A Relatividade do Tempo

A relatividade do tempo

Este artigo é uma singela homenagem. Conheci um senhor muito ilustre, bem-falante, simpático, inteligente, artista e ao mesmo tempo humilde.

Este senhor morava num lar. A viuvez, a falta de saúde e a solidão levaram-no até lá. Apesar das vicissitudes da vida e das várias dificuldades que encontrou, mantinha a força de artista!

Era um poeta talentoso e com a peculiaridade do rigor, simetria, rimas e vocabulário rebuscado. Os seus poemas tinham alma e eram por norma retrato de muitas vivências, pessoas que passaram na sua vida, sítios que o marcaram, paisagens e outros elementos da natureza.

Tinha a capacidade de decorar meticulosamente todos os seus versos para que alguém gentilmente os pudesse escrever. Isto porque, a sua vista já não o permitia fazer. Decorava por vezes, durante dias a fio até que alguém finalmente os passava a papel.

Tinha material de qualidade e de sobra para fazer um, dois ou três livros. E apesar das inúmeras publicações que outrora fez em jornais, o seu maior sonho era publicar um livro. Sabia exactamente quais os trabalhos que queria ver nesse livro e aguardava ansiosamente que os responsáveis da instituição o ajudassem nessa sua árdua mas não impossível tarefa.

Continuava a ter inspiração, mesmo com a idade avançada e a saúde pouco favorável. Trabalhava arduamente todas as palavras no seu cérebro e transformava-as em arte.

Todos sabiam do seu sonho e ele vivia para isso. Mas o tempo foi passando e com o passar do tempo veio o medo de morrer. Mas mais do que o medo de morrer, era o medo de o sonho não se concretizar: «Com o tempo que estão a demorar, ainda morro sem ter o meu livro publicado».

Não errou. Morreu, Deus o guarde em paz. E quem podia ter concretizado este sonho, ainda cá está. E agora mesmo que o faça, o principal interessado não poderá assistir àquilo que poderia ser o concretizar do sonho da sua vida…

É uma história verdadeira e que apesar de ter tido um fim menos feliz, realça o poder do sonho na vida do homem tal como nos ensina o poema de António Gedeão “Eles não sabem, nem sonham que o sonho comanda a vida”. Vamos sonhar e vamos ajudar os outros a concretizarem os sonhos, porque a felicidade do próximo, também é um compromisso nosso.

 Sara Beja 

Gerontóloga

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