PROCISSÃO DO SENHOR MORTO

Procissão do Senhor Morto juntou as principais comunidades em torno da fé

Igreja em Macau revela sinais de crescimento.

Numa Macau em constante mudança, a tradição religiosa continua a ser o que era. No passado dia 30 de Março milhares de pessoas participaram nas celebrações da Sexta-feira Santa, como sinal da maior aproximação dos fiéis à Igreja Católica nos últimos dois anos. Membros das comunidades mais numerosas do território juntaram-se ao bispo D. Stephen Lee, num acto de fé e de respeito, em resposta aos esforços do prelado e dos leigos que o acompanham no governo da diocese de Macau.

A Sé Catedral de Macau está repleta de fiéis, de todas as comunidades, de todas as idades. No adro da igreja concentram-se curiosos e turistas. Depois da celebração litúrgica, realizar-se-á a Procissão do Senhor Morto, aguardada com expectativa, mais não seja pelas fotografias – e a meteorologia até está propícia – que serão guardadas ou publicadas, para mais tarde recordar.

Presidida por D. Stephen Lee, bispo de Macau, a celebração é composta por momentos de oração, leituras e cânticos. Assinala-se a Paixão de Cristo – episódio impregnado de dor e sofrimento – com a mensagem de que a Páscoa se aproxima. A coadjuvar o prelado está o padre Daniel Ribeiro, que vai marcando o ritmo, estando-lhe reservada a tarefa de “apresentar” o Cristo crucificado aos fiéis, que se ajoelham em sinal de respeito à sua passagem, tanto nesta como em outras ocasiões.

O coro, sob a batuta das Irmãs Franciscanas Missionárias de Nossa Senhora, reforça a solenidade da Paixão, também revelada na cor púrpura das vestes dos membros da Confraria Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos, que na procissão irão erguer o andor.

No exterior, a banda do Corpo de Polícia de Segurança Pública perfila-se em frente ao Paço Episcopal, enquanto largas centenas de pessoas se concentram nos passeios, aguardando o início da caminhada que levará a imagem do Senhor Morto a percorrer o centro de Macau.

A homilia de D. Stephen Lee, falada em Português, é breve e a mensagem simples: Cristo entregou-se à morte para nos salvar. Respondamos à Sua chamada, vivamos com Ele.

Fechada a estrada ao trânsito é chegado o ponto alto do dia. A porta principal da Sé Catedral é novamente aberta. Na nave principal está o clero, que irá perseguir o andor acompanhado pelos fiéis. A banda dá o mote e o cortejo segue em direcção ao Largo do Senado, concentrando milhares de pessoas, algumas de terço na mão.

  1. Stephen Lee reza pelo perdão dos pecados das gentes de Macau, como viria a revelar a’O CLARIM na sacristia da Sé Catedral: «Rezei por aqueles que sofrem pelo jogo irresponsável, que sofrem na família e no casamento. Estiveram no meu coração durante a procissão. Por eles rezei o terço e pedi ao Senhor que lhes perdoe os pecados. Rezei por eles e por mim».

À semelhança de outros anos, a igreja de São Domingos é pausa obrigatória, nem que seja por uns breves segundos, em sinal de respeito.

Encontramos João Soares, advogado e catequista. O dia é especial. Como analisa o que vê diante dos seus olhos? Responde: «Este é mais um marco na nossa caminhada. Celebramos mais um dos mistérios importantes da nossa fé. A Paixão e fundamentalmente a Ressurreição. É um momento importante para consolidarmos a nossa fé e pensarmos a nossa vida, a nossa prática – o sentido que queremos dar à nossa vida, reforçando e intensificando de acordo com o sentido que colhemos destas celebrações».

A caminhada está terminada. A imagem do Senhor Morto está de novo na Sé Catedral. Nas escadas de acesso à igreja falamos com Carlos Noronha, professor-associado da Universidade de Macau. Começa por justificar a sua presença nas cerimónias: «Estou aqui porque sou cristão. Sou católico e todos os anos celebro a morte e ressurreição de Jesus Cristo». Um hábito que herdou da família biológica: «Desde que sou criança que todos os anos venho à procissão. É uma tradição». Lamenta que a mãe já não o acompanhe desde a morte do pai.

