O Nosso Tempo

Conversas comigo mesmo

Conversas comigo mesmo

Quem gosta de converter em texto escrito as suas reflexões sobre a vida, sobre os acontecimentos, sobre as pessoas, sobre o modo enfim como cada um questiona os caminhos do mundo e assim interpela o seu próprio tempo – quem gosta de fazer isso cai muitas vezes na tentação de simplificar. Isto é, de tentar abrir as portas do entendimento com uma única chave: a da economia, a da política, a da filosofia, a da literatura, a das artes em geral, etc. etc.

Para os respectivos fiéis ou praticantes, cada uma destas vias tem valor quase absoluto. E assim o escritor vive para os seus livros, e pelo que escreve “explica” o mundo, na sua inteligibilidade ou, pelo contrário, no seu absurdo. E assim a literatura absolve ou condena, liberta ou oprime, realiza ou aprisiona.

“Poeta nas horas vagas, e leitor em quase todas as outras”(!?), como gosto de me reconhecer, sempre me senti distante da pretensão de procurar na literatura a explicação do que quer que seja. Não passando o exercício da escrita, para mim, num mero inventário das contradições e das perplexidades do homem de cada época. E as mesmas contradições, grosso modo, atingem o pintor com os seus quadros, o economista com as suas teorias e os seus gráficos, o matemático com os seus números… e cada um desses domínios particulares é como que uma janela, de onde se tenta ver a paisagem toda.

Mas a complexidade do mundo derrota tais tentativas. E tem-se cada vez mais consciência de que, longe da tentação dos enciclopedistas que queriam reunir todo o saber humano na Enciclopédia, não há bibliotecas tão grandes, nem as digitais, onde possamos encontrar A CHAVE, as chaves. Assim, há que resignarmo-nos com a vastidão do que é hoje conhecido e com a insuperável magnitude do que o não é. A humildade converte-se então não apenas em exigência ética, mas em puro imperativo intelectual. Ser inteligente é ser humilde.

 

Espaços dentro de si

A humildade de Francisco tem, todavia, um sentido mais profundo. E é uma humildade que exige tempo e espaço para uma certa solidão criadora. Dizia alguém deste Papa que, na postura humilde do homem vestido de branco, se imaginam as muitas horas do homem de joelhos. E isso é privado.

Numa época em que poucas áreas da actividade humana escapam à curiosidade mediática, à obsessão jornalística, à exposição pública, com o louvável desejo de informar e o menos louvável propósito, tantas vezes oculto, de desinformar, é interessante observar como o Papa Francisco consegue subtrair-se a tal lógica, como personalidade de projecção mundial que é. E de criar para si próprio e, com o seu exemplo, para a Igreja, espaços de recolhimento e de espiritualidade que, ainda bem, escapam aos holofotes do eterno espectáculo do mundo.

Porque a grande tentação hoje é a de transformar tudo em informação que se partilha, numa multiplicação artificial de canais de relacionamento digital que fogem rapidamente ao controlo da sua fonte de origem.

A grande virtude da globalização, no que diz respeito à comunicação humana, converte-se no seu veneno mortal. Fala-se demais. Partilha-se o desnecessário, o supérfluo, o corrosivo, o malicioso. Faz falta uma ética de como usar o que se tem hoje de forma superabundante, o saber. Ou o julgar saber… e o saber afinal ocupa lugar. E o saber inteligente mais lugar ocupa, em termos de reflexão pessoal.

 

Da economia e não só

Pobres sempre haverá… O Dia Mundial dos Pobres foi celebrado na Santa Sé, há duas semanas, com iniciativas em que o Santo Padre pretendeu chamar a atenção da opinião pública mundial – e dos líderes das nações – para o escândalo da pobreza no mundo.

Gestos simbólicos, como não podia deixar de ser, estenderam-se das celebrações litúrgicas a acções de ajuda concreta e de convívio com os pobres de Roma.

Para os mais cépticos (ou os mais cínicos) tais iniciativas são puro folclore, enquanto os outros, os “de boa vontade”, sublinham o carácter pedagógico: o Papa ilumina o caminho, mostra como se deve actuar.

E felizmente Francisco não está sozinho. Dentro e fora da Igreja há todo um universo de organizações e de voluntários dedicados à ajuda concreta. Baseados em algo que radica no coração dos homens e que dá pelo nome de solidariedade.

 

Um tema gasto?

O tema parece gasto, como se a sua simples enunciação nos remetesse imediatamente para as palavras do Evangelho: pobres sempre haverá…

Mas esta atitude de aparente resignação bíblica não só é contrariada pelas múltiplas conexões entre salvação e solidariedade humana, como poderia ocultar, se mal entendida, uma das chaves fundamentais para a compreensão do tempo presente.

É que a pobreza mata, a pobreza divide, a pobreza atrasa, a pobreza exacerba conflitos, a pobreza torna instáveis as comunidades humanas, e constituiu desafio acrescido para quem as dirige. E camuflada ou ainda visível na onda de prosperidade económica dos chamados países ricos, os do primeiro mundo como antigamente eram conhecidos, está mais presente, ainda hoje, em regiões inteiras do mundo, como as de África, Ásia ou América Latina, onde paradoxalmente a escassez dos recursos não é o principal problema, mas sim a sua organização e … a sua partilha.

Mesmo quem não tenha estudado a fundo a Economia ou a História do mundo percebe que não foi descoberto ainda o sistema ideal que alie crescimento económico e igualdade. Daí as diversas tentativas, quer históricas, quer no tempo presente, oscilando sempre todas entre os dois pólos da equação: o maior ou menor papel do Estado ou do sector privado, na implementação de políticas de desenvolvimento.

Em todos esses modelos há, contudo, algo de comum que, de tão evidente, é quase redundante mencionar. É que, mais estatal ou mais liberal que seja o sistema, os poderes públicos estão sempre presentes, para indicar o caminho aos agentes económicos e proteger os seus interesses que são afinal os interesses do país no seu todo. Que o diga Donald Trump e o seu neo-proteccionisno.

Os recentes acontecimentos no Zimbabué, relacionados com a sucessão atribulada de Robert Mugabe e a situação catastrófica do País, no plano económico, recentram o tema geral da pobreza no capítulo da pura sinistralidade política.

O Zimbabué tem noventa por cento da população desempregada. E, no entanto, o País é rico em recursos naturais. Onde está pois o erro? Na natureza que é afinal generosa, ou no ser humano que é, no mínimo, pouco inteligente, se não pura e simplesmente desonesto.

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Conversas comigo mesmo. Modos de interiorizar, pessoalizando-as, as mensagens do mundo exterior. Tentativas de explicação para além do óbvio.

Carlos Frota 

Universidade de São José

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