Reflexões sobre o medo

Reflexões sobre o medo

Desde os tempos em que o homem se questionou sobre tudo o que via à sua volta e que não compreendia, o homem sentiu medo. Medo sobre coisas e gente que desconhecia, medo sobre fenómenos que o atingiam e para os quais não tinha explicação, medo sobre a sua morte e tudo o que pudesse ser ameaçador sobre si próprio e sobre o seu bem-estar.

O medo tornou-se assim uma constante natural das nossas sociedades humanas e, ao mesmo tempo, um inevitável “companheiro” das reflexões sobre as nossas decisões, quer naquelas que orientam a nossa vida pessoal ou nas que podem atingir as comunidades em que estamos integrados.

Alguns reagem ao medo provocando o pânico geral, outros desdramatizam o medo retirando-lhe qualquer carga negativa em nome de um ideal utópico, outros enfiam a “cabeça na areia” como fármaco contra receios e há ainda outros que combatem o medo provocando mais medo.

Vem isto a propósito das enormes vagas de refugiados muçulmanos que batem à porta da “nossa” Europa e das reacções pessoais e colectivas que geram, num momento em que esta Europa está em “estado de guerra” contra os facínoras do apelidado Estado Islâmico e não contra as convicções religiosas e pacíficas dos muçulmanos.

A sociedade de informação em que nos situamos invade-nos com imagens, comentários, estatísticas e toda a espécie de literatura adequada à formação, física e psicológica, de um pavor sobre as consequências desta “invasão” na sobrevivência da nossa cultura europeia, se é que lhe possamos chamar uma cultura única. Embora com aparente intenção de defesa do nosso património cultural, esta avalanche informativa apenas proporciona a instauração do medo colectivo e o seu aproveitamento por forças hostis ao modo de vida que queremos preservar. No entanto, o perigo de derrocada dos valores sociais que nos caracterizam existe e é bem real, se continuarmos a aplicar nas nossas sociedades as fórmulas de inserção social das culturas ditas minoritárias, admitindo os aspectos em que elas são antagónicas ao nosso conjunto de valores afirmados.

Por outro lado, se bem que o humanismo que prevalece nas nossas sociedades ocidentais seja permeável à inclusão do outro, por muito diferente que ele seja de nós e que as nossas próprias sociedades tenham diferentes graus de imperfeição, assumir um multiculturalismo fechado como solução para uma boa vivência social entre todos, dando continuidade a autênticas “ilhas” culturais, em que os aspectos fundamentais das diferentes culturas não se tocam e, muitas vezes, se combatem entre si, conduz-nos inevitavelmente a uma desagregação da nossa sociabilidade. Defender este modelo de suposta integração não é ser progressista, antes e talvez estupidamente ingénuo.

Mas não são só alguns dos aspectos culturais destes novos migrantes, que se juntam a muitos outros que já vivem entre nós, que podem proporcionar sérios problemas. Ao acolher estes migrantes, fugidos da guerra e da miséria, sem lhes poder proporcionar meios de subsistência através do trabalho e alojá-los em autênticos guetos residenciais, está-se a criar zonas de exclusão social e a aumentar os riscos de violência que, acompanhados de uma doutrinação religiosa extremista, como a dos seguidores do Daesh, acabará por infernizar a vida dos europeus e de todos os muçulmanos que, pacificamente, vivem entre nós. Se, pelo contrário, os Estados europeus lhes fornecerem meios económicos para viver, sem que o tenham feito aos seus próprios concidadãos necessitados, isso criará antipatias xenófobas e revoltas sociais, manifestadas violentamente ou por processos democráticos. E, nestas circunstâncias, o medo impera nas decisões colectivas, tornando-as reféns de todo o tipo de influências submetidas a ideais crentes em “sistemas musculados” e incapazes de aceitar o modelo de diversidade cultural que queremos preservar.

Isso está a acontecer em França e um pouco por toda a Europa, senão também nos Estados Unidos.

Embora as instituições que gerem as nossas sociedades ocidentais estejam agora mais activas contra os perigos criminosos do proclamado Estado Islâmico, é preciso que não confluam para uma unicidade do nosso sistema policial, capaz de ser utilizada por gente de propósitos inconfessos. Um estado policial com poderes centralizados é mal pior do que diz combater. Esta “guerra” não é uma guerra comum e os meios de a combater não podem ser convencionais, nem deixar de beliscar temporariamente algumas das nossas liberdades sem as ferir de morte.

Além disso, mesmo que se destrua o poder territorial que instituíram nas regiões da Síria e do Iraque, a sua ameaça na Europa e em muitas partes do globo continuará activa, porque personalizada na acção dos seus acólitos, senão forem igualmente destruídos os seus focos de suporte religioso e económico que, necessariamente, produzirão uma alteração profunda nas relações políticas e económicas com algumas potências do Médio Oriente. Por muito que isso custe a alguns meios especulativos das nossas praças financeiros e algumas vantagens do nosso conforto.

Estamos numa guerra de longa duração e sem soluções simples, mas é preciso que o medo não obstrua as nossas melhores capacidades de reflexão, decisão e de acção!

LUIS BARREIRA

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