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Cuidemos dos nossos

Falta pouco mais de um mês para Fernando Chui Sai On ser reeleito para o cargo de Chefe do Executivo. A campanha promete ser calma, mais não seja pelo calor que se faz sentir, com muitos residentes a procurarem outros locais para descansarem o corpo e a mente.

Em Setembro, terminada a “silly season”, a vida lá irá continuar, com o pensamento da grande maioria no dinheiro que há por ganhar, sejam pobres, remediados ou ricos. A Ordem tem muito e os frades são poucos, pelo que “chovam patacas que são sempre bem-vindas”, assim pensa a população.

O grande problema de Macau é precisamente haver muito dinheiro e este não fluir como devia, acabando a economia por ser estrangulada de alguma forma: os cidadãos – principalmente os residentes – não usufruem tanto quanto devem e os empresários não crescem tanto quanto podem. Resultado: disparam os conluios, os caciques, enfim, as jogadas de bastidores, em busca daquilo que a todos pertence por direito, mas que muitas vezes tarda ou é desviado para terceiros – falo de chineses do continente, de judeus americanos, de ingleses, franceses e outros “eses”, que vêm pescar por arrasto, sem olhar a meios.

O momento é de preocupação pela gritante falta de habitação a preços acessíveis e pela inflação galopante que de novo roça os seis por cento. Para acalmar as hostes, o Governo anunciou a construção de 28 mil fracções públicas no novo aterro junto à Areia Preta e de outras mil no terreno onde actualmente se encontra a Central Térmica de Macau, nas traseiras do Edifício CEM.

Tendo em conta os atritos entre as diferentes classes sociais e profissionais, com repercussão na relação entre governantes e governados, o Governo deve definir desde já as regras do jogo, para que todos fiquem satisfeitos.

No meu entender, sendo o Governo o dono das obras, as empreitadas de construção e os projectos de arquitectura deverão ser entregues exclusivamente a empresas de Macau, ficando a mediação imobiliária a cargo do Instituto de Habitação. Só assim, Governo, construtores, arquitectos e residentes poderão chegar felizes ao final do processo, com a certeza que foram pagos os valores justos em todas as fases, desde o projecto, passando pela edificação, até à aquisição ou arrendamento pelos privados.

Se desta experiência resultarem bons frutos, o Governo deve ter a coragem política de cada vez mais fechar a torneira aos empresários e arquitectos forasteiros, pois o seu estabelecimento em Macau, com maior ênfase desde a abertura do primeiro casino à margem da SJM, apenas retirou projectos e margem negocial às empresas locais e inflacionou o mercado, asfixiando as famílias com rendimentos mais baixos. A comprová-lo estão as largas dezenas de prédios entretanto construídos na zona norte da Península de Macau.

Esta realidade explica o porquê de muitos empresários se aproximarem do poder político, o que faz com que o sector da construção civil ocupe uma parte substancial das bancadas da Assembleia Legislativa, pois de outro modo arriscar-se-iam, a longo prazo, a ficarem reduzidos a meros consultores ou testas de ferro de interesses provenientes de Guangdong ou de outras províncias, sem esquecer Taiwan.

Aliás, no sector do jogo, a chegada de judeus americanos e de chineses (junkets) do outro lado das Portas do Cerco enfraqueceu em certa medida o clã Ho, na medida em que mais actores passaram a influenciar o Governo e a sociedade civil em todas as áreas. É verdade que Macau tornou-se cosmopolita, mas perdeu identidade, sendo encarada como a Las Vegas do Oriente com tudo o que de mau a “cidade do vício” tão bem sabe exportar para o resto do mundo.

Pergunto: Quantos casinos foram projectados por arquitectos e construídos por empresas de Macau? Quantos residentes foram contratados durante as diferentes fases dos mega projectos? Quem são e qual a origem dos sócios das empresas promotoras dos hotéis-casino?

Mais do que responder a estas perguntas, o Governo devia explicar o porquê de ter escancarado as portas ao dólar e ao renmimbi, sem ter protegido os seus em primeiro lugar. Agora admira-se que a “sede” por ele fomentada esteja a secar as “fontes” de Coloane. É a chamada sobrevivência…

 

BES

Ouvi esta semana que o problema do Grupo Espírito Santo é caso de pedopsiquiatria, em que o médico (Governo de Portugal, Banco de Portugal) diz às crianças (Povo, Depositantes), em voz muito baixa e meio arrastada, que “está tudo bem”, que “o problema é o Grupo e não o Banco”.

Mais do mesmo! Já ouvimos esta lenga-lenga no casos BPN, BPP, BCP, BPI, com os dois primeiros a afundarem e os dois últimos a safarem-se do naufrágio. Agora é a vez do BES, com a enorme interrogação sobre o que lhe irá acontecer.

O chocante desta novela é ouvir alguns dos responsáveis destes bancos dizerem que o problemas esteve – ou ainda está em alguns casos – nos depósitos feitos no estrangeiro, como se grande parte do dinheiro não fosse de portugueses tão portugueses como os que vivem em Portugal, já para não falar dos que, mesmo residindo no País, colocaram as poupanças no estrangeiro (como em Macau, por exemplo) para fugir ao saque sistemático feito pelo Estado Português.

Segundo as notícias, a continuidade das operações do BES no Luxemburgo e em Angola está muito dependente da boa vontade dos Governos destes dois países, sendo que os novos gestores do BES terão de mostrar humildade e seriedade junto de quem irá decidir pela morte ou sobrevivência das instituições financeiras.

É nestas ocasiões que o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas deve aparecer para confortar os portugueses que vivem no estrangeiro. Mas de José Cesário, até ao momento, não se ouviu uma única palavra. Nada a que não estejamos já habituados…

José Miguel Encarnação

jme888@gmail.com

 

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