucos a manter portas abertas até às dez da noite, grande é a ousadia pois o povo daqui deita-se com as galinhas.

Quem diria que foi outrora Kudat o mais importante entreposto do norte do Bornéu?

Cartas do Bornéu – 14

As casas longas dos rungus

As casas longas dos rungus

Do legado colonial de Jesselton três estruturas foram poupadas aos bombardeamentos aliados. Uma delas, a torre de Atkinson, com relógio e coruchéu de pontas recorvadas, qual pavilhão chinês, data de 1905 e deve-se à vontade de uma mãe inglesa em imortalizar o nome do filho, vitimido pelo tifo. Serviu de farol durante largos anos.

Após um olhar de relance aos edifícios dos Correios e do posto geral do turismo – as restantes sobrevivências – conversados ficamos quanto a cunhos históricos.

Cartas do Bornéu – 13

As convulsões de Api-Api

As convulsões de Api-Api

O solo agora ocupado pela capital da província malaia de Sabah estava ainda muitíssimo longe se tornar uma realidade urbana quando ao largo da sua costa, em Julho de 1521, bolinaram as naus Trinidad e Victoria, embora a região envolvente integrasse, desde a centúria de Quinhentos, o império do Brunei, cuja sede do poder os viajantes ibéricos tinham acabado de visitar.

Cartas do Bornéu – 12

Foto: Joaquim Magalhães de Castro

Espinhos do Mar de Sulu

Entre as muitas riquezas do Bornéu a mais cobiçada era a cânfora, “espécie de bálsamo” extraído do lenho de uma árvore endémica “que escorre em gotas, finas como fios de seda” e que uma vez exposto ao ar “se evaporava gradualmente”, como notava Pigafetta. Ainda hoje, a melhor das cânforas é obtida nas exuberantes florestas dessa ilha, que em termos de área surge logo a seguir à mastodôntica Gronelândia e à vizinha Nova Guiné.

A propósito: lembrava o cronista da magalhãnica expedição que o Bornéu era tão grande que para o circundar seriam necessários três meses de navegação.

Cartas do Bornéu -11

As andanças do “Carvalhinho”

As andanças do “Carvalhinho”

A este ponto da narrativa há um pormenor que merece particular atenção. Refiro-me ao mencionado “filho de Carvalhinho”, que teria cerca de oito anos de idade na altura em que foi feito refém e muito provavelmente passou o resto da vida na corte do sultão do Brunei. Ele foi, por assim dizer, o primeiro “brasileiro” a viajar para o Oriente e ali ficar.

Passo a explicar. Antes de ser alistado para a circum-navegatória tarefa, João Lopes de Carvalho era já piloto acostumado às correntes atlânticas, restingas e enseadas dessa nova terra prometida abundante em pau-brasil.

Cartas do Bornéu – 10

Os relatos dos cronistas

Os relatos dos cronistas

Cumprida a missão, a comitiva ibérica regressou aos navios e tudo não teria passado de mais um previsível início de relações comerciais entre povos de regiões antípodas, não fora um incidente que de modo dramático precipitou os acontecimentos. Informa-nos o cronista que na manhã de 29 de Julho, “uma segunda-feira”, viram aproximar-se das duas naus “mais de cem pirogas, divididas em três esquadrões”, e outros tantos “tungulis”, pequenas embarcações locais. Temendo vir a ser atacados à traição, os europeus desfraldaram as velas, e tão ansiosamente o fizeram que deixaram para trás uma das âncoras. As suspeitas adensaram-se quando se aperceberam de que oito embarcações de considerável porte, “chamadas juncos”, tinham ancorado na noite anterior na rectaguarda da Trinidad e da Victoria, interpretando o acto como uma estratégia de cerco levada a cabo pelos malaios.

Cartas do Bornéu – 9

Brocado, canela e cravinho

Brocado, canela e cravinho

Prosseguimos esta semana com o relato da recepção aos expedicionários da desmembrada frota de Fernão de Magalhães junto da corte do rei do Brunei, no já distante ano de 1521, tendo como fonte de referência a carta que nos legou António Pigafetta, o cronista oficial dessa assombrosa empreitada que alteraria a perspectiva que até então o homem europeu tinha do mundo.

Ao recebê-los o monarca afirmou que estava muito contente por saber “que o Rei de Espanha era seu amigo”, e que podiam abastecer-se com água e madeira e, se surgissem oportunidades, comerciar à vontade com os habitantes locais.

Cartas do Bornéu – 8

O encontro com o rajá Siripada

O encontro com o rajá Siripada

Uma centena de metros terra adentro, resguardados por um tecto de zinco, estão à vista uns quantos metros de pedras de granito – parte de uma área com um total de cem metros de comprido por cinco de largo, que foi alvo de escavações em 1980 – que constituíam a base da muralha que a pena de Pigafetta descreve como “um grande muro construído de grandes tijolos e com barbacãs, como nas fortalezas”. Erguida ao longo da costa, em frente à ilha artificial de Terindak, a sul, e, para norte, encarando terra firme, a muralha (idealizada numa maqueta à escala real exposta no Museu Marítimo) tinha dupla função: proteger Kota Batu de possíveis ataques e, simultaneamente, servir de via principal de acesso à dita cidade.

Cartas do Bornéu – 7

Ofertas de betel, arak e pães-de-açúcar

Ofertas de betel, arak e pães-de-açúcar

Regressemos ao ano de 1521 e ao dia após a chegada de tão exóticos visitantes, devidamente assinalada ao sultão local que logo mandou às naus Victoria e Trinidad uma luxuosa canoa cuja proa arvorava uma bandeira branca e azul “com penas de pavão no topo de uma vara”. Embarcados nessa canoa – que o italiano descreve como “uma espécie de fusta ou galera” – entre outros, flautistas e percussionistas, seguindo-a no encalço duas almadias, “que são barcos de pesca”. Oito dos “respeitáveis da ilha” subiram à nau capitânia, comandada por João Lopes Carvalho, e sentaram-se num tapete preparado para o efeito no castelo da popa.

Cartas do Bornéu – 6

A cidade de pedra

A cidade de pedra

Kota Batu, antiga capital do império do Brunei, não passa hoje de um parque arqueológico, ao que constato, e infelizmente, muito pouco frequentado, com a vantagem de ter como extras, nas proximidades, três unidades museológicas bastante interessantes e com entrada gratuita. Pena que o Museu Nacional, onde poderia encontrar alguma informação ou objectos relativos ao que se pode designar como “período português do Brunei”, esteja encerrado para obras de restauro, já lá vão alguns anos. Junto ao rio, o moderno Museu Marítimo é parcialmente patrocinado pela petrolífera francesa Total, financiadora das pesquisas subaquáticas da equipa de arqueólogos que em 1997 revelariam e resgatariam os despojos de um junco chinês naufragado ao largo da costa do Brunei, provavelmente o mais importante achado arqueológico do sultanato.