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Rota dos 500 Anos

Aruba tem ares de Macau

Ainda andamos por terras holandesas mas noutra ilha. Chegámos a Aruba há uma semana, depois de um incidente na saída de Curaçao, como vos contámos na crónica anterior. Depois de uns dias a descansar e a tentar conhecer algumas partes da ilha, ao mesmo tempo que íamos procurando os materiais necessários para a manutenção do motor e de outras partes do veleiro, estamos agora a planear a saída rumo ao Norte. Neste momento há duas opções de escala, sendo que ainda não decidimos o que fazer. Na realidade, o mais certo é optarmos entre o Haiti e a Jamaica (ou até pararmos nos dois países), quando estivermos a apenas algumas milhas dos seus portos. Ambas as nações devem ficar no enfiamento da nossa rota em direcção à Flórida, nos Estados Unidos.

Os dias em Aruba, ilha conhecida como destino mundial para casamentos de praia (também infamemente conhecida como o local com o maior número de casamentos dissolvidos), agora que o motor parece estar a funcionar melhor e nos dá alguma paz de espírito, têm sido passados entre idas ao supermercado, à praia no ancoradouro (a areia é tão branca que faz doer os olhos durante o dia) com crianças de outro barco que aqui está connosco, e o convívio com tripulações de outros veleiros. Somos já três a seguir a mesma rota e com intenção de zarpar no final da semana.

Entretanto, no passado dia 20, vivemos uma noite diferente. Deu-se o eclipse total da Lua! Leopard, capitão de um catamaran que conhecemos em Curaçao, convidou todos os residentes do ancoradouro a assistirem ao fenómeno no seu barco. Chegámos já depois de jantar, por volta das 22 horas e 30, e juntámo-nos ao grupo. Éramos doze pessoas. Algumas crianças acabaram por adormecer mas a Maria – estoica – aguentou até às duas da manhã, sempre interessada em ver o avançar do eclipse, apesar de não entender muito bem o que se estava a passar. Na prática tratou-se de um grupo de doze pessoas e olhar incessantemente para o céu, o que é sempre esteticamente interessante… No dia seguinte quase não acordávamos a tempo de tomar o pequeno-almoço. Ainda assim, valeu a pena! Não me lembro de ter voltado a ver um eclipse depois dos meus anos de juventude.

Durante as nossas deambulações pela ilha fomos sabendo que existe, tal como em Curaçao, uma significativa comunidade portuguesa e luso-descendente em Aruba. Há até um clube e um restaurante português. Mas o mais interessante foi termos conhecido, muito perto do ancoradouro, uma família com o mesmo apelido que eu: Gomes. São portugueses, claro, e ainda por cima com ligação a Macau. Infelizmente marcámos um encontro para o fim-de-semana mas houve um desencontro. Durante estes dias iremos tentar contactá-los novamente, pois queremos conhecer a história que os liga a Macau, factor que nos aguçou a curiosidade. Pelo que entendemos, envolve uma senhora chinesa que com eles viveu durante muito tempo. O assunto foi abordado pelo patriarca da família, sendo que agora tencionamos aprofundar esta história quando voltarmos ao seu food truck. Este abre todos os dias, entre a 6 da manhã e a hora de almoço, numa das artérias que ligam o centro da capital, Oranjestaad, ao aeroporto internacional de Aruba.

Ao mesmo tempo temos procurado marcar um encontro com alguns dos responsáveis da associação de portugueses que – pelo que descobrimos – tem uma actividade bastante intensa, especialmente nas épocas festivas. Como se está a aproximar o Carnaval, vamos tentar saber o que estão a preparar com um toque lusitano. E, claro, não iremos deixar Aruba sem irmos ao restaurante português – estabelecimento bastante conhecido na ilha que deve a sua fama à mistura de sabores arubenhos com iguarias vindas de Portugal. Uma fusão que funciona muito bem e se adapta na perfeição ao clima e aos palatos da ilha, diz quem já experimentou.

Aruba é essencialmente uma ilha de turismo. Tem algumas das melhores praias do mundo, sendo duas delas presença assídua nas listas publicadas anualmente por diversos guias turísticos. Regra geral, o turista que aposta em vir a Aruba não sai decepcionado. Tudo está para ele direccionado. Até os preços e a moeda estão em dólares americanos, a par do florim de Aruba (1US$=1.75AWG).

O ancoradouro onde estamos fundeados fica no alinhamento da pista do aeroporto, pelo que vemos todos os aviões que aterram na ilha. Durante o dia chegam aeronaves a cada cinco minutos, provenientes na sua maioria dos Estados Unidos, da Europa e das Américas do Sul e Central. São milhares de turistas que entram e saem diariamente, não contando com os outros milhares que chegam, todos os dias, nos navios de cruzeiro. Desde que aqui estamos ainda não houve um dia que não estivessem – pelo menos – dois navios no porto. Se tivermos em conta que cada navio transporta entre dois a três mil turistas, a ilha deve receber bem mais de dez mil pessoas por dia. Olhando aos preços praticados e aos custos envolvidos numa viagem desta natureza, não é difícil adivinhar que se trata de turistas com poder de compra. Aliás, tal pode comprovar-se com as lojas de marcas de luxo situadas na zona central da capital. Normalmente estão sempre cheias. Também a avaliar pelos supermercados e outros estabelecimentos, os preços deixam adivinhar que o custo de vida é elevado. Um litro de leite, por exemplo, custa dois dólares, no mínimo. A cerveja é mais barata! Enfim, um ambiente que faz lembrar Macau em muitos detalhes e situações.

Nos próximos dias, entre a preparação para deixarmos a ilha e os encontros com a comunidade portuguesa, iremos tentar descobrir alguma igreja católica com ligação ao culto mariano. É que, curiosamente, temos visto muitos carros com autocolantes alusivos ao Centenário das Aparições de Fátima.

João Santos Gomes

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