Origem e significado da palavra Advento

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Origem e significado da palavra Advento

A tradição da Igreja de comemorar anualmente factos da vida de Cristo tem a sua origem no costume que os judeus tinham de celebrar todos os anos episódios da sua relação histórica com Deus. Este costume deriva de uma ordem expressa dada por Deus a Moisés (Ex.12:2-3) quando manda que se comemore anualmente e no mesmo dia a festa dos Pães Ázimos, que celebra a libertação dos judeus do cativeiro do Egipto.

A celebração anual não era a única forma de comemoração na antiguidade. Os gregos, por exemplo, celebravam os Jogos Olímpicos, que na época eram festividades religiosas dedicadas a Zeus Olímpico, cada quatro anos, e os Jogos Ístmicos, em honra de Poseidon, o deus dos mares, cada dois anos. O calendário litúrgico, no entanto, vai mais além do que a mera comemoração anual de eventos na medida em que todos os dias do ano estão organizados à volta dos mistérios da vida de Cristo, da sua Encarnação à Ascensão.

O calendário da Igreja não só comemora episódios singulares, como o nascimento de Cristo no Natal ou a Sua morte na Sexta-feira Santa, mas contempla também tempos litúrgicos, sendo o Advento o primeiro destes tempos. A palavra Advento que quer dizer “chegada”, vem do Latim adventus, uma palavra derivada do verbo advenire que significa “chegar”. O Advento não se refere ao acto da chegada propriamente dito, mas sim ao tempo de espera que antecede a chegada do Menino-Rei no Natal. O tempo do Advento começa no Domingo mais próximo da festa do Apostolo Santo André, celebrada a 30 de Novembro, e termina com as primeiras vésperas da Véspera de Natal.

 

A HISTÓRIA DO ADVENTO

Não foi possível ainda estabelecer com a certeza histórica desejada as origens do Advento. A primeira referência que temos a um tempo de preparação para o Natal é no primeiro Concilium Caesaraugustanum ou Sínodo de Saragoça no ano de 380. Este concílio, que apenas contou com doze participantes, reuniu-se sobretudo para condenar a heresia de Prisciliano. No seu quarto cânon determina que o dia 17 de Dezembro seja o primeiro dia de preparação para o Natal, que então era festejado a seis de Janeiro.

No segundo Sínodo de Tours, no ano de 567, quando as datas do Natal no Ocidente e no Oriente são discutidas, o Advento é referido como uma época litúrgica com ritos e fórmulas próprias, e por vota do século décimo o tempo do Advento já está bem estabelecido como início do ano litúrgico. A duração do Advento variava, e ainda hoje varia, de acordo com o rito em questão. Assim, o rito romano começou por ter cinco semanas, segundo o Sacramentário Gelasiano, mas no tempo de Gregório VII (1073-85) foi reduzido para quatro.

Nos ritos Visigodo e Ambrosiano o Advento durava, e ainda dura nos sítios onde estes são praticados, seis semanas, enquanto que a maior parte dos ritos ocidentais que têm o uso Romano como base, como sejam o rito dominicano, o rito de Sarum, o rito cisterciense, etc. seguem o calendário Romano na sua divisão dos tempos litúrgicos e como tal têm apenas quatro semanas de Advento.

As igrejas orientais não têm um Advento propriamente dito, mas têm uma época de preparação para o Natal que dura 40 dias, com um jejum obrigatório que começa a 15 de Novembro. As origens deste tempo preparativo são ainda mais difíceis de traçar no caso das igrejas orientais; até ao século VIII não há notícia de tal período na Igreja Grega.

A festa da Anunciação celebra-se no dia 25 de Março, nove luas cheias antes do dia de Natal. A primeira referência a esta festividade aparece no primeiro cânon do Sínodo de Toledo, em 656, onde se determina que esta deve ser celebrada oito dias antes do natal (ante octavum diem quo natus est dominus). Coincidência, ou talvez não, caía no mesmo dia que o Sínodo de Saragoça determinou para o inicio do tempo de preparação para o Natal; talvez por isso os Domingos do Advento eram chamados na Hispânia de Domingos da Anunciação. Ainda que, provavelmente, por razões diversas, também no rito sírio este período é chamado de Anunciação (Aramaico “subara”).

 

OS SINAIS EXTERNOS DO ADVENTO

Quanto ao conteúdo, a liturgia usa a cor roxa para demonstrar solenidade na espera do nascimento do Rei do Universo. Relembro aqui um artigo que escrevi acerca da quaresma no qual tive a oportunidade de explicar com algum detalhe a origem e significado da cor roxa dos paramentos. Expliquei então que antes da descoberta do amoníaco cores como o púrpura, o rojo, ou o violeta eram cores muito difíceis de manter e os tecidos destas cores tinham de ser retingidos constantemente. Isto tornava a cor roxa uma cor muito cara de se manter e como tal apenas acessível à aristocracia. O roxo tornou-se assim cor de reis, razão pela qual os guardas quando faziam troça de Jesus, vestiram-n’O com um manto roxo, uma cana que fazia de ceptro e uma coroa de espinhos.

O Advento e a Quaresma são tempos de espera. Assim, também o Advento utiliza a cor roxa como forma de assinalar a sua expectativa pelo rei que está a ponto de chegar.

Outra característica em comum com a quaresma é a omissão do Gloria na missa. No Advento está omissão é bastante óbvia na medida em que é com este hino que os anjos na noite de Natal anunciam ao mundo o nascimento do seu salvador.

Na Idade Média o Advento era muitas vezes referido como a quaresma do Natal já que também o Advento era um tempo de jejum. Esse hábito perdeu-se no Ocidente mas na igreja oriental o jejum do Advento é tão importante como o da Quaresma. Até aos anos 60 observava-se no Ocidente três dias de jejum aquando das têmporas do Advento na Quarta-feira, Quinta-feira e Sábado da quarta semana do Advento.

 

A ANUNCIAÇÃO DE ISAÍAS

No fim da Idade Média a leitura na missa de textos do Antigo Testamento havia caído em desuso, o que tornou a liturgia do Advento um pouco menos expressiva. Na Igreja Grega as leituras desta época centram-se sobretudo nos precursores de Cristo, Abraão, Jacob, Moisés, etc. A reforma litúrgica de 1969/70 trouxe de volta a leitura do Velho Testamento nas missas dominicais, mas o lecionário, em vez de se focar nas figuras do Antigo Testamento como faz a igreja oriental, concentra-se nas profecias que anunciam o nascimento de Cristo; é como se voltássemos a ter os Domingos da Anunciação de outrora. O “Ano A” é especialmente significativo já que dedica a primeira leitura exclusivamente ao profeta Isaías, a quem coube a honra maior de anunciar: Ecce virgo concipiet, et pariet filium, et vocabitur nomen ejus Emmanuel «Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será Emanuel» (Is.7:14).

Roberto Ceolin 

Universidade de São José

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