Category Archives: Cultura

Bengala e o Reino do Dragão – 15

Uma frustrante busca

Uma frustrante busca

Chegamos a Goalpara esperançados em encontrar vestígios dos tão badalados firingis. Anuncia o breve povoado a estátua branca de um dos rajás (certamente da casta Narayan), empunhando espada e escudo, e logo a uns cinquenta metros adiante o primeiro símbolo da cristandade indígena: a igreja paroquial. As freiras que aí habitam não nos sabem dizer quantos católicos existem e tão pouco entendem o significado do termo firingi. Ou se entendem fingem não entender, talvez devido à negativa conotação que a palavra tem hoje.

Bengala e o Reino do Dragão – 14

A Rangamati dos firingis

A Rangamati dos firingis

Ao virar do século XVII surgem inúmeras referências a uma comunidade cristã de dimensão considerável, certamente de origem firingi, em Rangamati, nas margens do Bramaputra. Um texto datado de 1682 e da autoria dos monges agostinhos residentes em Bandel (Hooghly), em Bengala, dedica alguns parágrafos à comunidade cristã de Rangamati que totalizava nessa altura sete mil almas. Frey Sicardo, o padre agostiniano que aí atendia as necessidades espirituais dos católicos, faz referência a um outro local que os registos referem como Hossumpur (ou Ossumpur), aparentemente nas cercanias de Rangamati, onde residiria uma outra comunidade de firingis.

Bengala e o Reino do Dragão – 13

Os mercenários europeus

Os mercenários europeus

A presença de mercenários europeus entre as hostes dos exércitos asiáticos tem longo historial. Já aquando da histórica viagem de Vasco da Gama à Índia, em 1498, era assinalada a existência de militares italianos ao serviço de vários rajás da costa de Malabar. Consta até que dois dos tripulantes da frota do Gama, atraídos por salários mais apetitosos, acabaram por seguir o exemplo dos transalpinos. Pode dizer-se que a tradição mercenária europeia no Hindustão, que se perpetuaria ao longo de três séculos, terá começado com as deserções de soldados portugueses de Goa – habitualmente mal pagos, tendo de recorrer por vezes à ajuda alheia para sobreviver – atraídos pelas perspectivas de uma vida folgada alhures no continente onde a poligamia e a concubinagem não eram condenados.

Bengala e o Reino do Dragão – 12

Portugueses “filhos de Indos”

Portugueses “filhos de Indos”

No dia seguinte, e antes de partir para Cooch Behar, mais uma vez no pergunta-a-este-e-no-pergunta-aquele em busca de um templo em Pandu que acabamos por não conseguir encontrar, vimo-nos de novo junto ao Bramaputra, desta feita mesmo em frente da ilha fluvial, possivelmente no preciso local onde embarcaram os padres. É Domingo e o rio serve de banheira a famílias inteiras. Uma longa vara de bambu presa na lama segura uma embarcação e faz a vez de remo quando esta se põe em marcha. Manobra o leme com a perna direita o piloto-capitão, enquanto fala ao telemóvel. Muito descontraidamente.

Bengala e o Reino do Dragão – 11

Em busca do palácio do Liquirinane

Em busca do palácio do Liquirinane

Ao convidar-nos a entrar no Hayagriva Madhava logo avisa o guardião tornado guia que será necessário mais tarde dar uns trocos ao brâmane-mor. Já no interior, chama-nos a atenção para um pilar partido, «devido a um terramoto», e para o local reservado ao sacrifício de animais (hoje aí se derrama leite de coco em vez de sangue), que «não se pode filmar». Insiste, no entanto, para que registemos imagens do poste danificado. Espera com isso sensibilizar o Governo da Índia, mais propriamente o «departamento da Arqueologia», para a urgência de uma pronta reparação. O homem certamente pensa que somos indianos de uma outra província, pois é em língua inglesa que os habitantes do vasto subcontinente comunicam entre si.

