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A segurança, o tecto e a côdea
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O nosso tempo

A segurança, o tecto e a côdea

Ou os desafios da solidariedade internacional. Hoje como ontem.

Aspirações básicas de qualquer comunidade humana, essa tripla exigência, a segurança, o abrigo e o mínimo de uma dieta alimentar, tão naturalmente satisfeita para muitos, constitui todavia bem raríssimo para milhões, vítimas que são das múltiplas guerras que há dentro da nossa aparente (?) Paz global.

Porque vivemos num estranho mundo, em que os analistas e comentadores atestam que vivemos em paz e as notícias diárias dizem-nos o contrário.

Não estamos em nenhuma guerra mundial, felizmente. Grandes Potências não se atacam uma à outra ou umas às outras, conforme o desenho preferido da configuração dos poderes mundiais, unipolaridade, bipolaridade, multipolaridade e ainda o que nos falta inventar…

Mas para intranquilidade dos macro-analistas da nossa micro-aldeia global, a realidade é inquietante. E o que vemos?

Os naufragados do Mediterrâneo e o cemitério de Lampedusa. Os prisioneiros do campo de refugiados palestinos de Yarmouk, na Síria, sob ataques do ISIS. As populações inocentes de Mosul como de Aden. De Alepo como Tikrit.

E agora os novos mártires de Palmyra . Já quatrocentos foram executados na cidade histórica, às mãos do ISIS. Principalmente mulheres e crianças – leio. São os novos mártires da guerra que muçulmanos se livram contra muçulmanos, na Síria como no Iraque como no Iémen, como homenagem macabra ao Deus comum. O Deus do Profeta.

E ao fundo da imagem, as ruínas romanas de Palmyra, essas pedras vivas de um passado que, tal como livro antigo, importa continuar a ler.

Ruínas que serão provavelmente as próximas vítimas dessa obsessão cíclica do homem, de fazer tábua rasa de tudo para renascer, inocente e puro.

O extremismo islâmico não tem nada de original, no que diz respeito ao delírio de recomeçar tudo de novo. Fazer tábua rasa do passado é pois tentação das culturas e das civilizações, de impérios e imperadores, no decurso da História dos Homens.

Para se ter uma visão correcta do flagelo das pequenas guerras e de uma das suas trágicas consequências sociais e humanas, apetece imitar uma voz vinda do profundezas das idades e dizer:

Refugiados de todos os conflitos, reuni-vos – e mostrai às nações como sois multidão!

E como numa grande epopeia da sétima arte, made in Hollyhood ou Bollyhood, imaginamos ver multidões cada vez maiores a sair das suas terras de origem para vagabundear sem esperança através do inóspito mundo.

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Em tom solene, quase profético, esta poderia ser a voz de comando de uma ONG à escala planetária, propondo-se apelar à solidariedade das economias mais prósperas, ou, mais simplesmente, uma indicação do Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, dirigida aos deserdados do Médio Oriente e do Magrebe, do corno de África ou das florestas colombianas, das regiões recônditas da antiga Birmânia ou de qualquer sítio do mundo, onde o quotidiano de gente simples foi alterado para sempre.

E sabe-se quantos seriam todos os refugiados e deslocados do planeta, se se reunissem num só território: seriam um país de trinta e oito milhões de pessoas, deslocadas no interior do seu próprio Estado de origem ; mais (+) cerca de 16 a 18 milhões de pessoas, como refugiados no exterior – se nos ativermos aos números oficiais relativos a 2014!

E mais (+) ainda, se a esses juntarmos os requerentes de asilo político (1 milhão e meio), e ainda os cinco milhões de refugiados palestinos sob tutela do UNRWA.

Temos no total uma “nação de deserdados” equivalente grosso modo ao Reino Unido ou à França! A potência dos mais pobres, dos mais vulneráveis, metade dos quais são jovens.

E sabe-se o que esta última referência quer dizer. Sem escola, sem trabalho. Sem futuro e sem esperança. Sujeitos à voracidade de traficantes de toda a espécie, desde os circuitos de prostituição internacional organizada até à mais recente tendência do recrutamento por organizações radicais.

País de pobres, fictício e apenas estatístico, essa pátria dos sem pátria é a resultante não de qualquer separatismo nacionalista ou invasão territorial, mas da violência étnica, do extremismo religioso, do império das utopias sobre seres humanos concretos que fogem abandonando tudo ou então perecem, para que avancem as visões delirantes de uns tantos.

Não esquecendo aqui as guerras civis ou guerras “tout court” motivadas pela ambição de controlo de recursos naturais e outras causas ainda.

A comunidade internacional vê-se assim a braços com um pesadelo a nível global que não poupa continentes nem regimes políticos, interpelando todos, líderes e opiniões públicas, exigindo respostas não só rápidas – mas imediatas!

 

Sem Nação e sem Estado

Na multiplicidade das formas do ser apátrida, social, cultural e politicamente, há o traço comum da fragilidade. Não ter Governo e não ter líderes a quem recorrer, não ter correios de transmissão representativa para canalizar reclamações, pedidos ou mesmo exigências – é estar definitivamente só. Nessa espécie de terra de ninguém em que se converte a marginalidade social e política.

E assim o mendigo ocasional está condenado à mão estendida para esse ser abstracto e sem rosto que dá pelo nome de sociedade internacional.

 

ACNUR: ONGs, Igrejas e Multinacionais

A resposta internacional a este enorme desafio é múltiplo mas sempre deficiente e muito aquém das necessidades concretas de cada momento.

Abro o website da Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados para tentar perceber como consegue essa agência especializada da ONU acorrer (e socorrer) com um mínimo de eficácia aos diferentes e simultâneos pontos quentes da emergência humanitária.

E vejo o apoio de grupos multinacionais ao lado dos pedidos de doação, numa mensagem dirigida de forma abstracta a grupos económicos e instituições, mas de forma concreta a cada um de nós.

Para prover a segurança, mas principalmente o tecto e a côdea, para milhões.

Carlos Frota 

Universidade de São José

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