Ding Yinnan, Cineasta Chinês da Quarta Geração

Ding Yinnan

«A Revolução Cultural foi um desastre».

A Quarta vem antes da Quinta. Falamos de gerações de cineastas. Na China. Mas para Ding Yinnan, autor do filme “Deng Xiaoping”, já exibido em Macau, ambas as gerações palmilham terreno lado a lado, «trabalham juntas». A diferença reside no peso exercido pelo fantasma da Revolução Cultural que atormenta ainda os cineastas da Quarta, onde se insere, mas não tocou sequer nos da Quinta. Que no entender deste cineasta, natural de Pequim, representam na perfeição o espírito de reforma iniciado por Xiaoping.

Parco em palavras, evasivo, sempre pronto a deixar a conversa a meio, Ding Yinnan quis falar sobretudo de um dos seus filmes. O biográfico, híbrido documentário-ficção, “Deng Xiaoping”, retrata o líder chinês como uma estrela, «uma figura histórica muito famosa, não só na China como em todo o mundo». Para Ding, Deng foi o homem da mudança.

A película, de 2002, centra-se no papel fundamental de Deng Xiaoping pós-Revolução Cultural, com o esmagamento do Bando dos Quatro e a modernização da China, «destacando a importância dada à Educação, à Ciência e à Tecnologia» e, com particular ênfase, o processo de reabilitação dos intelectuais. Vemos, na fita, alguns deles, isolados nas estepes a tomar conta de ovelhas ou enfiados em barracas cheias de livros a respirar o pó do carvão de pedra, a serem convidados a regressar a Pequim. «Quero que sejam alojados condignamente. O hotel Beijing parece-me um local adequado», ordenava Deng aos seus mais directos colaboradores. Depois, já em conferência com os recém-reciclados intelectuais, ainda visivelmente traumatizados, encorajava-os: «Vá lá, camaradas. Digam o que vos vai na alma. Sem medo». E eles disseram. E as mudanças aconteceram. No filme, pintadas, é certo, em tons pró-sistema, de um modo factual, sem grandes devaneios artísticos.

 

GERAÇÕES QUE SE COMPLETAM

Ding Yinnan, que considera a arte cinematográfica «uma coisa muito séria, sem espaço para veleidades», sentiu na pele as agruras do capítulo mais trágico da história recente da China. Pertence à Quarta Geração de cineastas que antecedeu a dita “geração de ouro”, a tão falada Quinta Geração, de onde se destacam nomes como Zhang Yimou, Chen Kaige, Tian Zhuangzhuang, etc. Uma destrinça injusta, na opinião de Ding. «Existe a ideia que os cineastas da Quinta Geração estão para além dos da Quarta, mas, de facto, eles estão lado a lado. Pode-se dizer que trabalham juntos, mas de forma diferente». Ding realça a importância dos realizadores da sua geração, que viveram os desmandos da Revolução Cultural mas «souberam quebrar as amarras dos preconceitos que minavam o pensamento tradicional chinês sem nunca abdicarem da cultura a que pertenciam». Foram pioneiros, desbravaram o terreno para os nomes que viriam a consagrar o cinema chinês, «realizadores que tiveram muito mais liberdade e que foram os primeiros a beneficiar da política de abertura, pois já não estavam ligados aos dogmas anteriores».

Para que melhor o possamos entender, Ding coloca a sua ideia em termos metafóricos: «Essas amarras são como um círculo que encerram uma pessoa. Mas mesmo que esse círculo seja removido, a pessoa continua a sentir-se presa e não ousa sair dele, porque está habituada a essa componente, a essa limitação, habituada às crenças e normas estabelecidas» O cineasta admite que, «de certa forma», é mais tradicionalista que os seus compatriotas galardoados em Veneza e Cannes, «que se exprimem de uma forma completamente livre», mas, «por mais aberta que seja agora a situação», ainda sente restrições. Esse medo subconsciente, essa restrição auto-imposta está bem patente no filme “Deng Xiaoping”, que em determinadas alturas mais parece um panfleto político. Nele não há a mínima crítica que seja aos actos do líder chinês, nem mesmo um mover de sobrolho àquele seu hábito de fumar cigarro atrás de cigarro.

«Por ter de desempenhar este papel, viciei-me no tabaco», diz, intervindo na conversa, Lu Qi, o actor principal do filme. Não admira a confissão. Há muitos anos que Lu Qi desempenha, invariavelmente, o papel de Deng Xiaoping, nas diferentes fases da sua vida, o que faz dele uma espécie de actor de serviço. Seja no grande ecrã, nos palcos ou na televisão.

