Category Archives: Ásia

Relações Históricas entre Macau e as Filipinas

RELAÇÕES HISTÓRICAS ENTRE MACAU E AS FILIPINAS

Um estranho mútuo desconhecimento

Bernardita Reys Churchill, presidente da Sociedade de História Nacional das Filipinas e da Associação de Estudos Filipinos, por assim dizer a autoridade máxima no que se refere à história do arquipélago, mencionou em tempos (numa conferência a que assisti) o facto de nunca ter sido prestada muita atenção, por parte dos historiadores filipinos, ao período marcado pela chegada dos primeiros europeus, realçando que para além da viagem do conhecido Fernão de Magalhães, o evento mais recordado é o bloqueio a Cebu levado a cabo pelo capitão português Gonçalo Pereira Marramaque no contexto da rivalidade luso-espanhola pela hegemonia do comércio na região em meados do século XVI.

Diplomacia Económica e Investigação

As difíceis barreiras a transpôr

As difíceis barreiras a transpôr.

1. É já um lugar comum dizer-se que as relações culturais abrem oportunidades para os negócios. Em Manila, por exemplo, num dos melhores centros comerciais, abriu em tempos uma loja da Vista Alegre na sequência da organização de uma semana cultural portuguesa – lovável iniciativa da embaixada lusa – que ficou marcada pela música, a gastronomia e o teatro. Aí se ouviu num mesmo palco, uma banda da Guiné, outra do Tugu (Jacarta) e uma terceira do Brasil, e o público filipino, muito naturalmente, aderiu, pois, como o restante público asiático, gosta do que é diferente e de imediato compreende a mensagem.

Centro de Estudos Portugueses para o Sudeste Asiático (CEPESA)

CEPESA

Em busca dos traços indentitários lusófonos.

O CEPESA – Centro de Estudos Portugueses para o Sudeste Asiático é uma unidade de investigação do Ministério da Ciência e do Ensino Superior, inaugurada a 13 de Março de 2000 na altura em que o ministro da Ciência era ainda Mariano Gago. Pretendia-se coordenar as actividades dispersas de investigadores com experiência para a região do Sudeste Asiático e para as áreas adjacentes, especialmente Macau e o Sul da China, e tentar desenvolver um projecto institucional de investigação no domínio das Ciências Sociais.

Invasão do Iraque – Treze anos depois (2)

A cirurgia e os tiros que sobram

A cirurgia e os tiros que sobram.

Não acredito muito em cirurgias. E muito menos em cirurgias limpas. Cirurgia mete sempre muito sangue. Na guerra, então, as probabilidades de uma operação bem sucedida são reduzidíssimas.

Começaram por ser esparsos, precisos, os bombardeamentos a Bagdade, há treze anos, dando assim origem à uma guerra que está na origem ao ambiente de terror em que o mundo vive hoje. Os bombardeamentos visavam os palácios e os “bunkers” onde supostamente estaria o ditador e pandilha, só que falhou redondamente a dita tentativa de “decapitação do regime”.

Invasão do Iraque – Treze anos depois

GUERRA, ESSA ESPECIFICIDADE DO SER HUMANO

A guerra foi, é e será sempre o mais ridículo, insensato, cruel e estúpido de todos os actos. Actividade específica ao ser humano, é daquelas coisas que, pela negativa, nos distingue dos restantes animais. O animal-animal mata mas não faz guerra.

Não tortura, não toma prisioneiros. O animal-animal, aliás, despreza profundamente a guerra.

Uma guerra contra a cultura e a história

Os saques dos museus no Iraque

Os saques dos museus no Iraque

No rescaldo de mais um horrendo atentado em Bagdade, daqueles que não merecem grande atenção na redes sociais, onde a “solidariedade” se manifesta consoante a nacionalidade da vítima, lembremos aqui o saque dos museus e da Biblioteca Nacional do Iraque, e a subsequente destruição de toda uma valiosa herança cultural, um crime histórico do qual é principal responsável a Administração Bush.

Medicinas Orientais

MEDICINAS ORIENTAIS

O foco no indivíduo

Numa época em que tanto se fala de preservação da saúde e cada vez mais se buscam modos de vida e de cura alternativos, ousemos uma pequena incursão pelos meandros dessa sabedoria ancestral.

A dita medicina oriental, ou medicina tradicional chinesa, teve a sua origem na China antiga há mais de dois mil anos. E centra-se, essencialmente, em dois vectores: a medicina das plantas e a acupuntura.

Dia Internacional Anti-Nuclear

Urakami e o apelo à paz

Urakami e o apelo à paz.

Celebra-se hoje o Dia Internacional Anti-Nuclear e nunca é por demais lembrar esse sempre ameaçador e previsível pesadelo para a Humanidade, que nos derradeiros dias da Segunda Grande Guerra deu a provar do seu veneno. Barack Obama, na sua recente deslocação ao Japão, visitou Hiroshima, mas esqueceu Nagasáqui, cidade fundada por mercadores e missionários portugueses em 1571 e cuja característica topográfica – com bairros construídos ao longo das colinas, estilo plasmado das lusas urbes – acabaria por mitigar os efeitos apocalípticos da “Fatman”, a segunda bomba atómica da História da Humanidade. Daí que o número de vítimas tenha sido bem inferior à da hecatombe cometida em Hiroshima, apesar da carga mortífera ter sido maior.

Pregadores contra estalinistas

Realidades quirguizes

Realidades quirguizes.