Bengala e o Reino do Dragão – 10

As cocas negras do Bramaputra

As cocas negras do Bramaputra

Durante a curta deslocação à beira-rio deparamos com duas negras embarcações de madeira de convés alto e fundo chato varadas no areal. No seu todo, seja nas obras vivas ou nas obras mortas, não parece haver um único prego, antes cavilhas de lenho. Terá sido num barco do género que Cacela e Cabral retornaram ao Bramaputra, desta vez para refazerem o caminho em sentido inverso. Umas meras milhas somente, pois Hajo era logo ali ao lado. Diz-nos Cacela que se “aparelharam algumas cocas mui fermosas em que viemos a Azó, e ao dia seguinte fomos com ele visitar o Rei”. O jesuíta não se esquece de assinalar a popularidade gozada pelo pequeno rajá de Pandu. Pelos vistos, era muito generoso com a população.

Bengala e o Reino do Dragão – 9

O rajá de Pandu

O rajá de Pandu

O reino do Cocho assentava, na época, a sua capital na cidade de Hajo. Embora a tivessem avistado, no lado norte do Brahmaputra, não era esse o destino dos padres, antes Pandu, centro nevrálgico de uma região recentemente conquistada pelos mogóis ao reino de Assam, cujo território estendia os seus limites a leste dali. Como escreve Cacela, “é Pandó terra não muito grande, mas mui frequentada, e de não se alargar muito pela terra adentro, mas estar estendida na praia deste formoso Rio do Cocho, é a causa a guerra que tem de contínuo com os assanes que confinam com Pandó, terra última do Reino por aquela parte”.

Bengala e o Reino do Dragão – 8

Rumo ao reino do Cocho

Rumo ao reino do Cocho

A viagem dos jesuítas rumo ao reino do Cocho foi feita pelo Bramaputra, ou por algum dos seus afluentes, rio acima, presume-se, numa embarcação de tamanho considerável. É que os padres levavam com eles objectos vários, entre os quais pesadas peças de artilharia. O facto, porém, não é mencionado uma única vez no relato de Estêvão Cacela. Iremos a essa questão mais adiante.

Os rios eram as principais estradas da época. Ademais, entre Bengala e a capital de então do reino de Cocho, no presente Estado indiano do Assam, estendia-se uma cadeia montanhosa parte integrante da província de Meghalaya.

Bengala e o Reino do Dragão – 7

Os dingis do Buriganga

Os dingis do Buriganga

Os quase quinze milhões de habitantes de Daca são, por si só, sinónimo de alta probabilidade de incidência de descontentes, daí que nas congestionadas ruas desta cidade seja comum cruzarmo-nos com manifestantes de muitos e variados pendões. Estavam à espera de quê? Este é um policromado ecrã de vidas inteiras esparramadas nas poeirentas e sujas redes viárias; vidas que improvisam a sobrevivência por entre os riquexós e as viaturas maltratadas. E no entanto, qual às de ouros fugido à cartada, ou seja, à amálgama de lataria e povo, com surpreendente regularidade somos prendados com magníficas carroças argênteas puxadas por parelhas ou quatro escanzelados e sofridos cavalos.

Bengala e o Reino do Dragão – 6

O testemunho de Manrique

O testemunho de Manrique

Sebastião Manrique, missionário agostinho e viajante português, visitou Daca em Setembro de 1640 e ali se demorou cerca de vinte e sete dias. Segundo ele, a cidade estendia-se ao longo do rio Buriganga por mais de quatro milhas e meia; de Maneswar até Narinda e Fulbaria. Várias comunidades cristãs viviam em redor desses subúrbios a oeste, a leste e a norte do coração da metrópole. Manrique menciona ainda a existência em Daca de “uma pequena, mas bela igreja com um convento”. Eis as suas palavras: “Esta é a principal cidade de Bengala e a sede do principal do Nababo ou vice-rei, nomeado pelo imperador, que conferiu este vice-reinado, em várias ocasiões, a um dos seus filhos.

Bengala e o Reino do Dragão – 5

A frenética babel de Daca

A frenética babel de Daca

Daca recebe-nos, logo à saída do aeroporto internacional de Hazrat Shah Jalal, como só ela sabe receber. Com um trânsito infernal, misto de riquexós a pedal ou motorizados, um dos quais verdadeira gaiola para transporte de crianças em idade escolar, e autocarros e camiões de chapa amolgada, tinta raspada e meio apodrecidos. E é claro, um mar de peões, quantos deles peões-de-Brega evitando o touro (leia-se viaturas), todos em busca de espaço para passar. Há ainda militares de camuflado azul mesclado com o familiar verde azeitona, sinaleiros à sombra de guarda-sóis, agentes da Tourist Police (ou lá o que isso significa num país com baixo índice de visitantes) montados em potentes motos a fazer inveja aos comuns agentes, camaradas seus de bastão em riste que de quando em vez zurze nos traseiros e espáduas dos mais incautos.

Bengala e o Reino do Dragão – 4

O cristão de São Tomé

O cristão de São Tomé

Para minha surpresa constato que, em Hugli, há quem esteja ao corrente de alguns dos aspectos ligados à saga dos jesuítas João Cabral e Estêvão Cacela. É o caso do pároco local Toni Keli, originário da diocese de Meliapor, «cristão de São Tomé», como orgulhosamente faz questão de salientar.

Na realidade, como foi aqui dito a semana passada, João Cabral regressaria a Hugli em 1632, após duas estadas no Tibete, tendo então presenciado um dos acontecimentos mais dramáticos da história da cidade.

Reflexão sobre vários patrimónios

Valmor e outras arquitecturas

Valmor e outras arquitecturas.

Quando morreu, em 1898, Fausto de Queiroz Guedes, visconde de Valmor, mal imaginava quantas viriam a ser as interpretações dadas ao galardão que ele acabara de instituir para o futuro, assim expresso no seu testamento: “Deixo mais cincoenta contos à Cidade de Lisboa afim de que esta quantia forme um Fundo cujos rendimentos anuais constituam um Prémio que será anualmente dado em duas partes iguais ao Proprietário e ao Architecto do mais bello prédio ou casa edificada em Lisboa, com a condição porém de que essa casa nova, ou restauração de edifício velho, tenha um estylo architetónico Classico, Grego ou Romano, Romão-Gothico ou da Renascença, ou algum tipo artístico Portuguez, enfim um estylo digno duma cidade civilizada”.

Bengala e o Reino do Dragão – 2

O porto pequeno de Satgaon

O porto pequeno de Satgaon

Tomé Pires e Duarte Barbosa são os primeiros a dar-nos notícias dos reinos de Bengala povoados por “gente de peleja e de trato”, ou seja, guerreiros e mercadores, chamando desde logo a atenção para riquezas como o algodão, o açúcar, o gengibre e os “panos pintados e finos”. Foi apenas uma questão de tempo até que os portugueses começassem a chegar, aportando ao principal porto fluvial (com o nome de Bengala), e percorrendo depois o leito do rio a jusante ao longo de dois dias até chegar ao porto de Satgaon, que passaria a ser designado como “Porto Pequeno”, para diferenciá-lo de Chatigão, também conhecido como Porto Grande de Bengala, e onde os portugueses se encontravam instalados pelo menos desde 1518.

Bengala e o Reino do Dragão – 1

De Cochim a Bengala

De Cochim a Bengala

Pequena e enigmática monarquia budista, o Butão emerge como entidade política e social no início do século XVII, numa altura em que os jesuítas portugueses devassavam faldas, vales e cumes da cadeia dos Himalaias em busca de rotas que os conduzissem ao mítico Cataio onde esperavam encontrar irmãos na fé, tresmalhados da ortodoxia de Roma, é certo, mas possíveis aliados na resistência e luta contra os muçulmanos, eternos rivais e indomável travão ao esforço luso de hegemonia política, religiosa e mercantil na Ásia.