Teia dissocial

A Propósito de Redes e Polémicas

Teia dissocial

De uns tempos a esta parte as redes sociais, com destaque para o Facebook, bem lá na frente, isolado do pelotão, têm vindo a transformar-se numa fedorenta cloaca onde impunemente se insulta, se agride, se fala do que não se sabe, se dá largas ao mais boçal e explícito narcisismo, e onde raramente se dialoga. Enfim, é cada vez menos uma fonte de informação, conhecimento e de divulgação de coisas que realmente interessam – essa a sua intrínseca função e razão de ser, acho eu –, e cada vez mais um espelho da sociedade doente em que nos afundamos diariamente, dando largas aos mais baixos instintos cavernícolas e ignorando aquilo que verdadeiramente nos enaltece enquanto espécie senciente.

O futebol, ora pois, é a vedeta da companhia. Sempre que há um jogo – e nem é preciso que seja o intocável Benfica a calçar as botas – lá temos nós de levar com as opinadelas de todos e quaisquer uns. Todos, todinhos, todões. Estão no seu direito, é verdade. Mas pergunto-me: como é que gente culta, informada e com dois dedos de testa pode perder um minuto que seja da sua preciosa vida com as tricas, trocas e baldrocas de um folguedo que se transformou numa das mais perniciosas armas de embrutecimento e alienação da espécie humana? Atenção que não estou a pôr em causa o valor dessa actividade artístico-desportiva per se, que também sei apreciar, mas sim a sua vampiresca sustentação e a súcia de aldrabões e parasitas que em torno dela, quais insectos em torno da luz incandescente, giram em sucessivas espirais, incapazes de desamparar a loja de uma vez por todas.

A seguir ao futebol vem a política, e aqui as clãs, tal como no futebol, rapidamente tomam posições e raramente se mostram dispostas a abraçar a verdadeira tolerância. Disfarçam-se dela, e aos molhos, mas não a assumem nos actos e no verbo. O caminho parece ser apenas um: se não és por mim é porque estás contra mim. E assim continuamos com esta paleolítica mentalidade décadas após o insucesso de todos os “ismos” conhecidos. Que seja. Há-de cair de podre. Mesmo assim disposto estarei a ouvir todas as barbaridades, redigidas ou ditas, pois defendo o direito absoluto a uma cabal liberdade de expressão. Porém, uma coisa é a liberdade de nos exprimirmos, manifestando – se for o caso – os mais estapafúrdios e perversos pensamentos ou ideias. Ou seja, aquilo que em palavreado vernacular se designa de “dizer o que vem à mona”. Outra coisa é a aplicação desses mesmos pensamentos, ou até desejos. Aí sim, necessários são os freios. E muitos. Infelizmente nos dias de hoje censura-se sobretudo o pensamento e aos actos mais bárbaros dá-se rédea solta, quando não os incentivam alarvemente. Exemplo acabado do atrás mencionado é essa praga chamada igrejas evangélicas, quantas delas simples quadrilhas de assaltantes engravatados que descaradamente roubam o pouco dos que pouco têm. E se verdade é que nos assiste todo o direito de dizer o que nos vem à cabeça, muito pouco do que arbitrariamente conjecturamos acaba por ser concretizado. E por que não? Muito simples. Porque a minha liberdade acaba onde começa a do outro. Ou seja, posso dizer e exprimir aquilo que me apetece, nem que seja um pensamento odioso e suicida – quem é que de nós nunca teve pensamentos (ou sonhos, que é a projecção dos mesmos) que de tão terríveis nos envergonham de tal termos pensado/sonhado? Pois. Será o lado escuro da nossa a lua; o diabo, quiçá. Porém, se quisermos pôr em prática tais pensamentos então teremos de nos sujeitar a um determinado número de regras. Chama-se a isso viver em sociedade.

Pensamento que se preze não tem regras nem balizas; convém até que seja livre como o curso de um rio. Aliás, é a única “coisa” de nós que se pode dar a esse luxo. Variam os temas na imensa cacofonia em que se converteram as redes sociais. Há os que dizem mal por dizer, os do permanente contraditório e os indigentes cerebrais que não têm opinião formada sobre nada e coisa nenhuma, limitando-se a fazer a triste figura de catavento. Muito recentemente uma figura pública – entre variadas coisas, também comentador televisivo – partiu disparado para o insulto só porque um escritor francês afirmou numa entrevista que não se sentia atraído por mulheres com mais de cinquenta anos, coisa que, diga-se de passagem, muitos homens subscrevem lá no seu íntimo embora poucos tenham a coragem de o afirmar publicamente. Ousou ainda o referido escriba confessar publicamente a sua preferência pelas mulheres asiáticas. O que fostes dizer! Devido à polémica declaração, Yann Moix foi alvo de um apedrejamento digno de talibãs e o sururu daí resultante ultrapassou as fronteiras da Gália e chegou à nossa Lusitânia, sempre tão atenta ao que se passa no quintal do vizinho. Ora, a tal figura pública de que vos falo não só se insurgiu contra o gosto pessoal de Moix como pôs em causa a sua obra e o seu aspecto físico, prendando-o com dislates do quilate de um “cara de…” e coisas do género. Falta dizer – e para verem o ridículo da coisa – que o dito cujo é um homossexual assumidíssimo.

É claro que de vez em quando deparamos nas redes sociais com gente com pensamento próprio, classe e pontaria. É o caso deste, que a propósito da matéria em causa escreveu: “Num universo paralelo Yann Moix teria direito a ter opinião. Felizmente, no planeta Terra, já não há lugar para isso”.

Durante o Estado Novo tínhamos os censores oficiais de lápis azul sempre afiado; agora temos milhares de potenciais censores que nos escrutinam e ao menor deslize, qual alcateia faminta, nos lincham sumariamente nessa tal de rede dis…, perdão, social.

Joaquim Magalhães de Castro

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