Junto a um pequeno cineteatro do centro de Bishkek, capital do Quirguistão, congregara-se uma pequena multidão domingueira. Convencido de que haveria alguma “matinée” artístico-cultural, ao jeito do socialismo de outrora, segui-a até ao interior da sala de espectáculos. No palco afinavam-se guitarras e testava-se a dureza das peles do bombo da bateria. Uma rapariga com um colorido crachá na lapela no casaco e olhar atento indicou-me uma cadeira. Perguntei-lhe: «– Concert?» Disse que não com a cabeça e depois, com um breve movimento de lábios, quase num murmúrio, esclareceu-me: «– Church». Tarde demais. Ia assistir, quisesse ou não, a um serviço religioso da Igreja de Cristo, congregação que, apenas em dois anos, reunira já à sua volta mais de seiscentos fiéis, só em Bishkek.

Ocupação australiana do mar de Timor

OCUPAÇÃO AUSTRALIANA DO MAR DE TIMOR

A difamação como estratégia

A respeito da mais recente tentativa australiana de se apoderar dos recursos de Timor-Leste, ocupando ilegalmente uma vasta área do Mar de Timor – que, de resto, teve resposta à altura, com milhares de manifestantes a concentrarem-se em frente da representação diplomática de Camberra em Díli, gritando o seu protesto – e antecipando já previsíveis futuras campanhas difamatórias, recordemos aqui algumas anteriores tentativas de denegrir a jovem nação, pois essa tem sido a estratégia utilizada pelo gigantesco vizinho do Sul.

Celebração ecuménica na Ilha das Flores

Uma Páscoa tropical

Uma Páscoa tropical

Entre as comunidades de luso-descendentes da Ilha das Flores, na Indonésia, a Semana Santa celebra-se a três tempos. Ei-los:

QUARTA-FEIRA TREWA

No interior da capela, mulheres ajoelhadas acendem velas atrás de velas. Nas filas posteriores, mais mulheres, algumas crianças e homens, rezam com compenetrada devoção. É a tribo de Jentera que encerra a semana de orações na capela dedicada a Nossa Senhora do Rosário (Tuan Ma), em Larantuca, capital espiritual das Flores. Uma das Mama Mudji (mães da música) enuncia o cântico, e logo as outras o continuam. Empunham, todas elas, livrinhos com preces em Português corrompido. Textos que ao longo de gerações foram copiados à mão. Rezam e cantam – as senhoras desta irmandade – Pais-nossos, Aves-marias e Salve-rainhas em Português, mas nenhuma delas entende o que diz.

Domingo de Ramos em Larantuca

DOMINGO DE RAMOS EM LARANTUCA

Minggu Ramu e a Confraria do Rosário

Em Larantuca, no extremo leste da Ilha das Flores, Indonésia, a tradição pascal remonta ao século XVII, aquando da chegada de dezenas de famílias católicas, portuguesas e mestiças, refugiadas de Macassar, nas ilhas Celebes, na sequência da ocupação holandesa, em 1660. Mas antes das Celebes, a tão celebrada Malaca portuguesa, anterior a 1641, fora chão pátrio de muita dessa gente que dali trouxera tradições, ícones e a devoção a Nossa Senhora do Rosário, um culto que subsiste hoje com uma intensidade igual à de outros tempos. Orientada pelo dominicano frei Lucas da Cruz – que conseguiu reunir os valiosos objectos de culto resgatados da igreja de São Domingos de Surian, em Macassar – essa leva de refugiados veio reforçar a comunidade católica já existente em Larantuca.

Religiões do subcontinente indiano

Os nossos orientalistas ignorados

Os nossos orientalistas ignorados

No que diz respeito à divulgação das religiões não-cristãs na Europa, os portugueses precederam, em duzentos e trezentos anos, os orientalistas franceses, belgas e ingleses, se bem que nos estudos publicados ao longo dos séculos XIX e XX muito raramente os seus nomes são mencionados.

Diogo de Couto, na sua obra “Década da Ásia”, no capítulo dedicado à História da Índia, e a propósito do Pico de Adão, no Ceilão, identifica o célebre São Josaphate, ou São Josafá, até à altura considerado cristão, com Buda Sidarta Gautama. Na realidade, a lenda de Josafá é uma versão medieval da vida de Buda. A história seria inicialmente islamizada, como “a lenda de Bilahwar e Budasaf”, e, em seguida, passará para a ficção cristã, como “a lenda de Barlaão e Josafá”.

Pré-Quaresma no seminário de Ledalero

A força do vínculo religioso

A força do vínculo religioso.

Aqui há uns anos, aquando a minha viagem pela Indonésia em busca do legado português naquele arquipélago, assisti a um casamento entre dois membros da comunidade luso-descendente de Maumere, capital da ilha das Flores. Estávamos a breves dias do início da Quaresma e essa era a última cerimónia mundana antes do período de reflexão e jejum, preceitos que aquela comunidade católica leva bastante a peito.

O padre que presidiu ao casamento quis saber coisas acerca de Portugal pois iria passar um ano em Lisboa, «para aprender Português». Moçambique era terra de futura missão.

Lembrar o apoio da Igreja Católica a Aung San Suu Kyi

LEMBRAR O APOIO DA IGREJA CATÓLICA A AUNG SAN SUU KYI

Um momento histórico.

Numa altura em que o povo de Myanmar vira uma importante página da sua história conduzindo ao poder Aung San Suu Kyi, Prémio Nobel da Paz e incansável lutadora pela democracia naquele país, evoquemos aqui a oposição à ditadura militar manifestada desde sempre pela Igreja Católica local, aqui representada pelo já falecido bispo de Mandalay, D. Alphonse U Than Aung, descendente de portugueses.

Quando o conheci, no âmbito das minhas investigações sobre a comunidade bayingyi (luso-descendentes), lembrou-me que os generais tinham as universidades fechadas há mais de um ano.