Rota dos 500 Anos-Quem vai ao mar, avia-se em terra

Quem vai ao mar, avia-se em terra

Como planeado, depois do atraso sofrido pelo mau tempo em St. Lucia estamos na ilha de Martinica, mais propriamente na vila de Sainte Anne. A travessia de Rodney Bay para este ancoradouro foi feita sem qualquer problema e em tempo recorde: pouco mais de quatro horas de vela, sempre com ventos a rondar os vinte nós. Tudo bem a bordo, um bom ângulo de vento e mar, se bem que este grande mas calmo. As condições apresentaram-se ideais para testar, mais uma vez, o piloto de vento, tendo o mesmo, desta feita, funcionado sem qualquer problema – um sinal de confiança de que pode ser usado horas a fio em travessias mais longas. Era algo que ansiávamos testar, pois agora poderá ser utilizado nas etapas nocturnas que se aproximam. O piloto-automático fica desligado e poupamos nas baterias do veleiro.

Nesta travessia de vinte milhas recorremos ao piloto de vento durante 16 milhas, sem que nunca tivéssemos saído da rota. Testámos vários ajustes no leme dentro do poço, sendo que mesmo forçando a saída da rota o piloto de vento corrigia o erro. O grande teste dar-se-á quando dermos início à travessia de quatro ou cinco dias para as Antilhas Holandesas ainda este mês.

A saída de St. Lucia deu-se por volta das oito da manhã. Por volta do meio-dia ancorámos na vila de Sainte Anne, em território francês das Caraíbas. Sol, nenhuma chuva (embora estivesse prevista), vento forte mas estável, e mar alto apesar de pouco alteroso. As condições ideais para uma travessia como o nosso veleiro “gosta”. Não fosse o tempo perdido a testar alguns aspectos do piloto de vento e das velas, e penso que até a teríamos feito em menos de quatro horas.

Em Martinica já tivemos a oportunidade de, finalmente, comer bom pão e bons bolos. Aliás, depois de termos metido ordem no barco, foi a primeira coisa que fizemos. As famosas baguetes francesas, que aqui são vendidas por menos de um euro, e os bolos de todos os tipos e feitios, têm feito as delícias da tripulação do Dee. Sempre que vamos à padaria, a Maria come logo uma, o que nos obriga a comprar duas, porque uma delas está em metade quando chegamos ao bote. Como este estado de graça só vai durar mais uns dias o melhor é aproveitar. Daqui até às ilhas Marquesas não haverá mais pão francês

No primeiro dia aproveitámos para levar os nossos amigos brasileiros a Le Marin, para que alugassem uma viatura para conhecerem a ilha. Fizeram-no sozinhos pois ficámos a trabalhar no veleiro – lavar roupa, arrumar o interior e efectuar alguma manutenção, tendo em vista a travessia para Curacao.

Depois de terem alugado a viatura, eu e a Maria continuámos o nosso caminho. Passámos por uma loja de produtos de barcos em segunda-mão para ver o que havia disponível e pudesse ser útil. Tinha acabado de chegar um contentor de artigos vindo de França. Houvesse dinheiro para gastar e teríamos comprado tudo o que necessitamos, desde velas em segunda-mão a cordas, enroladores de velas e outros produtos que, em condições normais, custam milhares de euros. Esta lojinha, escondida num canto da vila de Le Marin, é um paraíso para os velejadores de orçamento curto. Infelizmente, desta vez, teremos de passar sem grandes compras porque o orçamento não o permite. Da última vez que aqui estivemos encontrámos um alternador do mesmo modelo que usamos por 90 euros. O preço original são quase mil dólares.

Após ter passado mais de uma hora a ver os corredores da loja fomos para a zona da marina e visitámos outros estabelecimentos para ver preços de itens de que necessitamos. Infelizmente não conseguimos encontrar o que procurávamos. Queremos comprar um aparelho de rastreio via satélite, denominado SPOT GEN3, mas não há agente em Martinica. Estando equipado com baterias de lítio não pode ser enviado, via correio, dos Estados Unidos.

O referido aparelho serve para sabermos, a todo o momento, onde nos encontramos, sendo de primordial importância para a travessia do Pacífico. Em caso de acidente ou que algo corra mal será possível saber a nossa localização exacta, possibilitando o envio de mensagens escritas para pedir socorro ou apenas informar que tudo corre dentro da normalidade. É também uma forma de nos mantermos em contacto com todos os que nos seguem e com as nossas famílias. Possivelmente será adquirido no Panamá – o único “luxo” que teremos a bordo.

Nos próximos dias iremos alugar uma viatura de sete lugares, juntamente com os nossos amigos brasileiros, para que possamos fazer compras nos vários supermercados da ilha. A viatura irá facilitar o transporte dos alimentos, reduzindo assim o tempo gasto no abastecimento dos dois veleiros.

Com os atrasos que sofremos em Carriacou e em St. Lucia, devido ao mau tempo, os prazos começam a apertar, especialmente para a tripulação do Gentileza que tem voo para o Brasil a 10 de Dezembro, a partir do Panamá. Nós temos mais nove dias de margem de manobra, visto que a NaE apenas chega a 19 de Dezembro. Contudo, vamos juntos até ao Panamá e, muito provavelmente, até às Marquesas. É apenas uma questão de coordenar as duas tripulações.

JOÃO SANTOS GOMES

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