Rota dos 500 Anos-Tripulação adoentada

Tripulação adoentada

A Maria festejou o aniversário um pouco adoentada com febre e o nariz a pingar. A maleita passou por todos nós, tendo começado com a mãe, assim que chegou de Macau em meados de Dezembro, passando depois para mim durante o Natal e fim de ano, e para a Maria. Nos últimos dias, porque o tempo tem estado muito chuvoso e algo atípico com pouco Sol, piorou o estado de saúde. Por precaução, fomos com ela ao hospital para ver se o médico confirmava o nosso prognóstico: constipação.

Os sintomas eram febre, tosse, nariz a pingar e, mais recentemente, a garganta avermelhada – indício de anginas inflamadas. O médico partilhou da mesma opinião e não mudou a medicação que lhe estávamos a dar desde os primeiros dias dos sintomas: xarope para a febre com paracetamol e um outro xarope para a garganta inflamada. Saímos do hospital aconselhados pelo clínico a que, se três dias depois a Maria ainda tivesse febre superior a 38,5, lá voltássemos para mais exames.

Perante esta situação, a nossa saída está adiada por uns dias, para que não façamos a travessia com a menina adoentada. Iremos sair apenas quando toda a família estiver restabelecida e com a energia em alta.

Como esta semana tem havido pouco Sol, as actividades no exterior têm-se reduzido a quase nada. No único dia em que a chuva deu alguma trégua aproveitei para limpar o casco do veleiro, tendo em vista a travessia para as Antilhas Holandesas. Antes de sairmos irei proceder a nova limpeza para assegurar que o casco se encontra limpo e nos possa ajudar a chegar mais depressa. As cracas e os limos que se vão encrustrando no exterior diminuem a velocidade da embarcação.

Ainda no que respeita aos preparativos, devemos ir a Le Marin (a grande zona das marinas e do negócio ligado aos barcos) para ver se é possível adquirir um estái novo ou em segunda-mão que fique de reserva. Se voltarmos a ter um problema semelhante ao que nos obrigou a abortar a primeira tentativa da travessia, queremos ter forma de continuar a viagem sem ter de voltar para trás. Em Le Marin há uma loja que vende artigos para veleiros em segunda-mão onde grande parte dos velejadores com orçamentos mais reduzidos se abastece. Já lá comprámos algumas coisas e queremos ver se encontramos peças que nos fazem falta. Andamos de olhos bem abertos para ver se descobrimos uma vela principal em segunda mão, a pensar no caso da nossa se rasgar.

Da última vez que estive na loja fui acompanhado pela tripulação do Gentileza, sendo que ainda os ajudei a comprar duas velas usadas (uma principal e outra grande) por pouco mais de 250 euros, e um rolo de cabo de nylon de 250 metros por 25 euros. Infelizmente a vela principal que eu tinha em vista não a pude adquirir. Apesar de estar disponível nos registos da loja os funcionários não a conseguiram localizar. Perdi a oportunidade de comprar uma excelente vela principal por apenas cem euros.

Devido às condições meteorológicas e à falta de disposição da Maria – nós, pais, ficamos sempre deprimidos de cada vez que a nossa pequena adoece – praticamente não temos ida a terra, à excepção do estritamente necessário como, por exemplo, para comprar comida e ir aos correios verificar se chegaram encomendas de Portugal. Estamos à espera de alguns itens enviados pelos meus pais e dos novos documentos do Dee, cujo registo foi renovado nos Estados Unidos. Há três encomendas que têm de ser levantadas antes de deixarmos Martinica. Entretanto, chegou um “tablet” em substituição de outro que comprámos em Grenada e que avariou dentro do prazo da garantia. Foram necessários vários meses de troca de mensagens electrónicas com a marca, que recusava trocar o aparelho.

Por falar em aparelho, a NaE trouxe da Ásia um AIS (Sistema de Identificação Automático), gentilmente doado pela Matsutec de Shenzhen. O AIS não estava na nossa lista de prioridades, mas como ficámos a saber que é obrigatório na Tailândia decidimos instalá-lo o mais cedo possível.

O “gadget” permite saber a localização de outras embarcações na nossa zona de navegação que estejam equipadas com a mesma tecnologia. Não é obrigatório em embarcações da classe do Dee, mas em navios comerciais os regulamentos internacionais obrigam ao seu uso. Como o maior perigo são os grandes cargueiros durante a noite, ou em situação de mau tempo, faz todo o sentido termos o equipamento a bordo.

O AIS está separado em duas classes (A e B) e existem dois tipos: emissor/receptor e apenas receptor. O nosso é emissor/receptor da classe B, no entanto, por agora, apenas o posso utilizar como receptor, para ver a informação respeitante às embarcações que se encontram nas proximidades, não podendo fornecer os nossos dados aos outros.

Segundo me explicaram, até ao momento não consegui obter um número que identifique o Dee, pois os Estados Unidos só emitem a cidadãos americanos, Portugal não emite para embarcações que não estejam registadas em Portugal, e Macau não me respondeu à mensagem enviada para a Autoridade Reguladora das Telecomunicações!

JOÃO SANTOS GOMES

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