No lado francês de St. Martin

Rota dos 500 Anos-No lado francês de St. Martin

Estamos em St. Martin, desta vez no lado francês, ancorados na baía de Marigot, depois de uma viagem a partir de St. Thomas. No primeiro dia parámos na ilha de St. John, após pouca vela e muito motor. Os ventos nestes dias estão fortes, mas sopram de um quadrante que não nos possibilita velejar em direcção a Guadalupe na rota pretendida.

A ausência de condições e o facto de estarem previstas trovoadas contribuiu para que a primeira opção tenha recaído na baía de St. John, a última possessão das Ilhas Virgens Americanas. Tem a característica de ser parque natural na quase totalidade da sua área.

Cumprida uma noite bem dormida, seguros numa poita, dado que nas baías da ilha não é permitido ancorar (uma medida para proteger a vida selvagem no parque), decidimos rumar o mais possível a Este, tentando fazer um ângulo que nos permitisse, mais tarde, apontar a Sul-Sudeste. No entanto, depois de 24 horas a lutar contra correntes, ventos e ondulação, e sem grandes avanços no percurso, mudámos alegremente os planos e decidimos seguir para a ilha de St. Martin. Por detrás da decisão de “visitarmos” novamente esta ilha esteve o facto de estarmos com pouco gasóleo no depósito. O resto do combustível foi gasto no último dia em direcção à ilha dividida entre franceses e holandeses.

Nas últimas horas de viagem, a pouco mais de 30 milhas da costa, chegámos a pensar que não teríamos gasóleo suficiente, pelo que contactámos um navio que estava no raio de alcance do nosso rádio e que seguia para o mesmo destino: o porto de Marigot. O pequeno cargueiro, registado no “offshore” da Madeira, de nome Serena, concordou em dar-nos apoio, caso fosse necessário, tendo abrandado a marcha até termos contacto visual – ia a 15 nós, enquanto o Dee não passava dos três nós. Fomos mantendo contacto via rádio, ficando desde logo assente a possibilidade de procedermos a uma trasfega de combustível, em último recurso. Quando faltavam apenas cinco milhas para chegar ao porto, o cargueiro não pôde esperar, pois tinha que executar manobras de aproximação por forma a respeitar a rota atribuída pelo capitão do porto. Ainda assim, fomos mantendo o contacto, não fosse o motor deixar de funcionar por falta de combustível. Felizmente o gasóleo foi suficiente para chegarmos ao ancoradouro. Pelo meio ainda tive de substituir os filtros de combustível, dado que o sistema apanhou ar. O problema resolveu-se com um pouco de trabalho e em plena navegação. Com os nervos à flor da pele, as últimas milhas foram cumpridas sem sabermos se o motor iria voltar a parar.

Estávamos a mais de quarenta milhas quando decidimos que a baía de Marigot seria o nosso destino. Sabíamos que o gasóleo que tínhamos a bordo não era suficiente para continuarmos rumo a Guadalupe e então optámos por St. Martin.

Os primeiros dias, desde a partida de St. Thomas – saímos no Domingo e não no sábado, como programado inicialmente – até ao dia em que alterámos os planos, foram navegados à vela com o auxílio do motor, ao qual fomos recorrendo para corrigir a rota ou velejar contra o vento em direcção ao Sul. A utilização extra do motor delapidou o “stock” de combustível.

Planeamos deixar St. Martin no sábado (7 de Maio), estando previsto levarmos dois ou três dias até Guadalupe, sendo quase certo que teremos de voltar a recorrer ao motor. Os ventos não estão de feição e temos de chegar ao destino a tempo de recebermos os nossos amigos de Portugal no dia 14.

Eu nunca gostei de navegar com datas definidas porque nunca sabemos se podemos contar com vento e condições favoráveis. Quando velejamos sem compromissos podemos sempre esperar por janelas meteorológicas mais benignas, que tornem a experiência mais agradável.

Quando tomámos a decisão de ir a St. Thomas para ajudarmos um dos nossos amigos brasileiros, na ausência da esposa – ia ficar sozinho com as duas filhas menores – já sabíamos que regressar a Guadalupe nesta altura do ano seria complicado, devido aos ventos de Sul-Sudeste.

Embora a nossa estada em St. Thomas tenha acabado por ser em vão – à última da hora o nosso amigo brasileiro mudou de ancoradouro – deu para encontrarmos velhos amigos.

A par do problema com os filtros de combustível, o gerador eólico deixou de funcionar. O vento foi tanto que queimou os cabos de ligação e o interruptor. O problema já foi resolvido, estando o gerador a funcionar mas sem interruptor.

Quando chegarmos a Guadalupe devemos ancorar em Port Louis, na costa norte da ilha francesa. Tínhamos pensado em Pointe-à-Pitre, visto ser mais próximo do aeroporto e distar apenas duas ou três milhas de uma ilha com praia, para que os nossos amigos de Portugal pudessem desfrutar do Sol e do Mar das Caraíbas. Acontece que em conversas com outros amigos ficámos a saber que Port Louis tem praias mais bonitas e protegidas. Como não conhecemos vamos também aproveitar para visitar mais um local, antes de zarparmos para Oeste…

JOÃO SANTOS GOMES

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