Jornal O Clarim

Semanário Católico de Macau

MISSA DOMINICAL EM BANGUECOQUE
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Missa Dominical em Banguecoque é exemplo para o Mundo

Espiritualidade, respeito e valores.

São 9 horas e 55 da manhã. O táxi pára à porta da Sé de Banguecoque, a Catedral da Assunção. No exterior juntam-se os acólitos, sob a orientação de uma “mestre de cerimónias”. Por se tratar de uma mulher passa-nos pela cabeça a possibilidade de nos termos enganado: “Será que viemos ao sítio certo? É esta uma igreja católica? Ou será anglicana?”. A resposta surge logo depois com a chegada do padre, natural da Austrália, ao átrio.

Escolhemos um assento, o mais próximo possível do altar, deslumbrados com a decoração do templo. Talha dourada, vitrais, imagens, inúmeros pormenores decorativos, grandeza, espaço – sinais da presença pujante do Catolicismo na Tailândia; de uma dedicação à religião minoritária no País, que a nova geração herdou dos antepassados ou que fez sua a determinado momento da vida.

Estamos – convém referir – na área da antiga concessão portuguesa de Banguecoque. Como tal, estamos também perante mais um legado deixado pelos portugueses no Sudeste Asiático, mais precisamente no Reino do Sião.

As vozes do coro anunciam o início da Missa Dominical. A catedral quase se torna pequena – e frisamos que é bem grande – para tantos fiéis (tailandeses e turistas), que não quiseram deixar de participar em mais uma missa do Tempo da Quaresma. A cerimónia segue o ritual de sempre – a Igreja é de facto universal.

Para o 3º Domingo da Quaresma está guardada uma das mensagens mais importantes do Catolicismo: “Deus enviou o Seu Filho para dar a Sua graça aos homens e por eles morreu”. O coro segue o momento a preceito com cânticos comoventes, secundado pela Assembleia de Fiéis.

Os telemóveis estão no silêncio, as conversas entre familiares e amigos serão apenas retomadas no final da missa. Entre as leituras, as orações e os cânticos, reina o silêncio, e os fiéis (quase estáticos, em introspecção) reflectem e choram de emoção.

A experiência rapidamente leva-nos a concluir que estamos perante um exemplo para o mundo, do que deve ser a Igreja dos Fiéis. Ainda para mais quando no Ocidente se perdeu a fé, a espiritualidade, os valores morais e a ética. Coincidência ou não, na homilia é contada a história de uma senhora irlandesa, católica, que há anos procura na Tailândia a espiritualidade que não encontra na Europa.

A missa prossegue com o Pai Nosso, a Comunhão e a bênção do padre a todos os fiéis: «Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe». D’O CLARIM ficou a promessa de voltar ainda este ano.

O regresso ao hotel é feito a pé, pois o caminho é curto e é cedo para almoçar. Adjacente à catedral, situada num largo, encontra-se um convento e um colégio de freiras, entre outras entidades e instituições ligadas à Igreja Católica. Na Tailândia, país maioritariamente budista, a liberdade religiosa não está apenas consagrada na Constituição, ela é uma realidade diária.

Faz calor, o Sol cai a pique e as ruas estão praticamente desertas. Aqui e ali, um transeunte a caminho do “pier” mais próximo para tomar o barco que o levará a um qualquer ponto da cidade. Com o som dos passos no passeio ou no alcatrão da estrada a servir de batuta, um dos cânticos entoados durante a missa vem à memória. Na realidade, aquela hora vivida na catedral, em que prevaleceu o silêncio e a harmonia, é elevada à potencia máxima, se pensarmos que estamos numa das cidades mais populosas do mundo, também famosa pelo seu constante agitar frenético.

É caso para afirmar que nas águas tortuosas da vida, onde estiver Cristo o mar é sempre sereno.

A poucos metros do destino somos saudados por um mural do artista português Vhils, na embaixada de Portugal na Tailândia, que retrata várias etnias, fazendo lembrar que somos apenas um entre muitos, cada qual com a sua cultura, as suas crenças, modos de vida e sonhos. Porque não só ali, mas também noutros países, à mesma hora, houve quem tivesse igualmente rezado ao seu deus e regressado a casa com a alma cheia. Na realidade, não somos assim tão diferentes uns dos outros. Como costumamos ouvir: é muito mais aquilo que nos une, do que nos separa.

Enfim, uma manhã diferente, recheada de emoções.

José Miguel Encarnação

Em Banguecoque

 

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