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O fundo da caverna
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O fundo da caverna.

Eu resistia a acreditar: fui mesmo ver a gravação da reportagem que passou na quinta-feira (10 de Janeiro) na TVI, depois do telejornal das 20 horas, seguida de debate na TVI24.

A reportagem consistia fundamentalmente numas imagens de má qualidade, com uma cor distorcida, captadas com uma câmara instável e um som fraco, da conversa de um homossexual com uma psicóloga, com um padre (no confessionário) e ainda trechos de reuniões de entreajuda de homossexuais, numa paróquia de Lisboa. Nunca se via o protagonista homossexual, apenas a psicóloga e o padre. Aliás, a imagem era tão má que, muitas vezes, só se via a testa da psicóloga e o tecto da sala.

No rodapé, lia-se: “Grupo secreto quer ‘curar’ homossexuais”. Periodicamente, uma “voz-off” explicava que as sessões eram pseudo-psicológicas e falsas. Nos intervalos das conversas, enquanto víamos uma pessoa de costas, em contra-luz, o interlocutor homossexual fazia a síntese, sempre em “voz-off”: lavagem cerebral, tratam-nos como almas perdidas, manipulam, é mutilante, «saí de lá a sentir-me um pecador desgraçado», foi violento… imaginem que me disseram que «só uma amizade casta seria correcta», desvalorizam o amor entre duas pessoas «só porque não têm filhos».

No programa que se seguiu, no canal TVI24, ficámos a saber que as conversas tinham sido gravadas às escondidas, sem autorização da psicóloga ou do padre. Provavelmente, usaram um telemóvel, o que explica a dificuldade de estabilizar a câmara e a péssima qualidade da imagem e do som. Compreende-se também que, para a psicóloga não reparar no telemóvel, só a podiam apanhar de esguelha e, às vezes, só se lhe via a testa. Também ficámos a saber que as gravações tinham sido montadas – o que era evidente, mas se podia atribuir a deficiência técnica – para transmitir uma versão manipulada das posições da psicóloga e do padre. O pior eram os relatos do homossexual, intercalados em “voz-off”, que davam a impressão de descrever outras partes da conversa, totalmente inventadas.

Quando a psicóloga informou que não tinha sido consultada acerca das gravações e denunciou a montagem tendenciosa e os relatos falsos que o homossexual tinha acrescentado em “voz-off”, a jornalista Ana Leal interrompeu e fez barulho, para evitar que os espectadores ouvissem. Em face disto, a psicóloga visada na reportagem e um seu colega psicólogo abandonaram o debate. O que sobrou fez pena. A jornalista repetiu as suas convicções: «sessões violentas, nefastas», «sociedade secreta», «falsas curas», «aquilo é um crime», «noutros países é proibido, até na China!», «põe em causa o código deontológico dos psicólogos». O homossexual exibiu, em “voz-off”, uma aversão fria contra aqueles que não apoiavam a sua orientação e lhe tinham «roubado o amor da sua vida», um rapaz que desistiu dos comportamentos homossexuais. Enfim, o que é preciso é aceitar, repetiam os sobreviventes do painel.

Não é só em Portugal que a aceitação levanta problemas. Em França, em 2011, um homem casado, com dois filhos, decidiu que era mulher. Em 2014, o casal decidiu conceber naturalmente o terceiro filho, mas o notário recusou-se a registá-lo como filho de duas mães. O Tribunal de Primeira Instância de Montpellier concordou com o notário e o procurador (2016) e o caso subiu ao Tribunal de Apelação de Montpellier que acaba de propor uma solução diplomática: que se inscreva a criança como filha da sua mãe e de uma “parente biológica”, sem especificar o sexo da progenitora. O assunto deve agora subir para o Supremo.

O Brasil também se depara com problemas de aceitação. Damares Alves, nova ministra brasileira da Mulher, Família e Direitos Humanos, confirmou que defende a vida: «Esta pasta não vai lidar com o tema aborto, vai lidar com protecção de vida e não com morte». Uma dessas medidas é apoiar as índias da Amazónia para acabar com alguns costumes. Por exemplo, quando nascem gémeos, a tradição impõe que a mãe escave uma cova e enterre os bebés vivos. Um inconveniente é que o choro dos bebés costuma durar uma hora e nalgum caso chega a durar sete horas, conforme a quantidade de terra que lhes põem por cima e a compactação. Como Damares não aceita esta orientação, as forças culturais habituais prometeram violência. As ameaças foram tão concretas que a filha da ministra não pôde assistir à tomada de posse da mãe, porque teve de ser escondida pela polícia numa cidade distante.

José Maria C.S. André 

 Professor no Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa

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