À saída da igreja está Anabela Ritchie, ex-presidente da Assembleia Legislativa de Macau. Sem hesitar, confessa o que lhe vai na alma: «Sinto-me muito bem, muito bem. Foi uma jornada de oração muito bonita. A cerimónia em si foi toda ela muito bonita, muito profunda. Teve todos os ingredientes para fazermos uma boa meditação e uma boa oração. Fiquei contente porque é um momento de recolhimento, de exame, para termos a possibilidade de renovarmos, acima de tudo, o nosso sentido de esperança, solidariedade e cidadania. Foi muito bom, encheu-me a alma».

 

UNIÃO MULTICULTURAL

Quem tenha assistido e participado nas celebrações da Semana Santa verificou a diversidade cultural existente em Macau, que também está presente na vida da Igreja.

Para João Soares, «a fé religiosa sempre constituiu um cimento que une e congrega várias etnias, várias comunidades e vários sentidos. É algo que caracteriza a realidade de Macau. É um elemento da identidade de Macau».

Carlos Noronha afina pelo mesmo diapasão: «Como pode ver pela multidão aqui presente, Macau é um local único. Para além do mais, há liberdade religiosa e também por isso é um bom sítio para se viver. É composto por várias comunidades que sabem viver em comunhão».

No que respeita aos fiéis, Anabela Ritchie considera que «há hoje mais vigor» no seio da Igreja, crendo inclusivamente «em alguns sinais de que a mensagem está a passar para muitas pessoas à nossa volta. Talvez no passado não estivessem tão atentas. Vejo hoje muita gente interessada na mensagem da Igreja». A título de exemplo, salienta «o enorme silêncio e o empenho dos fiéis na oração e no acompanhamento das cerimónias».

Já na procissão foi notória uma quase ausência de jovens. Na qualidade de catequista, João Soares explica porquê: «Sendo a Páscoa o momento mais importante da nossa fé – até mais do que o Natal – a verdade é que congrega pouca juventude. Também aqui em Macau este é um momento propício a férias e as pessoas aproveitam estes interregnos para saírem do território, o que é bem compreensível. Muitos jovens, muitas crianças – vejo isso pela Catequese – não estão cá, pois saíram com os pais. Enfim, é uma inevitabilidade de Macau».

A experiência de Carlos Noronha é igualmente reveladora do crescimento da Igreja em Macau. «Sou padrinho de baptismo de alguns dos meus alunos. Querem ser baptizados e convidam-me. Sinto que tenho um papel importante junto deles enquanto cristão», refere, sublinhando que «nos dias de hoje muitos jovens procuram a Igreja». No seu entender, «muito contribui o facto das missas serem celebradas em Português, Inglês e Chinês».

Embora não tenha poder de comparação, uma vez que apenas chegou ao território em 2016, D. Stephen Lee admite que algo esteja a mudar na Igreja em Macau. «Tenho procurado melhorar a atmosfera que se vive na Igreja, mas para tal é preciso promovê-la intensamente junto dos fiéis. Tenho encorajado os nossos colaboradores a melhorarem todos os aspectos relacionados com o serviço litúrgico, para que os fiéis sintam a solenidade da liturgia; para que compreendam o que vêem, o que cheiram e o que ouvem. Se a atmosfera for propícia, a religiosidade revela-se mais facilmente nas pessoas».

E de que forma se tem conseguido atingir os objectivos traçados pelo episcopado? «Através do esforço das paróquias e das comunidades nas acções de evangelização mais pessoas têm procurado a Igreja. Aumentámos o número de turmas da Catequese, temos encorajado as escolas a participarem na vida da Igreja, estamos empenhados em melhorar cada vez mais o serviço litúrgico, há mais confissões (com os jovens a também aderirem à Confissão), entre outras iniciativas que – penso – têm ajudado a sociedade em geral», enumera, concluindo de seguida: «O esforço de todos revela como é bonito o Cristianismo. Ao tocarmos o coração das pessoas elas reagem de forma positiva».

José Miguel Encarnação

jme888@gmail.com

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