 

RECRIAR OS FACTOS HISTÓRICOS

Foram nove anos de investigações, visionamentos de cassetes, leituras atentas das conversas e entrevistas de Deng Xiaoping. «Foi como ler um diário». A rodagem propriamente dita levou seis meses, tendo como cenário diferentes províncias da China. Entre as imagens documentais estão as visitas de estado efectuadas por Deng ao Japão e aos Estados Unidos. Imagens essas complementadas com encenações, «recorri a actores franceses», que recriam encontros históricos com figuras políticas de relevo da altura. Como é o caso do encontro de Deng com Margaret Thatcher que ditaria o futuro de Hong Kong. E Macau? Ding optou por não mencionar o nosso caso de transição «porque aqui todo o processo foi pacífico».

Na opinião do cineasta, o ideal da política “um país, dois sistemas” terá surgido na sequência do desmembramento da União Soviética. «Deng temeu que o mesmo viesse a acontecer à China». Por isso mesmo acelerou o processo de reforma a todos os níveis, começando precisamente por «reabilitar os antigos intelectuais que viviam ainda com receio das purgas anteriores».

Quanto às acusações de que o reformador estaria a desvirtuar os princípios fundamentais do marxismo-leninismo e, pior de que isso, o dogma do pensamento de Mao Zedong, o realizador refuta-as dedicando alguns minutos de película à visita que Deng faz ao mausoléu do grande líder. E, como se isso não bastasse, encenando a entrevista concedida à jornalista Oriana Fallaci. «Nunca renunciamos aos nosso heróis. Não faremos o mesmo que Khrushchev fez a Estaline. Manter-nos-emos fiéis a Mao e nunca esqueceremos o que ele fez pela China».

O filme tem um tempo limitado, menos de duas horas, o que levou Ding a optar «pelas acções que mudaram radicalmente a China». Por isso, «e só por isso», são omitidos as medidas nefastas da era Deng, como seja a descaracterização da China em nome do progresso e essa ferida nunca cauterizada chamada Tiananmen.

Com um orçamento de 30 milhões de yuans, “Deng Xiaoping” pode ser considerada uma grande produção, pelo menos em termos de indústria chinesa. «Anualmente fazem-se algumas produções deste calibre, já que é intenção da China entrar no mercado internacional». Ding lembra, a propósito, a projecção mundial de “Hero”, uma das obras de Zhang Yimou.

 

FILMAR EM MACAU

Formado pela Academia de Cinema de Pequim, Ding Yinnan faz filmes há mais de três décadas. Foca a sua atenção sobretudo em personagens históricas, algumas delas pessoas de extracção humilde que venceram na vida. Caso de “Yi Guang”, a sua primeira obra. Em 1986 realizou um filme biográfico sobre Sun Yat-sen «e a sua longa luta de 40 anos». No processo passou por Macau, «dez dias», com uma equipa de cem pessoas, entre técnicos e actores. Rodou algumas cenas nas Ruínas de São Paulo e junto ao Palácio do Governo. «Na altura», recorda, «a Imprensa local deu grande cobertura ao acontecimento».

Mais tarde faria um filme sobre um realizador de cinema insatisfeito com a sua própria actividade. Uma vez mais um personagem real, Ding Ying Ren, «que trabalha duramente toda a sua vida, mas acaba por falhar».

Um dos seus filmes mais conhecidos retrata a vida de Zhou Enlai. «A China atravessava uma época negra. Zhou teve que dar o seu apoio a Mao Zedong, mas estava consciente que a cultura tradicional chinesa corria o risco de ser destruída. Tinha de encontrar forma de a proteger. O meu filme retrata o modo como ele se sacrificou, sem nunca deixar de ser fiel ao seu país».

Ainda sobre este período conturbado é o filme que nos fala da saga de Mei Nan Feng, actor de ópera de Pequim, que fugiu para Hong Kong, «não por que tivesse medo, mas porque queria contribuir para o seu país, e para isso não podia morrer». Ding conclui: «a Revolução Cultural foi um desastre».

Apreciador da «beleza do sacrifício», Ding acha importante mostrar como é que alguém sacrifica a vida em busca da realização do seu próprio sonho. Retrata personagens históricas, «para mostrar às gerações mais jovens que há aspectos e valores culturais que devem ser respeitados, nunca descurados e, acima de tudo, preservados». Cinema como proposta educacional? «Sem dúvida que sim».

Ding Yinnan, cujo filme “O Mestre Calígrafo” teve sucesso mundial, planeia, no futuro, fazer um filme sobre Mao Zedong.

Joaquim Magalhães de Castro

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *