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Agostinhos e outros moradores de Tesgão
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Memória Portuguesa no Nordeste da Índia e no Bangladesh -4

Agostinhos e outros moradores de Tesgão

O estabelecimento dos mercadores portugueses em Daca, em cerca de 1580, surgiu como consequência natural da solidificação da sua presença em Hugli, a poucos quilómetros da actual Calcutá. O negócio maior ali eram os panos, sobretudo as apetecidas musselinas ainda hoje tecidas ao ar livre por centenas de artesãos do linho e do algodão. Era esse produto vastamente procurado tanto na Europa – fosse nos palácios dos doges de Veneza ou na corte de Lisboa – como em Malaca, Goa ou até mesmo nos sultanatos de Samatra. Com os mercadores chegaram os padres a quem o magnânimo Acbar prendaria com terras onde aqueles de pronto edificaram as suas igrejas. O processo teve os seus contratempos, pois aos nativos recentemente islamizados horrorizava o facto dos portugueses consumirem carne de porco e beberem licores inebriantes. Porém, uma vez mais, claramente o imperador mogol se posicionaria ao lado dos seus amigos lusitanos e decretado ficou, com selo real e tudo, que nos seus domínios nada de mal lhes aconteceria.

O viajante italiano Cesare Federici, por exemplo, foi encontrar o nababo de Daca em excelentes termos com os mercadores lusos e, século e meio depois era a vez do francês Tavernier entrar numa igreja dos Agostinhos, feita de tijolo e de “muito bom acabamento”. Ora, o templo ainda lá está. Trata-se da igreja de Nossa Senhora do Rosário, edificada em 1599, embora no frontispício esteja a data de 1677 – provavelmente a assinalar obras de melhoramento – e sobre ela já aqui falamos. É porventura a única relíquia arquitectónica de origem portuguesa na capital do Bangladesh, já que das ruínas da nossa antiga feitoria nas proximidades da igreja, ainda visíveis nos primórdios do século XX, como nos informa o investigador Joachim Joseph António de Campos (1893-1945) no seu “History of the Portuguese in Bengal” – obra de referência que doravante servirá de referencial bibliográfico e fonte de informação a estes textos – nenhum dos actuais paroquianos parece ter conhecimento. Contudo, no já distante 1919, ano da publicação da citada obra, os vestígios do entreposto português mostravam sinais de resistir à passagem dos tempos, contrariamente aos congéneres holandeses, franceses e até ingleses, há muito já desaparecidos. A respeito dessa ruína escrevera o seguinte Bradley-Birt, no seu livro “Dacca – The Romance of an Eastern Capital”, publicado seis anos antes: “Tudo o que resta das feitorias estrangeiras de Daca é um pedaço de uma casa que outrora serviu de sede comercial aos portugueses. Era certamente, no seu tempo, um belo e cómodo edifício, porém, como tudo nesta cidade há muito adormecida, não passa agora de uma ténue lembrança dos gloriosos dias de antanho”.

Joaquim J. A. Campos vai buscar as suas raízes a Goa (a Arjuna, mais propriamente), sendo portanto, à época, tecnicamente português e apresentava-se como editor conjunto da The Century Review, membro da Sociedade Asiática de Calcutá, etc., etc. A respeito da obra que nos legou, dizia então a mui conhecida e ainda hoje existente revista The Spectator: “Campos recorda-nos, no seu interessante livro, que o Português se tornou a língua franca dos portos orientais e que [o major-general] Clive ‘não conhecia nenhum idioma indígena, mas sabia falar fluentemente a língua portuguesa e era com ela que comandava a tropa nativa’. Houve portugueses que pereceram no Buraco Negro [infame prisão de Calcutá]. Eram, na sua maioria, aventureiros que se casavam com as mulheres autóctones. Os missionários converteram muitos milhares de nativos à fé católica romana e baptizaram-nos com nomes portugueses. Podemos encontrar ainda em Bengala um número considerável de descendentes dos casamentos mistos (luso-Indianos) e dos nativos (feringhis) cristianizados pelos portugueses. É de louvar o esforço da narrativa de Campos, que descreve em detalhe episódios notáveis da história das relações europeias com a Índia”.

