Arcabuzes, mapas e o punho de Rui Freire de Andrade

Oriente próximo Lusitano – 2

Arcabuzes, mapas e o punho de Rui Freire de Andrade

Ahmed Shekar, ancião local que se orgulha de ser um dos últimos a perpetuar a tradição oral em Ras-Al Khaimar, não tem dúvidas que essa gente de tez e olhos claros descende dos portugueses. «A seu respeito circulam inúmeras histórias, algumas delas meras lendas mas outras verdadeiras», diz. «Ainda hoje eles são temidos e respeitados pelos restantes árabes». Detentor de uma valiosa colecção de armas brancas e de fogo, Ahmed Shekar fez questão de me mostrar um arcabuz que afirma ser português. Dado o seu aspecto artesanal, é provável que a peça em questão remonte ao século XVI. Segundo ele, todos os membros da tribo Habouss, descendem directamente dos soldados portugueses que se refugiaram nas montanhas depois dos árabes terem reconquistado a cidade de Julfar. E não só desses, mas de muitos outros aventureiros e mercenários que ali buscaram abrigo ao longo dos cento e cinquenta anos de pelejas entre portugueses, árabes, persas, turcos e ingleses pelo controlo de toda aquela estratégica região. Nos vizinhos Emiratos a história repete-se. Nas aldeias de Roda, Sabatan, Charmina e Ravina, actualmente abandonadas, habitaram descendentes de portugueses.

O professor Al-Wahaibi abre um livro, escrito em Árabe, que comporta todos os fortes do Omã. Muitas das suas páginas são dedicadas à presença portuguesa. Representados estão Vasco da Gama e Afonso de Albuquerque, em ilustrações da época, e um interessantíssimo desenho mostrando-nos em detalhe naus portuguesas, identificadas pelos nomes dos seus capitães, estrategicamente posicionadas na baía de Mascate, preparando-se para mais uma batalha contra os turcos otomanos. Lado a lado, com as fotos actuais das fortalezas, encontram-se retratadas plantas da época, arquivadas hoje na Torre do Tombo.

O professor menciona os fortes da costa, enquanto mostra reproduções das plantas da época com a sua exacta localização geográfica. «Do forte de Seeb, Sibo em Português, já nada existe. Foi aí construído o aeroporto internacional». Um pormenor que não deixa de ser sintomático. Mesmo agora chega-se a Omã precisamente no mesmo local onde os portugueses arribaram há cinco séculos.

Em relativo bom estado de conservação – embora as restaurações efectuadas pelas equipas arqueológicas omanitas tendam a islamizar as ameias originais – está o forte de Quryate (Coriate, em Português) a 90 quilómetros de Mascate. «Perto daí», informa o professor, «na pequena aldeia de Dagmar há uma ruína que os locais chamam “Torre do Luís”. Luís é nome português, não é?», pergunta. «Será Camões. Será ela dedicada a Camões, o vosso poeta imortal?».

E não é apenas o nome Luís que baptiza torres. «Em Mascate, uma das passagens no actual muro da cidade que circunda os castelos e o palácio do sultão é conhecida como torre de Cabrita». O professor mostra a reprodução de um mapa português do século XVI com o plano da cidade, onde estão presentes os dois fortes e os muitos fortins que dominavam a entrada do estuário. «O que se situa a leste chamava-se forte de São João, e o outro, a oeste, era o forte do Capitão». Os actuais nomes – Jalali e Mirani – correspondem «aos apelidos dos chefes militares persas de antanho» que conquistaram Mascate aos portugueses. No sopé deste último, do forte do Capitão, existe, paredes meias com uma mesquita, um edifício de paredes brancas – a “betel-greja” – que serve hoje propósitos administrativos. Precisamente nesse local situava-se uma das duas igrejas de Mascate, como se pode confirmar na carta da cidade desenhada em Quinhentos. A designação “greja” ficou, apesar do templo ter desaparecido há muito. O mapa antigo retrata ainda vários pelouros e os torreões que os portugueses semearam pelas montanhas escarpadas, na altura ainda com algumas árvores, que cartógrafos antigos tiveram o cuidado de incluir nos seus trabalhos.

«No exterior do castelo Mirani pode ver-se uma inscrição gravada na pedra que sinaliza a igreja outrora ali existente», diz o professor. «Quanto ao forte de Jalali, alberga vários canhões do tempo do domínio dos Filipes em Portugal».

