Category Archives: Cultura

Bengala e o Reino do Dragão – 25

O papel civilizador de Shabdrung

O papel civilizador de Shabdrung

Como já aqui foi dito, Shabdrung Rinpoche chega ao Butão, em 1616, na condição de refugiado político do Tibete e, no espaço de uma década, logra unificar toda a região oeste. Com ele chega a lei e a ordem a esse remoto latíbulo dos Himalaias. Como bem especifica o biógrafo Tsang Khenchen, “é a partir de então reprimido todo o tipo de roubo, banditismo e outros comportamentos maliciosos”, incluindo o desrespeito, a falta de compaixão e a ingratidão. Assim, “o país tornou-se pacífico e próspero”.

O modelo político adoptado por Shabdrung associava a religião ao Estado. Faltava, porém, cumprir uma tarefa: comunicar com o povo.

O plágio do livro de Deana Barroqueiro

A noiva de Fernão Mendes Pinto

A noiva de Fernão Mendes Pinto

Respigo esta semana, e a respeito do plágio que João Botelho fez da obra de Deana Barroqueiro “O Corsário dos Sete Mares” no seu mais recente filme “Peregrinação”, um resto de conversa que ficou por transcrever após uma entrevista feita a essa escritora de romances históricos aquando da sua participação no festival literário Rota das Letras, já lá vão alguns anos. Curiosamente, a temática desse resto de conversa diz respeito a um dos episódios que Botelho incluiu no seu filme como se fizesse parte do enredo da obra de Fernão Mendes Pinto, quando, na verdade, é uma ficção de Deana Barroqueiro, se bem que inspirada na tradição oral da região de Tanegashima.

Bengala e o Reino do Dragão – 24

A conversa na biblioteca

A conversa na biblioteca

Dada a especificidade da nossa visita, e após o pequeno-almoço que conta na ementa com o delicioso e nutritivo arroz vermelho, a opção para essa manhã só pode ser a Biblioteca Nacional, fundada em 1967 com o objectivo de “preservar e promover o rico património cultural e religioso do Butão”. De resto, em frente a esse edifício tradicional de quatro andares que mais parece o templo da torre central de um dzong, aguarda-nos Yonten Dargye, director do centro de pesquisa. A agência de viagens tivera previamente o cuidado de o contactar, solicitando os seus serviços. Verdade seja dita: antes de nos metermos em aventuras, não nos fica nada mal aprendermos o máximo que pudermos acerca da história local.

Bengala e o Reino do Dragão – 23

A capital Thimphu

A capital Thimphu

Informa-nos a “Relação” que no dia em que Cacela e Cabral chegaram a Rintam (actual Chapcha, como já vimos) chegou também um parente do homem que lhes negociara a jornada em Rangamati. De imediato, este se dispôs a conduzi-los a Pargão (Paro), principal cidade do reino, e a encontrar alguém que os levasse à presença do rei. Dito e feito. Quatro dias depois os padres jesuítas estavam em Paro.

Não é esse ainda o nosso destino. Lá iremos. A primeira pernoita será na capital Thimphu, onde chegamos é já noite cerrada. O alojamento, se bem que não comprometa, está longe de corresponder às expectativas.

Bengala e o Reino do Dragão – 22

O cerimonial da “fova”

O cerimonial da “fova”

Intrigados nos deixa, logo à chegada, uma pequena fogueira no meio do estradão que um homem de meia idade de quando em vez atiça com a ajuda de uma longa vara. Trata-se, como informa Sangay, de um ritual de cremação conhecido entre os povos de origem tibetana como “fova”. Quando algum membro destas comunidades morre, uma parte dos seus objectos pessoais é distribuída pelos mais necessitados enquanto a outra é queimada, como prova de total desapego às coisas materiais deste mundo. Durante a sua estada no reino, os padres devem ter presenciado cerimoniais do género, pois Estêvão Cacela dá-nos notícia dessa e de outras práticas semelhantes.

