D. SAVIO HON TAI-FAI

Arcebispo D. Salvio Hon Tai-Fai

Pequim cada vez mais tolerante

D. Savio Hon Tai-Fai, secretário da Congregação para a Evangelização dos Povos, disse a’O CLARIM que a Religião Católica é bem aceite pela actual geração chinesa, o que não significa que a população frequente a Igreja. «Significa que não se opõe e concorda com alguns valores religiosos», explicou.

Acerca da tradição cultural chinesa, sustentando que «não era tão aberta como agora», referiu que por vezes há «algum conservadorismo», mas «o problema não é grande, porque a cultura, principalmente a confucionista, coincide em muitos aspectos com os valores do Evangelho».

A título de exemplo, lembrou as palavras de Confúcio: «“Não faças aos outros o que não gostarias que os outros te fizessem”», e também do Senhor: «“Faz aos outros o que gostarias que os outros te fizessem”» para concluir que «sendo assim estamos de acordo em muitos aspectos».

D. Savio Hon Tai-Fai, ao olhar para o século XVI, também recordou as palavras do jesuíta Matteo Ricci: «Ele disse que “se São Paulo fosse para a China pregar o Evangelho, iria encontrar muitos pontos em comum entre a cultura chinesa e a fé [Católica]».

«No que diz respeito à cultura chinesa, há uma abertura de base, mas o que eu disse sobre a abertura do homem comum [na China] é algo notável», frisou.

A abertura também aconteceu de forma gradual no seio do Poder Central: «Foi em 1957 que a Associação Patriótica Católica Chinesa foi estabelecida no continente chinês, sendo a primeira vez que surgiu o nome “Católica Chinesa”».

«Para quem está de fora dizemos que somos uma religião, que acredita em Deus (天主). Existem hoje cinco grandes religiões na China, incluindo uma que acredita em Deus. Mas olhando para dentro queremos dizer Igreja Católica. Antes do Partido Comunista criar uma nova China, “Católica” era o nome para referir a Igreja Católica, mas também um termo usado pela Igreja Oriental e pela Igreja Ortodoxa, embora sem estarem em plena comunhão com o Papa. Portanto, a fim de expressar que a Igreja Católica era a única que estava em comunhão com o Pontífice Romano, foi chamada Igreja Católica Romana», recordou.

«Todo o mundo sabia que não era a Igreja Católica dos ortodoxos, mas sim a que estava em comunhão com o Papa. Quando o nome “Católica Chinesa” apareceu, do ponto de vista do regime chinês, a ligação [da Igreja Católica na China] ao Pontífice Romano foi cortada», porque «considerava o Vaticano imperialista, razão pela qual não podia deixar os seus cidadãos terem qualquer relação com [o Catolicismo Apostólico Romano]», explicou.

 

Viragem

«Em 1982 Deng Xiao Ping quis a reforma e a abertura [da RPC]. Desde o seu tempo que a abertura do Partido à religião tem crescido de forma notória», acentuou, vincando que «as pessoas têm uma espécie de espírito religioso».

Nesse sentido, aludiu à importância do Documento nº 19, referente a todas as religiões, lançado pelo Governo Central: «A Revolução Cultural aconteceu de 1966 até à morte de Mao Tsé Tung [em 1976]. Toda a actividade religiosa cessou e ninguém se atrevia a falar de religião durante esse período. Era necessário este documento para as pessoas poderem falar novamente e voltar a participar nas actividades religiosas».

No seu entender, «o Documento também abordou o problema católico, porque a Igreja Católica [Apostólica Romana] é certamente autónoma e tem a sua própria governação. Para ter a certeza, do ponto de vista do regime, a Igreja Católica chinesa também é auto-governada».

Já nas sociedades chinesas de Taiwan, de Hong Kong e de Macau não é usada a designação “Católica Chinesa”. «Apenas dizemos “Católica”. O mesmo vale para as comunidades chinesas de outros lugares, como na Austrália e nos Estados Unidos. Apenas sob o regime político [em vigor na RPC] é usado o termo “Católica Chinesa”», aclarou.

«É um termo oficial, mas as pessoas usam-no? Não necessariamente. Muitas pessoas também dizem: “Nós somos católicos, católicos tradicionais”. Significa isto que querem estar em comunhão com o Santo Padre», concluiu o secretário da Congregação para a Evangelização dos Povos.

PEDRO DANIEL OLIVEIRA 

com Benedict Keith Ip

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