Muitos desses fortes eram pré-fabricados – de areia, adobe e pedra – na costa de África, em Mombassa, Zanzibar e Pemba e transportados para o Golfo Pérsico. A região está cheia deles: o forte de Barca (Borca, em Português) de Sohar, de Doba, de Mada, de Libedia, de Quelba. O de Fujeira, no Emirato com o mesmo nome. Os fortes de Kansab e Kuzmar, já na península de Mussandão. No sul do País, o forte de Masirah, na ilha com o mesmo nome. E se alguns deles não são de construção portuguesa, há sempre um ou outro detalhe, um ou outro episódio ligado aos portugueses. É o caso do forte de Al-Hazm, que possui cinco canhões capturados aos portugueses, com o símbolo da coroa “reunificada” do tempo dos Filipes gravada no ferro. Também o de Nizwa, antiga capital, que levou treze anos a ser erguido e tem no seu interior muitos dos despojos obtidos numa batalha contra os portugueses ocorrida em Diu.

 

AS “BAGGALAS” E OS “RIALS”

O professor Al-Wahaibi refere ainda um cemitério cristão nos arredores de Mascate e um túmulo nas imediações dos terrenos da antiga embaixada britânica, que agora fazem parte do palácio do sultão. Será o túmulo do incansável Rui Freire de Andrade? Certamente o personagem mais destacado na região – reputado e temido pelos locais devido à sua crueldade e punho de ferro – uma verdadeira dor de cabeça aos desígnios dos ingleses na região. Muitos dos fortes foram mandados construir por esse capitão português. Sabe-se que o seu túmulo esteve na posse da embaixada inglesa, sem que nunca o Estado português se tenha lembrado de o reclamar…

Mas não é só na documentação nacional do Omã que a história vem retratada. Existem referências a portugueses em livros árabes muito antigos. O professor Al-Wahaibi fez questão de me acompanhar ao andar de baixo do edifício do departamento de História, onde, sob uma vitrina, está exposto um valioso documento de Seiscentos ilustrado com imagens de embarcações árabes ao lado das quais são perfeitamente visíveis naus e galeões portugueses. «Estas velas são iguais às vossas, não é?», pergunta ele, sabendo de antemão a resposta. As “baggalas”, embarcações locais, depois da passagem dos portugueses passaram a ser construídas com uma coberta a ré. O uso de pregos foi outra das contribuições lusas na construção naval. No plano estritamente militar, é importante não esquecer as espingardas e canhões, desconhecidas no mundo árabe até à chegada das caravelas.

No verso das notas de 10 rials – uma das denominações mais altas da moeda omanita, cujo nome deriva do termo “real” – é português o forte representado. O forte de Mutrah – Matara, na versão dos mapas portugueses da época.

Apesar de investigadores como Al-Tadmori e Al-Wahaibi alertarem para a importância de se preservarem todos esses vestígios, o certo é que nas sucessivas campanhas arqueológicas realizadas nesses locais nunca esteve presente qualquer técnico português. E é italiano o investigador que, pelo nome, Paolo Costa, poderia ser português, quem mais se tem especializado sobre a história do Sultanato. Também ele – para além do “nosso” Charles Boxer – tem escrito sobre a preponderante influência portuguesa na cultura omanita.

Num despacho da agência Lusa, por altura da Expo-98, dizia-se esperar “que com a Expo-98 a comunidade académica portuguesa se possa interessar pelo estudo daquela área” e anunciava-se um colóquio, no pavilhão dos Emiratos Árabes Unidos, sobre Majid Al Nadji, o grande navegador árabe que acompanhou Vasco da Gama na sua viagem até à Índia, e a sua influência na navegação portuguesa.

O Omã, porém, não esteve representado na última exposição do século, apesar do então cônsul honorário ter um cartaz afixado na porta do escritório em Mascate… Os omanitas tiveram em Lisboa, durante alguns anos, dois investigadores que estudaram as relações entre estas duas potências marítimas do período do Renascimento. «Falta agora que Portugal envie gente ao meu país com a mesma missão», diz o professor Al-Wahaibi. «Pois é por aí que se deve começar. Pelo intercâmbio».

Joaquim Magalhães de Castro

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