Tradição religiosa (e profana) que da Europa se estendeu ao mundo
No dia 1 de Novembro, a Igreja Católica celebra a Solenidade de Todos os Santos. É a “Festum Omnium Sanctorum” (Festa de Todos os Santos), a que se segue o Dia dos Fiéis Defuntos (2 de Novembro). No dia 1 temos, pois, a Festa de Todos os Santos, que é uma Solenidade cristã celebrada em honra de todos os santos da Igreja, quer sejam conhecidos ou desconhecidos.
A partir do Século IV, as Festas em honra de todos os mártires cristãos eram realizadas em vários locais, em datas próximas da Páscoa e do Pentecostes. Uma das curiosidades relacionadas passa pela importância que o monaquismo irlandês teve na recristianização da Europa continental a partir do Século VIII. Além de mosteiros fundados e do fomento espiritual que trouxeram às tresmalhadas comunidades cristãs da época, os monges irlandeses trouxeram algumas tradições que se foram mesclando, ou adaptando, às da Europa continental.
Os irlandeses reservavam o dia 1 de Novembro para a celebração das festividades, como já faziam anteriormente, na civilização celta. Com efeito, era a data do “Samhain”, festividade que marcava o início do novo ano e do Inverno, que se estendia até Maio, ao “Beltaine”. O Samhain era a época em que os celtas acreditavam que as almas dos mortos retornariam às suas casas para visitar os familiares, para procurar alimento e se aquecerem no fogo da lareira. Mas era uma festa pagã, pré-cristã. Foi perdurando e mantido, paralelamente ao Cristianismo, mas perdeu fulgor – entretanto, tornou-se anacrónica e até proibida. Mas, na verdade, manteve-se durante algum tempo. Alguns referem que a cristianização empreendida pelos monges irlandeses poderá ter trazido estas práticas ancestrais celtas para a Europa e depois para a América do Norte. Mas não há evidências documentais ou materiais sólidas, apenas analogias e bastante imaginação em alguns casos, principalmente a partir das comemorações infanto-juvenis de origem americanas que tomam conta do comércio por estes dias.
Nesta altura, um pouco antes de certa forma, o Papa Gregório III (731-741) dedicou uma capela a Todos os Santos, em Roma, e ordenou que eles fossem homenageados a 1 de Novembro. Não se sabe porque o fez, mas é curioso atentar que já existia uma comemoração parecida na ilha da Grã-Bretanha. A hierarquia eclesiástica inglesa de então poderá ter tentado cristianizar o “Samhain”, por meio da comemoração do Dia de Todos os Santos, a 1 de Novembro. São hipóteses, a que se soma a dedicação que os monges irlandeses faziam ao dia 1 de Novembro. Certo sim, é que em 835 o Papa Gregório IV a declarou Festa universal. Não apenas os católicos, mas também protestantes, festejam o Dia de Todos os Santos a 1 de Novembro, ao passo que a Igreja Ortodoxa Oriental e as Igrejas católicas orientais celebram no primeiro Domingo após o Pentecostes.
Em Portugal também é celebrado todos os anos no dia 1 de Novembro, sendo feriado nacional. As famílias recordam os seus mortos com cerimónias religiosas e visitas aos cemitérios. As crianças portuguesas antigamente celebravam, em certas regiões, a tradição do Pão-por-Deus (também chamado santorinho, bolinho ou justiça de Deus), indo de porta em porta receber bolos, nozes, romãs, doces e rebuçados. Nos cemitérios, uma vela e flores são deixadas como lembrança, respeito e memória dos entes queridos, que ali repousam. As flores mais utilizadas são os crisântemos. As suas cores vibrantes contrastam com o cenário mais sombrio do cemitério.
A celebração cristã do Dia de Todos os Santos e do Dia de Finados deriva do forte laço espiritual entre os que já partiram (a “Igreja triunfante”), os vivos (a “Igreja militante”) e a “Igreja penitente”, que inclui os fiéis defuntos.
Em Portugal, no dia 1 de Novembro também se assinala o grande terramoto de 1755, que abalou Lisboa, o litoral alentejano e o Algarve, destruindo grande parte da capital e de outras localidades. Tudo aconteceu às 9 horas e 40 da manhã, hora de Lisboa, quando milhares de pessoas assistiam às missas do Dia de Todos os Santos ou rumavam aos cemitérios, tendo ficado subterradas nos escombros. Muitas foram mesmo engolidas por um grande maremoto que tragou Lisboa. A pobreza que se abateu e o desalojamento de muitos milhares, levou a que as crianças corressem as ruas a pedir “pão por Deus” para receber comida. Foi o pior Dia de Todos os Santos da História da Igreja.
E quanto ao Dia de Finados? É igualmente denominado como Dia dos Fiéis Defuntos, Día de los Muertos (México) ou de la Santa Muerte. Pois que a 2 de Novembro ainda é dia de celebrar a vida e a morte. Os finados são aqueles que estão no purgatório à espera de julgamento antes de chegarem ao céu. Esta celebração foi implementada pelos monges de Cluny, em França, no Século IX. Na Idade Média era popular a crença de que, nesse dia, as almas no purgatório podiam aparecer em forma de fogo-fátuo, bruxa ou sapo.
Hoje em dia é uma homenagem à memória dos mortos, mas com muitos sincretismos em vários países, como no México, onde é cartaz turístico e festa profana, mais do que celebração religiosa. É o Día de los Muertos, ou Día de la Santa Muerte, um sincretismo entre as tradições católicas e diversos costumes das populações pré-hispânicas da América Central, como começou a suceder na colonização espanhola do México, particularmente de Teotuhiácan, a partir de meados do Século XVI. Hoje é marcado por desfiles alegóricos, noites nos cemitérios, grandes festivais profanos e uma espécie de celebração da morte.
Vítor Teixeira
Universidade Fernando Pessoa