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O mundo do quero, posso e mando
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O mundo do quero, posso e mando.

Se há coisa que profundamente me repugna é a guerra e tudo o que a ela anda associado. «Atacaremos quando muito bem quisermos», disse um dia Bush filho e parece estar prestes a dizê-lo Trump, o magnata, pressionado pelos arquitectos de enfrentamentos e adictos acumuladores de colossais fortunas à custa da desgraça alheia. Juntam-se agora aos ianques os sauditas, fiéis cães de fila, que desde 2015, cansados de contar petrodólares, têm-se mantido ocupados a destruir vidas humanas e património material no vizinho Iémen. E isto perante um escandaloso e ensurdecedor silêncio por parte da comunidade internacional. E se se calam as vozes bem alto clamam os biliões obtidos com os chorudos negócios de armamento em curso, que beneficiam não só os norte-americanos mas também o Reino Unido e a França. Sobre a Síria (se bem que de forma tendenciosa), no Ocidente, ainda se vai falando; sobre o Iémen, nem uma palavra. Quando muito, lá vislumbramos uma referência de rodapé na base do ecrã televisivo.

Essa valorosa Síria que para poupar a vida a muitos dos seus civis permitiu uma saída airosa a milhares de terroristas, que noutro local recomeçarão a sua actividade, pois é para matar e espalhar o caos que recebem o seu salário. Dizem-se militantes de este e daquele movimento, mas não passam de assassinos a soldo, ademais cobardes q.b., pois fazem-se acompanhar de mulheres e filhos que não têm culpa alguma e, de certa forma, lhes servem de escudo humano. Mas que grande sapo tiveram de engolir as forças armadas de Damasco! Aos Meios de Comunicação ocidentais pouco lhes interessa as milhares de vítimas civis tombadas nas cidades iemenitas nestes últimos anos, assim como a destruição sistemática do património arqueológico local, entre os quais se contam os característicos “arranha-céus” de taipa e adobe que ilustram a linha urbana da cidade de Saná.

E a fome que neste momento grassa no Sudão do Sul, será que os europeus têm disso conhecimento?

Sobre o já rançoso conflito israelo-palestino, o melhor é nem falar. Num só dia foram dezoito as vítimas mortais, manifestantes pacíficos que sucumbiram às balas de uma centena de “snipers” com ordens para atirar a matar. Rejubilou o sinistro Netanyahu, dando os parabéns a esses “bravos soldados”, os tais que, armados até aos dentes, temem e, por isso, agridem miúdos de cinco anos armados de fisgas, às vezes nem isso. Ironicamente, a repressão sobre a marcha palestina coincidiu este ano com o feriado judaico que assinala a libertação do povo judeu do cárcere egípcio… É difícil prever o futuro. Muito provavelmente, se uma terceira guerra não vier entretanto regenerar esta generalizada pestilência, serão várias décadas com mais do mesmo. Uma coisa é certa. Os palestinos não vão desistir. Possuem algo que os europeus, regra geral, têm fatal tendência para ir perdendo. A fé. E muita resiliência. Atenção. Palestino não é sinónimo de muçulmano. Há entre esse povo muitos cristãos, de várias confissões, também eles vítimas da implacável máquina sionista. Uns e outros guardam ainda as chaves das suas casas há muito derrubadas para dar lugar a pré-fabricados que alojam colonos invasores que por mero fanatismo, essa doença incurável, deixaram os seus confortáveis lares e profissões na Europa do Norte e do Leste para se virem instalar nos terrenos violentamente expropriados. Essa gente, de sandálias e aspecto “afrekalhado”, é do pior que a raça humana já produziu. Consideram-se especiais, “povo eleito”, e, por isso, com carta branca para fazerem o que muito bem lhes apetecer. Israel, um Estado fora da lei, e que disso se orgulha, não acata nenhuma das resoluções entretanto tomadas pelas mais alta instâncias internacionais. Isolado na região geográfica onde se encontra inserido, por óbvios motivos, continua a poder competir nos eventos desportivos e no Festival da Eurovisão e não está sujeito a qualquer sanção. As Nações Unidas, hoje mais do que nunca uma entidade patética, balbuciante, lá vai fazendo ouvir o seu protesto, para não ficar muito mal na fotografia. Na verdade, após a vergonhosa Cimeira dos Açores, essa instituição deixou de ter qualquer sentido.

Seguindo a cobarde tradição imperial de invocar o direito divino para justificar os actos mais bárbaros, os Estados Unidos dizem que “têm a soberania para garantir a sua segurança nacional”. Trocando isto por miúdos: em nome da “vida e protecção” dos seus cidadãos, os Estados Unidos estão dispostos a sacrificar o resto da humanidade, se necessário for. Entretanto, esta pára para ouvir sempre que um qualquer pistoleiro lhe fala em tom paternalista envolvendo divindades onde elas não são chamadas. O que se afirma em Washington, por via a pândega marioneta presentemente domiciliada na Casa Branca, pode discutir-se, questionar-se, repudiar-se com mil e uma manifestações ruidosas e cartazes mais ou menos conseguidos, mas, na prática, nunca é contrariado. É uma questão de poderio. Militar e económico. E essa aliança, cifrões com balas, tornou-se praticamente indestrutível. Instalada está, e para ficar, a prática da política do quero, posso e mando.

Joaquim Magalhães de Castro

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