Bengala e o Reino do Dragão – 21

O trono e o milagre no rio

O trono e o milagre no rio

Sangay leva-nos directamente ao mosteiro local, após décadas de incúria, há bem pouco tempo reabilitado. Seriamente esventrado por um terramoto ocorrido em 1978, como as fendas nas paredes de uma stupa anexa sobrevivente o comprovam, esteve todos estes anos em eminente perigo de derrocada, pondo em causa a segurança das crianças de uma escola ali perto que do terreno anexo faziam o seu campo da bola. Visitaram Chapcha entretanto alguns investigadores – «duas japonesas e dois sujeitos de uma outra nacionalidade, não me recordo qual» – e, em 1988, nesga de esperança despontaria com o interesse manifestado por Pierre Richard, representante em Pondicherry da prestigiada Escola Francesa do Extremo Oriente, que em Chapcha levou a cabo um estudo e sem sucesso tentou obter fundos do Eliseu para uma reabilitação que só chegaria já na segunda década do século XXI.

Bengala e o Reino do Dragão – 20

Chapcha, o lugar do rei

Chapcha, o lugar do rei

Após o assalto, desprovidos de alguém que fosse entendedor da língua local – “no meio de serras frequentadas de ladrões, sem ter quem me guiasse avante” – já que os intérpretes tinham sido cúmplices do crime, Estêvão Cacela e o moço não tiveram outra alternativa senão regressar ao ponto de partida. Um penoso estirão que durou toda a noite trouxe-os de novo à aldeia onde ficara João Cabral. Para bem aquilatarmos a dureza da coisa, atentemos ao que vem descrito na “Relação”: “acompanhando-nos mui bem o frio e o vento passando pela neve, que neste mês de Março aqui não falta, e assim pela escuridade da noite, como pelos caminhos destas subidas e descidas serem mui estreitos, e de serras mui alcantiladas era necessário andar boa parte da noite com pés e mãos juntamente para o que me ajudava muito terem-me deixado os companheiros desembaraçado só com o meu breviário e bordão”.

Bengala e o Reino do Dragão – 19

Moinhos de água oratórios

Moinhos de água oratórios

A contínua sucessão de curvas e contracurvas, que nos permite galgar metros em altura também, dão direito a breves paragens para adquirir bananas a uma família de vendedores de estrada e, uns quilómetros mais adiante, leite fermentado de égua – bebida bastante refrescante e muito do meu agrado, com sabor parecido ao airag mongol – a uma rapariga de desarmante beleza rústica que está acompanhada pela avó. Esta, nem tuge nem muge. Limita-se a fazer trançados com hortaliças silvestres.

Bengala e o Reino do Dragão – 18

A árvore de Cacela e Cabral

A árvore de Cacela e Cabral

Prolongam-se os mencionados “jardins de Rangamati” até ao sopé da montanha butanesa de onde brotam as águas do Kaljani, afluente do Torsha, o grande rio que nasce no Butão e as planícies irriga antes de desaguar no Bramaputra. Na sua margem direita se cravou e expandiu Jaigaon.

As ruas da cidade vestem-se essa tarde com grupos de foliões de rosto coberto com pó colorido numa espécie de celebração antecipada do holi, festividade hindu agora em voga após ter sido integrada à pressão, por óbvias razões mercantilistas, no calendário festivaleiro de uma já gasta Europa em busca de novas sensações.

Bengala e o Reino do Dragão – 17

Tigres e chá de Buxa

Tigres e chá de Buxa

Apesar do descritivo patente nos escritos de Estêvão Cacela, da tão celebrada Colamborim (actual Kalabari) não restam quaisquer vestígios. Quanto a Rangamati é nome que perdura na vasta região ocupada pelas plantações de chá na vizinhança da fronteiriça Jaigaon. Metade da área desta cidade situa-se em território butanês e tem o nome de Phuentsholing.

Os primeiros butaneses com quem Cacela e Cabral se depararam alertaram-nos para as dificuldades que teriam de se submeter até chegar a esse reino, informando-os ainda que naquela época do ano a viagem não era possível “a respeito das muitas neves, ventos e chuvas de que diziam coisas notáveis”.

