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Xexuão, a cidade azul
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Xexuão, a cidade azul

Com um salário de apenas 250 euros mensais, os polícias encontravam motivos de sobra para aplicar multas (e se não os encontravam, inventavam-nos), esperando com isso receber as habituais luvas. Tirar-lhes fotografias era a última das coisas a fazer, pois circulavam na Internet filmagens captadas à socapa, mostrando-os a receber dinheiro indevido, algo que deixara os dirigentes da corporação bastante enfurecidos.

Deste primeiro banho de civilização islâmica versão Magrebe, tenho a destacar a designada “mansão dos casamentos”, uma espécie de casa de bonecas tamanho XL, com cúpulas abobadadas e duas enormes estátuas à entrada, pronta a ser alugada a todos os casais de novos-ricos que ali quisessem dar o nó. E os novos-ricos eram cada vez em maior número em Marrocos.

Surpreendeu-me a forma moderna como trajavam algumas das mais jovens habitantes de Tetuão – jeans combinados com chalabas e véus. Uma delas, avistada de relance, candidatava-se a ser a mais bela marroquina de toda a viagem.

Depressa deixaríamos para trás essa cidade, vetusto exemplo da arquitectura hispano-árabe. Do núcleo intramuros, um dos cinco locais de Marrocos detentores do título Património da Humanidade, vislumbrámos apenas, e por breves instantes, as muralhas acastanhadas. Alguns quilómetros mais a sul, com a magnífica cadeia montanhosa do Rife pela frente, Tetuão era já uma mancha branca de casario colada à encosta de uma serra menor que o Sol ia pintalgando com laivos dourados, porque isto de início de terras do Norte de África começa mesmo a toque de montes e de vales. E por belos montes e vales seguimos, não sem antes termos passado a provação dos pestilentos odores de uma lixeira a céu aberto, assim como uma espécie de Cacia do Norte de Marrocos. Numa área de muitos hectares, centenas de metros a perder de vista, plásticos de variadas cores, inteiros ou em pedaços, presos às espessas urzes ou já impregnados no solo recentemente lavrado, era tudo o que se avistava. A propósito do lôbrego cenário, Isabel lembrava-se de ter ouvido o irmão dizer – «mecânico no Rali Lisboa-Dakar» – que a África mais parecia uma lixeira a céu aberto. Pois. E a tão afamada competição motorizada, que iniciava a sua invasão africana lá para as bandas de Melilla, ajudava a que o continente continuasse a perpetuar o deplorável estatuto…

Em pleno Rife, eram já poucos os núcleos habitacionais, tão só casas isoladas de onde saíam miúdos com cestos cheios de medronhos, ou então homens adultos com bolotas de haxixe de fabrico local. A sinalética era por demais convincente; porém, do nosso lado, não havia qualquer interesse.

Com esses dois quadros, seguimos pelo entardecer dentro até chegarmos a Chefchouen – a Xexuão das nossas crónicas, «ninho de águias, fortaleza inexpugnável», de onde partiam sucessivas incursões contra o infiel cristão, quando este era senhor dos portos costeiros.

Se é verdade que Tetuão está colada à montanha, Chefchouen, então, faz parte da encosta sul do maciço central do Rife. Antes de chegarmos à almedina, o coração da “cidade santa”, tivemos de percorrer, em toda a sua horizontalidade, uma vasta zona residencial que se foi juntando ao centro histórico nestes últimos sete anos, e que me fez lembrar as cidades indianas nos contrafortes dos Himalaias.

Não fosse a inesperada boleia da Isabel e do Hassan, estava predestinado a subir tudo aquilo com a mochila às costas, em busca de hotel. Nada de assustador, pois no prolongamento da íngreme ladeira, já em pleno monte, tivesse tempo e disponibilidade para tal, o que não era o caso, com certeza estaria pronto a perder-me nas pequenas aldeias dos vales que imaginava existirem.

Hassan era um homem do deserto, da região de Merzouga, na fronteira com a Argélia, e em Chefchouen tinha amigos, naturais de Merzouga e de outros locais, que à semelhança de tantos outros marroquinos ali montaram negócio, indo ao encontro dos turistas antes que os turistas chegassem a eles. O Castelhano soava por tudo quanto era sítio, sendo esse um dos muitos indicativos da proximidade com a Península Ibérica.

Chefchouen, ou Chouen, como os naturais preferem chamar-lhe, é um desses locais que encantam à primeira vista – magia das primeiras impressões. Confrontado com ela ao cair da noite, encantou-me o azul-claro – por vezes, um azul-turquesa; outras, um azul-violeta – com que os habitantes caiam certas ruas, algumas das paredes e, invariavelmente, todos os rebordos das portas e janelas. Há duas explicações para o facto: uma delas é de que o azul afasta os maus espíritos; a outra a de que o acrescento de cor é sinal de beco sem saída. Pois de um labirinto se fala aqui, se bem que a almedina de Xexuão seja pequena em comparação com essas imensas teias de ruelas – onde facilmente se perde o Norte – típicas de espaços congéneres nas cidades imperiais de Fez e Marraquexe.

Nessa noite, experimentei aquela que iria ser doravante a minha dieta-base. Bissara é uma deliciosa sopa de favas a nadar em azeite caseiro, condimentado com cominhos, habitualmente servida com um dos pães redondos marroquinos e um pratinho de zaitunas com uma cura – há que admiti-lo – bem melhor do que a das nossas azeitonas. Portanto, dêem-me caldo de favas com pão e azeitonas, e considero-me alimentado para o resto do dia. Provei também o tagine. Mais do que um prato, é um modo de confecção semelhante ao nosso refogado, e vai ao lume num recipiente de barro de forma cónica, lembrando os chapéus de palha encimados por pompons de lã envergados pelas aldeãs do Rife a quem todo o turista deseja tirar fotos. Embrulhadas em mantas de riscas coloridas, essas mulheres parecem-se com as camponesas índias dos Andes mais remotos.

Joaquim Magalhães de Castro

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