Um aviso geral emitido pela secção de administração e inventário do Tribunal Supremo do Quénia (causa nº 114 de 1947), datado de 8 de Agosto de 1945, e publicado na “Official Gazette of The Protectorate of Kenya”, informa-nos que a viúva Matilde Campos autorizava o seu advogado a tratar naquele tribunal de assuntos ligados ao património predial deixado pelo seu marido “Joaquim Joseph A. Campos, residente em Nairobi, recentemente falecido em Banguecoque, no reino de Sião, a 13 de Maio de 1945”. Pelo citado, intui-se que Campos terá vivido uma significativa temporada no Quénia, de resto como muitos outras goeses que naquele país e nos vizinhos Uganda e Tanzânia se distinguiriam em múltiplas áreas da actividade sócio-económica e cultural. De facto, ao deparar na Internet com o sítio “Galeria dos Goeses Ilustres” fico a saber que nosso personagem, “formado pela Escola Médica de Bengala em 1916”, emigraria mais tarde para a África Oriental Inglesa (i.e., Quénia) tendo regressado a Goa em 1934. Nesse mesmo ano proferiu duas palestras acerca das antiguidades portuguesas na África Oriental no Instituto Vasco da Gama, “de que fora sócio desde 1925”. Acrescenta ainda o autor desse blogue que Campos seria nomeado cônsul de Portugal em Banguecoque e Sião, “sendo-lhe cometido o encargo de pesquisas históricas e arqueológicas nessa região relacionadas com os feitos dos portugueses nessas paragens orientais”. Resta saber se Campos escreveu algo sobre esse assunto, à semelhança do que fez na região do Golfo de Bengala. Homem extremamente culto – Ferreira de Castro, no seu livro “A Volta ao Mundo”, refere-se a ele como um “prestigioso português de Goa, de bondade infinita e vasta cultura” – “o médico Joaquim de Campos foi nomeado pelo Governo do Sião seu principal conselheiro adido à Repartição de Arqueologia do Sião”.

Feito este interregno, franquemos o limiar da igreja de Nossa Senhora do Rosário, situada no bairro de Tejgaon, o Tesgão dos nossos cronistas. Estão lá dentro várias mulheres com véus na cabeça. Umas, em pose de oração cantando de braços abertos; outras, acendendo velas. Todas estão descalças e prostram-se à maneira indiana antes de se sentarem. Cimentadas nas paredes laterais, num gritante mas saudável contraste com os horríveis ladrilhos brancos, antigas lápides funerárias com dizeres em Português, Arménio (ou nas duas línguas em simultâneo) e também em Inglês. Numa delas lê-se o seguinte: “Aqui jaz Simão Soares. Morador de Tesgão onde foi casado com Máxima do Rego, o qual faleceu em 20 de Novembro e se enterrou nesta igreja dos RR.PP. Agostinhos de Tesgão a 21 do dito mês de 1725”. Mesmo ao lado, uma lousa no idioma de Shakespeare: “Here lies the body of Ritta Rebello who departed this life on Thursday the 25 of December 1806 aged 35 years”. Placas mais recentes imortalizam, em Português, os nomes de Elizabeth Cabral, nascida em 1869 e falecida em 1901, e o do reverendo Pio de Souza, vigário de Dacca que faleceu em 1860, e ainda a memória de Pascoal Floriano dos Anjos, “filho amado” do Dr. Clemente Francisco dos Anjos que “partiu deste mundo a 5 de Novembro de 1846 com 52 anos de idade e 5 meses”. Informa-nos ainda a placa de mármore ser aquele um “tributo de afecto” da inconsolável viúva Catherina dos Anjos, da sua “sobrinha adoptada” Eliza dos Anjos e do cunhado Basil Demetrius.

As pessoas da época morriam com frequência bastante jovens como o comprava a lápide “In memory Anne D: Jaquena who departed this life the 22 day of April Anno Doms, 1778 aged 21 years”. A mortalidade infantil, de tão comum, açambarcava parte significativa da área total das necrópoles. A igreja de Nossa Senhora do Rosário – no caso, na sua função de campo santo – não é excepção como comprova a seguinte inscrição: “To the memory of Constancia, infant daughter to Phillipe & Anna Leal, who departed this life on the 4 September MDCCLXXVIII (1728) aged 3 years 8 months & 22 days”.

Algumas destas pedras tumulares obrigam-me a um esforço de decifração suplementar, o que me leva ao bancos da velha Faculdade de Letras da Universidade do Porto e às aulas de Paleografia. Torna-se assim legível um estilizado “Aqui está sepultado Mariano filho de Paulo e Anna Lobo idade de quatro mezes e 22 dias. Faleceo Dacca 28 de Fev 1772”.

Para finalizar, três pedras tumulares, por sinal, da mesma família. Uma delas está em muito mau estado e só parcialmente consigo ler: “Aqui está sepultada (…) filha de Ambrosio Joan e de Christina Dormieux. Faleceo idade de 2 anos (…) Dacca 25 Feb. 1772”. Uns metros adiante, uma da irmã, um pouco mais velha: “Aqui jaz Christina Rosa Dormieux, filha de Ambrozio João Dorm. e de Christina Dormieux com a idade de 9 anos, dois meses e 20 dias”. Há ainda um terceira placa com dizeres em Latim com o nome desta família Dormieux que devia ser bastante influente e, porventura, ter origem judaica.

Joaquim Magalhães de Castro

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