Bengala e o Reino do Dragão – 50

O renegado Martim de Melo

O renegado Martim de Melo

Todos os habitantes de Hugli eram tidos como vassalos do Grão Mogol e a ele pagavam direitos alfandegários que deixavam satisfeitos o governador da província recentemente conquistada. A alguns dos comerciantes, “os mais importantes da terra”, concedera em tempos Acbar, e depois Jahangir, uma série de privilégios e isenções, o que garantia prosperidade ao burgo e, sobretudo, a indispensável tranquilidade. Havia um pacto inerente, um pré-acordado “status quo”: aos senhores mogóis convinha-lhes a actividade comercial exercida pelos portugueses; a estes convinha-lhes manter-se de pedra e cal nesse local longe do controlo fiscal das autoridades de Goa e da opressiva moral dos metediços do Santo Ofício. Eram ciscos ferrugentos na oleada engrenagem o malfadado comércio de escravos e a venda de armas aos corsários do Golfo de Bengala… E, na realidade, tudo poderia ter continuado como estava, apesar das agravantes citadas, não fosse o inusitado rapto da mulher de um alto funcionário da corte mogol (certamente perpetrado pelos habituais alevantados ou piratas locais), a qual seria resgatada e posteriormente convertida à fé cristã por frei Sebastião Manrique, cuja saga aqui trataremos em seu devido tempo. Essa foi a gota que transbordou o copo já bem cheio colocado em cima da mesa das prioridades de Shah Jahan.

Estávamos na Primavera de 1632, Maio era o mês e quatro anos tinha passado após a subida ao trono do neto de Acbar. Incomodado, o homem ordena então ao seu representante na província ocupada de Bengala, o competente Shaista Khan, que saqueasse e incendiasse, “em nome do Profeta e no interesse do Estado”, a cidade portuguesa de Hugli. Presentes em Daca – como já aqui se viu, quartel-general do poder mogol em expansão – os padres jesuítas, sempre próximos dos corredores do poder e sabedores das intrigas da corte, tiveram acesso ao decreto marcial e logo expediram aviso urgente a Hugli para que se preparasse para a tormenta, pois era das graúdas. O aviso caiu em saco roto. Ninguém acreditava que o rei mogol se “atrevesse” a tocar nos industriosos mercadores portugueses. Pensavam estes: afinal, que mal fizemos nós? Curiosamente, e apesar de todos serem católicos, ou induzidos a tal, com abundância de religiosos e respectivas ordens onde bem encaixavam, ninguém dera crédito quando, anos antes, dois frades, ex-residentes, astrólogos ou videntes (ou talvez ambas as coisas), à boca cheia previam uma grande desgraça para a cidade e os seus habitantes.

Shaista Khan (que os portugueses designavam Cassim Cã) era pessoa de trato, bem relacionado na corte, poeta de renome e ademais esposo da irmã de Nur Jahan, a imperatriz viúva (mulher de Jahangir) e uma das indianas mais famosas do seu tempo. Agradava mais a Khan a contemplação mística do que as campanhas militares. Entende-se, por isso, a extensão da sua reticência em acatar tais ordens. Por outro lado, havia que pesar o sentir dos mercadores nativos a quem naturalmente interessava a continuidade dos portugueses naquelas paragens, pois o comércio com eles era de “mui grado rendimento”. Assim, tranquilos, como peixe na água, os povoadores de Hugli nem sequer se deram ao trabalho de fortificar a cidade. Mas embora não tivessem baluartes nem artilharia de monta, os poucos homens ali existentes (uns trezentos apenas, que a somar aos mil e quinhentos indianos constituíam o contingente militar local) eram excelentes atiradores e de indómita coragem. Apesar da perda dos recursos derivado da anexação pela Espanha de todo o território nacional em 1580, temida e respeitada continuava a ser a cepa lusitana em todo o Império Mogol, facto que refrearia o homem forte do novo imperador. Estava ao corrente dos ataques às possessões portuguesas feitos ao longo dos últimos 130 anos, fosse por príncipes indianos, fosse pelos próprios mogóis; e algo tinham em comum: todos foram em vão. Exemplo pela negativa da imbatibilidade dessa gente tínhamos os alevantados de Dianga e de Sandwip.

É neste contexto que surge no cenário um tal Martim de Melo (será que tinha algum grau de parentesco com Afonso de Melo, um dos primeiros povoadores de Hugli?), capitão renegado com questões mal resolvidas ou ajustes de contas a prestar em Hugli. Incansável no seu propósito, tratou de aliciar Shaista Khan a prosseguir com a investida, acenando-lhe com as valiosas riquezas existentes no mosteiro dos Agostinhos e na Casa da Companhia de Jesus. Além disso, pintou os compatriotas como gente que, de tão rica, roçava a decadência, vivendo no vício, amancebados com concubinas, efeminados até. Caricaturas, aliás, em tudo condizentes com o que está patente nas páginas do “Soldado Prático” de Diogo de Couto. Melo também tranquilizava Khan a respeito de um eventual aproveitamento do rei de Arracão, que poderia atacar as tropas mogóis pela rectaguarda, a leste, enquanto estas pelejavam com os de Hugli, a oeste. Essa era hipótese a descartar – assegurava Martim de Melo – pois a monção impediria que a frota arracanesa se fizesse ao mar. Além do mais, Tiri-tu-dama, rei de Arracão, não tinha qualquer compromisso para ajudar os portugueses de Hugli. Este peculiar episódio vem relatado numa carta datada de 12 de Novembro de 1633 que João Cabral enviaria ao Superior da Casa dos Jesuítas em Cochim. Trata-se de um relato presencial, ao contrário de uma outra fonte da época, uma carta da lavra de Sebastião Manrique que nessa altura se encontrava em Dianga e de lá dava conta do sucedido.

Joaquim Magalhães de Castro

 

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