Bengala e o Reino do Dragão – 16

O Palácio do Gaburassa

O Palácio do Gaburassa

Surpreendeu-me a reduzida dimensão da Cooch Behar com que nos deparámos, tinha já o dia encerrado os seus umbrais. Não fosse o caótico tráfego, pecha de toda a urbe hindustânica, dir-se-ia estancada no tempo. Sim, confesso, estava à espera de cidade mais avantajada. Compatível com os animados mercados de rua que aproveitando a amenidade pós-período de exposição solar vivem sobretudo à noite com exagerada explosão de luz e movimento, humano e motorizado. Ficamos hospedados numa das melhores pensões locais, a BD, com corredias cortinas de carmesim ao longo das janelas largas. Enfim, um luxo à indiana, embora não dispense as carpetes puídas e uma boa dose de pó. É tal a descontraída descaradez que nem se dão ao trabalho de o dissimular.

Bengala e o Reino do Dragão – 15

Uma frustrante busca

Uma frustrante busca

Chegamos a Goalpara esperançados em encontrar vestígios dos tão badalados firingis. Anuncia o breve povoado a estátua branca de um dos rajás (certamente da casta Narayan), empunhando espada e escudo, e logo a uns cinquenta metros adiante o primeiro símbolo da cristandade indígena: a igreja paroquial. As freiras que aí habitam não nos sabem dizer quantos católicos existem e tão pouco entendem o significado do termo firingi. Ou se entendem fingem não entender, talvez devido à negativa conotação que a palavra tem hoje.

Bengala e o Reino do Dragão – 14

A Rangamati dos firingis

A Rangamati dos firingis

Ao virar do século XVII surgem inúmeras referências a uma comunidade cristã de dimensão considerável, certamente de origem firingi, em Rangamati, nas margens do Bramaputra. Um texto datado de 1682 e da autoria dos monges agostinhos residentes em Bandel (Hooghly), em Bengala, dedica alguns parágrafos à comunidade cristã de Rangamati que totalizava nessa altura sete mil almas. Frey Sicardo, o padre agostiniano que aí atendia as necessidades espirituais dos católicos, faz referência a um outro local que os registos referem como Hossumpur (ou Ossumpur), aparentemente nas cercanias de Rangamati, onde residiria uma outra comunidade de firingis.

Bengala e o Reino do Dragão – 13

Os mercenários europeus

Os mercenários europeus

A presença de mercenários europeus entre as hostes dos exércitos asiáticos tem longo historial. Já aquando da histórica viagem de Vasco da Gama à Índia, em 1498, era assinalada a existência de militares italianos ao serviço de vários rajás da costa de Malabar. Consta até que dois dos tripulantes da frota do Gama, atraídos por salários mais apetitosos, acabaram por seguir o exemplo dos transalpinos. Pode dizer-se que a tradição mercenária europeia no Hindustão, que se perpetuaria ao longo de três séculos, terá começado com as deserções de soldados portugueses de Goa – habitualmente mal pagos, tendo de recorrer por vezes à ajuda alheia para sobreviver – atraídos pelas perspectivas de uma vida folgada alhures no continente onde a poligamia e a concubinagem não eram condenados.

Bengala e o Reino do Dragão – 12

Portugueses “filhos de Indos”

Portugueses “filhos de Indos”

No dia seguinte, e antes de partir para Cooch Behar, mais uma vez no pergunta-a-este-e-no-pergunta-aquele em busca de um templo em Pandu que acabamos por não conseguir encontrar, vimo-nos de novo junto ao Bramaputra, desta feita mesmo em frente da ilha fluvial, possivelmente no preciso local onde embarcaram os padres. É Domingo e o rio serve de banheira a famílias inteiras. Uma longa vara de bambu presa na lama segura uma embarcação e faz a vez de remo quando esta se põe em marcha. Manobra o leme com a perna direita o piloto-capitão, enquanto fala ao telemóvel. Muito descontraidamente.