Maestro Aurelio Porfiri propõe por dois milénios de Música Sacra

MAESTRO AURELIO PORFIRI

«Antes de serem ocidentais, as grandes obras de música sacra são católicas».

O antigo professor da Universidade de São José está na vizinha Região Administrativa Especial de Hong Kong para orientar um curso sobre a história da música de inspiração católica. A iniciativa, que teve início esta semana, decorre até 2 de Fevereiro no campus da Universidade Chinesa de Hong Kong. Compositor prolífico e escritor com uma extensa actividade editorial, Aurelio Porfiri lançou em Dezembro o seu mais recente livro, uma obra escrita a meias com o vaticanista Aldo Maria Valli que passa a pente fino os principais desafios com que a Igreja se depara actualmente.

Uma viagem por 21 séculos de música de inspiração católica em meia dúzia de capítulos. Esta é a proposta que Aurelio Porfiri e a Universidade Chinesa de Hong Kong lançaram aos entusiastas da música sacra da região do Delta do Rio das Pérolas, com a criação de um curso livre no qual o maestro e compositor italiano se propõe abordar a tradição musical da Igreja e desvendar alguns dos mais significativos contributos da Cúria Romana para a evolução da música.

Porfiri, que viveu em Macau entre 2008 e 2015, deverá discorrer sobre aspectos como o desenvolvimento da liturgia, o canto gregoriano, a polifonia, a ascensão da música secular e os desafios que a música sacra enfrenta num mundo em constante mudança. O curso, que se realiza às quartas e sextas-feiras, arrancou esta semana com o compositor italiano a dedicar a primeira aula ao período apostólico e ao nascimento da tradição musical católica. A iniciativa, que decorre nas instalações da Universidade Chinesa de Hong Kong, no Yasumoto International Academic Park, prolonga-se até ao início de Fevereiro e assume como principal desígnio o propósito de colocar em perspectiva o papel do Catolicismo na forma como se desenvolveu a música de matriz ocidental.

«A Igreja está por detrás do desenvolvimento da tradição musical do Ocidente. Há toda uma requinta linguagem musical que teve origem na tradição das liturgias cantadas», recorda Aurelio Porfiri em declarações a’O CLARIM. «Este curso destina-se a todos quantos desejam saber um pouco mais sobre a enorme tradição musical da Igreja Católica e sobre o modo como esta tradição se desenvolveu em termos históricos», acrescenta.

“Fellow” do Trinity College (Londres), Porfiri mantém uma profícua actividade tanto no domínio da escrita como ao nível da composição musical. O desafio de criar música litúrgica – reconhece – não se prefigura um exercício fácil, até porque o propósito das composições a que dá forma passa, antes de mais, por facilitar o diálogo com Deus: «Não é fácil conceber novas obras. E não é fácil pela simples razão de que quem compõe precisa de se certificar de que a música constitui também uma forma de oração», explica o actual organista da igreja de San Benedetto in Piscinula, na cidade de Roma.

Crítico da forma como alguns aspectos da organização e da liturgia da Igreja Católica evoluíram, Aurelio Porfiri lamenta que a vasta tradição musical ligada ao Catolicismo não tenha sido salvaguardada. O antigo docente da Universidade de São José diz que a componente musical da liturgia deixou de ser uma prioridade para a Cúria Romana: «Um dos grandes problemas é que a liderança da Igreja deixou de ter consciência da relevância da música. Não há muito que possa ser feito para alterar este aspecto, até porque a aposta em música litúrgica boa e digna deixou de ser uma prioridade. Este não é, de resto, um fenómeno novo».

Antigo director para os Assuntos Musicais da Escola de Nossa Senhora de Fátima e responsável pelo coro da secção de língua inglesa do Colégio de Santa Rosa de Lima entre 2010 e 2015, Porfiri não estranha o grande interesse que a música sacra suscita em Macau e Hong Kong, regiões nas quais existe subsiste uma grande tradição coral. O maestro relaciona um tal fascínio com a «profunda religiosidade» do povo chinês. «Antes de serem ocidentais, as grandes obras de música sacra são primordialmente católicas. Encerram uma dimensão universal de religiosidade profunda e o povo chinês pode ser um povo profundamente religioso», atesta.

“Sradicati” nas livrarias desde Dezembro

Colaborador da edição em Inglês d’O CLARIM, Aurelio Porfiri é também escritor e cronista, mantendo uma intensa actividade editorial. Escrito a duas mãos com o vaticanista Aldo Maria Valli, o seu mais recente livro – “Sradicati – Dialoghi Sulla Chiesa Liquida” – chegou às livrarias em meados de Dezembro e aborda aquelas que são actualmente, no entender dos autores, as questões de maior importância para a vida da Igreja. «Aldo Maria Valli é um dos vaticanistas mais famosos de Itália. Nos dias que correm, a Igreja está fortemente dividida e aparenta, por vezes, que está a ir em direcções que no nosso entender podem ser prejudiciais para a sua própria unidade e integridade. Como católicos, falamos em “Sradicati”, da apreensão com que nos deparamos perante as dificuldades e os conflitos com que a Igreja se depara», sublinha Porfiri.

O nosso entrevistado entende que alguns dos dilemas com que o Vaticano se depara colocam a Igreja numa posição em que arrisca perder a sua própria identidade: «O maior desafio, no meu entender, passa por conseguir manter intacta a sua identidade, por se manter católica e por não sucumbir aos assuntos do mundo. Esta é uma tentação com que a Igreja se depara desde os primórdios».

Apesar das críticas ao posicionamento do Vaticano face a alguns dos desafio que enfrenta e das preocupações relativas ao futuro da Igreja enquanto instituição, Aurelio Porfiri aplaude o esforço de aproximação à República Popular da China feito pela Santa Sé, ainda que defenda que a abordagem ao processo de normalização de relações deva ser feito com cautela. «Os católicos devem estar orgulhosos da decisão, tomada pela Igreja, de estabelecer relações com todos os países para o bem das comunidades católicas que existem em determinadas nações», sustenta, rematando de seguida: «O que pode ser legitimamente questionado é se as decisões concretas e os acordos firmados estão sempre em conformidade com o bem das ditas comunidades, como parece ser o caso neste caso. Tanto o Papa Francisco como o secretário de Estado do Vaticano reconheceram já que para alguns fiéis será difícil aceitar um acordo, dadas as actuais condições em que vivem a sua fé».

Marco Carvalho

 

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