Cismas, Reformas e Divisões na Igreja – XCIII

O Evolucionismo Teísta – 4

O Evolucionismo Teísta – 4

Já aqui temos vindo a referir que a ideia da intervenção de Deus no processo da evolução surgiu no meio criacionista. Depois, há toda uma facção a negar, em nome da Ciência ou da Razão, mas não de forma clara e absoluta. Contudo, a visão que se oferece como a mais perigosa, e que temos vindo a analisar, é justamente a que tenta conciliar dois pensamentos que não fazem parte de uma mesma cosmovisão: o evolucionismo teísta. Esta constitui, de facto, uma tentativa de ser neutro e conciliar a cosmovisão bíblica cristã com a cosmovisão naturalista-empirista. É como uma tentativa de relativizar a questão, de criar um conceito politicamente correcto.Numa perspectiva mais apurada, uma abordagem como esta que tenta unificar duas cosmovisões distintas não pode funcionar, pois é por definição, e em si mesmo, mais errada, sem nexo quase, do que cada uma das linhas de pensamento separadas que se pretendem unir. E, refira-se, este intento conciliador logicamente não é de matriz bíblica. Não encontramos texto algum ou expressão na Bíblia que possa de maneira alguma servir para defender este projecto conciliador. Por mais boa vontade que tenhamos, não encontramos. O evolucionismo é errado em termos de fundamentos, pois cada uma das cosmovisões envolvidas nessa conciliação admite ser o modo correcto de interpretar as evidências que a natureza oferece. Assim, o evolucionismo teísta, fornecendo uma interpretação diferente das cosmovisões criacionista e evolucionista. Nem é uma, nem a outra, não sendo nada.

Os perigos da teoria

Se uma interpretação neutra como esta teoria evolucionista teísta não é verdadeira, pode alguém confiar nela? E uma cosmovisão errada pode evoluir para uma cosmovisão correcta? E se a interpretação neutra fosse verdadeira, então as cosmovisões que a compõem, a criacionista e a empírica-natural, seriam, por consequência lógica, erradas? Em exercícios de lógica, de causa-efeito, a via conciliadora parece apresentar-se sempre tendencialmente errada. Por aí, provavelmente nenhuma das três poderia estar correcta. Não se pode analisar nenhuma em função de outra, ou por antagonismo ou complementaridade, de forma maniqueísta.

Um dos perigos desta visão unitária, a do evolucionismo teísta, é que tende para um distanciamento ainda mais profundo da essência do que está em causa. Afigura-se como uma forma alternativa de explicar o evolucionismo, complicando-o, não resolvendo também em nada a explicação do criacionismo. Acaba por pretender unir, explicar e criar um sentido único, mas separa e esvazia cada um dos “opostos”, congregando no mesmo “saco” adeptos de ambas as “facções”, criando as bases de uma mundividência confusa e sem harmonia, tentando juntar pressupostos de filosofia naturalista com uma teologia feita a partir de interpretações alegóricas da Bíblia.

A conclusão impõe-se de forma mais natural do que a teoria que se pretende criar: não há como conciliar o evolucionismo com a crença em Deus, seja do ponto de vista unicamente científico, seja do ponto de vista teológico ou metafórico, espiritual e de fé. Ou seja, é uma visão errada do ponto de vista criacionista, ao mesmo tempo que é inaceitável do ponto de vista evolucionista, pois na sua natureza, e acima de tudo, não tem bases bíblicas.

Senão, vejamos, para se explicar de forma clara. Darwin propôs a hipótese de que a variedade de espécies que hoje presenciamos na natureza se produziu por meio de mutações e selecção natural. Assim, a vida no nosso planeta começou com um organismo unicelular. Ao longo do tempo, esse organismo reproduziu-se, multiplicou-se e transmitiu o seu ADN de geração em geração. Ao longo dos séculos, esse DNA sofreu mutações, abrindo a porta para variações nos organismos. Adaptações a meios diferentes, que levaram à selecção natural: os que melhor se adaptaram, triunfaram e progrediram, com certas mutações, ou evoluções, que se apuravam de geração em geração. Um processo cego e cruel o da selecção natural, mas que esteve na origem das espécies, cada vez mais distintas, ou mesmo com algumas a perder a batalha da sobrevivência. Chegou-se à diversidade, como hoje temos: a esta forma de ver a natureza e o processo de selecção e aparecimento de novas espécies foi chamado de evolucionismo. O relato bíblico da Criação estava posto em causa. Para Darwin, de facto, a variedade de espécies não foi criada por Deus, mas teria surgido por meio de processos naturais.

Diante das ideias de Darwin, surgiram três reacções diferentes. Por um lado, estavam aqueles que rejeitaram completamente as propostas darwinistas. Estes passaram a ser chamados de “criacionistas”. Outros abraçaram o evolucionismo, seguiram Darwin e abandonaram a religião definitivamente, os chamados evolucionistas (ou darwinistas). Mas houve um grupo que ficou no meio, insatisfeito com as duas opções e tentando remediar ou harmonizar posições. Estes estavam convictos de que Deus existe e que a Bíblia, se fosse interpretada de maneira diferente, poderia acomodar tanto a revelação divina como as ideias evolucionistas. Foi esse grupo que passou a ser chamado de evolucionista teísta, que hoje aqui tentamos explicar de forma conclusiva. Este grupo disseminou-se, porém, mau grado os pressupostos discutíveis em que se baseiam e que temos vindo a exarar. Pode-se dizer que conquistou grande parte dos fiéis do Cristianismo nas suas diversas expressões de fé.

Tanto criacionistas quanto evolucionistas já perceberam que a tentativa de conciliar estas duas visões de mundo está condenada a ter dificuldades em ser aceite ou de defesa. Além disso, qualquer uma das visões acabou por se atacar, misturá-las é como misturar água e azeite. A Bíblia não saiu bem neste intento de conciliar, por exemplo, como a Ciência também não e a Religião menos ainda. A confusão aumentou e a radicalidade das posições extremou-se mais.

Criacionismo e evolucionismo auto-excluem-se. Se o evolucionismo estiver correcto, então a Bíblia está errada, a Criação nunca ocorreu e a Humanidade está presa a um processo interminável de mortes sem significado. Será que a vida, a Humanidade, foi um acontecimento inesperado, súbito, meramente biológico e a existência não tem propósito algum para a vida, a não ser procriar e transmitir o código genético? Nasce-se, vive-se e morre-se, sem esperança. Sem sentido… Sem mais nada senão este trilho no vale de lágrimas e desventuras da vida, na Terra? Uma vez mais o diálogo entre Ciência e Fé é penoso e difícil de conciliar, derivando-se muitas vezes em erros de análise e falácias interpretativa, que não fazem mais do que obnubilar e alimentar o erro e a sensação de perda. Evolucionismo e Religião, polos opostos ou nem por isso?

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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