Category Archives: Ásia

Uma guerra contra a cultura e a história

Os saques dos museus no Iraque

Os saques dos museus no Iraque

No rescaldo de mais um horrendo atentado em Bagdade, daqueles que não merecem grande atenção na redes sociais, onde a “solidariedade” se manifesta consoante a nacionalidade da vítima, lembremos aqui o saque dos museus e da Biblioteca Nacional do Iraque, e a subsequente destruição de toda uma valiosa herança cultural, um crime histórico do qual é principal responsável a Administração Bush.

Medicinas Orientais

MEDICINAS ORIENTAIS

O foco no indivíduo

Numa época em que tanto se fala de preservação da saúde e cada vez mais se buscam modos de vida e de cura alternativos, ousemos uma pequena incursão pelos meandros dessa sabedoria ancestral.

A dita medicina oriental, ou medicina tradicional chinesa, teve a sua origem na China antiga há mais de dois mil anos. E centra-se, essencialmente, em dois vectores: a medicina das plantas e a acupuntura.

Dia Internacional Anti-Nuclear

Urakami e o apelo à paz

Urakami e o apelo à paz.

Celebra-se hoje o Dia Internacional Anti-Nuclear e nunca é por demais lembrar esse sempre ameaçador e previsível pesadelo para a Humanidade, que nos derradeiros dias da Segunda Grande Guerra deu a provar do seu veneno. Barack Obama, na sua recente deslocação ao Japão, visitou Hiroshima, mas esqueceu Nagasáqui, cidade fundada por mercadores e missionários portugueses em 1571 e cuja característica topográfica – com bairros construídos ao longo das colinas, estilo plasmado das lusas urbes – acabaria por mitigar os efeitos apocalípticos da “Fatman”, a segunda bomba atómica da História da Humanidade. Daí que o número de vítimas tenha sido bem inferior à da hecatombe cometida em Hiroshima, apesar da carga mortífera ter sido maior.

Pregadores contra estalinistas

Realidades quirguizes

Realidades quirguizes.

Junto a um pequeno cineteatro do centro de Bishkek, capital do Quirguistão, congregara-se uma pequena multidão domingueira. Convencido de que haveria alguma “matinée” artístico-cultural, ao jeito do socialismo de outrora, segui-a até ao interior da sala de espectáculos. No palco afinavam-se guitarras e testava-se a dureza das peles do bombo da bateria. Uma rapariga com um colorido crachá na lapela no casaco e olhar atento indicou-me uma cadeira. Perguntei-lhe: «– Concert?» Disse que não com a cabeça e depois, com um breve movimento de lábios, quase num murmúrio, esclareceu-me: «– Church». Tarde demais. Ia assistir, quisesse ou não, a um serviço religioso da Igreja de Cristo, congregação que, apenas em dois anos, reunira já à sua volta mais de seiscentos fiéis, só em Bishkek.

Ocupação australiana do mar de Timor

OCUPAÇÃO AUSTRALIANA DO MAR DE TIMOR

A difamação como estratégia

A respeito da mais recente tentativa australiana de se apoderar dos recursos de Timor-Leste, ocupando ilegalmente uma vasta área do Mar de Timor – que, de resto, teve resposta à altura, com milhares de manifestantes a concentrarem-se em frente da representação diplomática de Camberra em Díli, gritando o seu protesto – e antecipando já previsíveis futuras campanhas difamatórias, recordemos aqui algumas anteriores tentativas de denegrir a jovem nação, pois essa tem sido a estratégia utilizada pelo gigantesco vizinho do Sul.

Celebração ecuménica na Ilha das Flores

Uma Páscoa tropical

Uma Páscoa tropical

Entre as comunidades de luso-descendentes da Ilha das Flores, na Indonésia, a Semana Santa celebra-se a três tempos. Ei-los:

QUARTA-FEIRA TREWA

No interior da capela, mulheres ajoelhadas acendem velas atrás de velas. Nas filas posteriores, mais mulheres, algumas crianças e homens, rezam com compenetrada devoção. É a tribo de Jentera que encerra a semana de orações na capela dedicada a Nossa Senhora do Rosário (Tuan Ma), em Larantuca, capital espiritual das Flores. Uma das Mama Mudji (mães da música) enuncia o cântico, e logo as outras o continuam. Empunham, todas elas, livrinhos com preces em Português corrompido. Textos que ao longo de gerações foram copiados à mão. Rezam e cantam – as senhoras desta irmandade – Pais-nossos, Aves-marias e Salve-rainhas em Português, mas nenhuma delas entende o que diz.

Domingo de Ramos em Larantuca

DOMINGO DE RAMOS EM LARANTUCA

Minggu Ramu e a Confraria do Rosário

Em Larantuca, no extremo leste da Ilha das Flores, Indonésia, a tradição pascal remonta ao século XVII, aquando da chegada de dezenas de famílias católicas, portuguesas e mestiças, refugiadas de Macassar, nas ilhas Celebes, na sequência da ocupação holandesa, em 1660. Mas antes das Celebes, a tão celebrada Malaca portuguesa, anterior a 1641, fora chão pátrio de muita dessa gente que dali trouxera tradições, ícones e a devoção a Nossa Senhora do Rosário, um culto que subsiste hoje com uma intensidade igual à de outros tempos. Orientada pelo dominicano frei Lucas da Cruz – que conseguiu reunir os valiosos objectos de culto resgatados da igreja de São Domingos de Surian, em Macassar – essa leva de refugiados veio reforçar a comunidade católica já existente em Larantuca.

Religiões do subcontinente indiano

Os nossos orientalistas ignorados

Os nossos orientalistas ignorados

No que diz respeito à divulgação das religiões não-cristãs na Europa, os portugueses precederam, em duzentos e trezentos anos, os orientalistas franceses, belgas e ingleses, se bem que nos estudos publicados ao longo dos séculos XIX e XX muito raramente os seus nomes são mencionados.

Diogo de Couto, na sua obra “Década da Ásia”, no capítulo dedicado à História da Índia, e a propósito do Pico de Adão, no Ceilão, identifica o célebre São Josaphate, ou São Josafá, até à altura considerado cristão, com Buda Sidarta Gautama. Na realidade, a lenda de Josafá é uma versão medieval da vida de Buda. A história seria inicialmente islamizada, como “a lenda de Bilahwar e Budasaf”, e, em seguida, passará para a ficção cristã, como “a lenda de Barlaão e Josafá”.

Pré-Quaresma no seminário de Ledalero

A força do vínculo religioso

A força do vínculo religioso.

Aqui há uns anos, aquando a minha viagem pela Indonésia em busca do legado português naquele arquipélago, assisti a um casamento entre dois membros da comunidade luso-descendente de Maumere, capital da ilha das Flores. Estávamos a breves dias do início da Quaresma e essa era a última cerimónia mundana antes do período de reflexão e jejum, preceitos que aquela comunidade católica leva bastante a peito.

O padre que presidiu ao casamento quis saber coisas acerca de Portugal pois iria passar um ano em Lisboa, «para aprender Português». Moçambique era terra de futura missão.

Lembrar o apoio da Igreja Católica a Aung San Suu Kyi

LEMBRAR O APOIO DA IGREJA CATÓLICA A AUNG SAN SUU KYI

Um momento histórico.

Numa altura em que o povo de Myanmar vira uma importante página da sua história conduzindo ao poder Aung San Suu Kyi, Prémio Nobel da Paz e incansável lutadora pela democracia naquele país, evoquemos aqui a oposição à ditadura militar manifestada desde sempre pela Igreja Católica local, aqui representada pelo já falecido bispo de Mandalay, D. Alphonse U Than Aung, descendente de portugueses.

Quando o conheci, no âmbito das minhas investigações sobre a comunidade bayingyi (luso-descendentes), lembrou-me que os generais tinham as universidades fechadas há mais de um ano.

500 anos da chegada dos portugueses a Timor

O Factor Étnico

O Factor Étnico

Em Timor nada é o que parece. Nem nada acontece por acaso. Tão pouco surpreendem os constantes e confusos conflitos inter-étnicos que deixam baralhado o visitante menos informado. Mesmo após a chegada dos portugueses, em 1514, em busca do sândalo, e até às campanhas no interior do governador José Celestino da Silva, já nos finais do século XIX, mantinha-se constante o estado de guerra entre as diversas etnias que habitavam a ilha, sendo o poder exercido, nesse tipo de sociedade, através das linhagens encabeçadas pelos liurais, os chefes tribais. A dança Loro-sa’e, por exemplo, é uma dança guerreira que celebrava uma vitória a qual, outrora, terminava com o corte das cabeças aos prisioneiros inimigos. Essa rivalidade étnica é hoje um verdadeiro calcanhar de Aquiles numa nação que teima em se encontrar.

500 anos da chegada dos portugueses a Timor

Da Grande Guerra à Independência

Da Grande Guerra à Independência

Com a entrada dos japoneses na Segunda Guerra Mundial (1941) as tropas australianas e holandesas desembarcaram em Díli alegando uma ameaça iminente para a Austrália, apesar dos protestos do Governo português. Foi o pretexto para os japoneses invadirem Timor e ai permanecerem desde Fevereiro de 1942 até Setembro de 1945, com consequências catastróficas para a população local. Os régulos Dom Aleixo Corte-Real e Dom Jeremias de Lucas, dois dos mais ilustres timorenses, pagaram com a vida a sua fidelidade a Portugal. Fala-se de um liurau que enfrentou o pelotão de fuzilamento envolvido na bandeira nacional.

Durante a ocupação japonesa, o governador Manuel de Abreu Ferreira Carvalho ficou confinado no palácio de Lahane, incapaz de comunicar com o Governo da República através de Macau, porque os japoneses tinham sob seu controlo a estação de rádio.

500 anos da chegada dos Portugueses a Timor

O corte do cordão umbilical com Macau

O corte do cordão umbilical com Macau

Prosseguimos esta semana com a passagem em revista da história de Timor e a sua relação com Macau no último meio milénio.

Em 1769 os holandeses ocuparam a metade ocidental de Timor e pressionaram os portugueses aquartelados em Lifau, no enclave de Ocussi, forçando o governador António José Teles de Meneses a transferir a capital para Díli. A situação de conflito permanente perdurou em Timor até 1912, embora o avanço dos holandeses tenha estancado em Atapupu, ocupada em 1818, hoje parte de Timor Oeste.

500 anos da chegada dos Portugueses a Timor

500 ANOS DA CHEGADA DOS PORTUGUESES A TIMOR

Macau e a Ilha do Sândalo.

Após a conquista de Malaca, em 1511, o caminho para as ilhas Molucas e outras áreas de produção das tão apetecidas especiarias torna-se acessível ao empreendimento português. A primeira expedição comercial rumo às Índias Orientais data de 1512 e tem como destino as Molucas, sendo pouco provável que tivesse havido uma paragem em Timor, onde havia abundância de sândalo. A chegada oficial dos portugueses a esta ilha ocorreu em 1515. Além do sândalo, o mel e a cera eram outros produtos locais bastante apetecíveis. Produtos – transaccionados por objectos em algodão e metal, facas, espadas e machados – que tinham Malaca como destino.

Cristãos no Médio Oriente

CRISTÃOS NO MÉDIO ORIENTE

Uma comunidade desunida

Nos últimos tempos, sobretudo após a implantação, nas férteis planícies da Mesopotâmia, do tenebroso Estado Islâmico, as esquecidas comunidades cristãs de tão instável região têm sido notícia, e não pelos melhores motivos. A contabilidade é pesada: são aos milhares, as vítimas dos fanáticos e cruéis algozes. Homens, mulheres e crianças que pouco contam para as agências noticiosas internacionais, habituadas a resumir as questões do Médio Oriente ao conflito israelo-árabe, à eterna dicotomia muçulmano-judeu. Como se não bastasse, esses cristãos padecem de uma enorme maleita: a desunião.