PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL A Tragédia do Século

Primeira Guerra Mundial

A Tragédia do Século

A 28 de Junho de 1914, um jovem sérvio chamado Gavrilo Princip matou o herdeiro do trono austro-húngaro e a sua mulher numa rua de Sarajevo. Esse crime foi o detonador da Primeira Guerra Mundial, a maior catástrofe de sempre a atingir a Europa até essa altura. Vinte e cinco anos depois desses primeiros tiros, o mundo viveu uma segunda guerra, muito mais sangrenta, mas que não deixou de ser uma consequência quase directa da anterior. Por isso, 100 anos depois, a Grande Guerra ainda é a primeira.

Nada levava a crer que o Verão de 1914 trouxesse algo de extraordinário à Europa e ao Mundo. O tempo estava óptimo e as relações entre os principais Estados europeus não estavam piores do que o habitual. Por isso mesmo, em Junho, muitos governantes e membros das famílias reais mais importantes fizeram o que sempre faziam nessa altura: foram de férias.

Quando surgiu a notícia do assassínio do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do trono austro-húngaro, muitos desses veraneantes nem sequer regressaram ao trabalho. Afinal, tudo não passava de um problema localizado, que envolvia apenas o Império Austro-Húngaro e a Sérvia, cujo serviço secreto supostamente teria incitado o jovem Gavrilo Princip e os seus cúmplices a cometerem o crime.

Foi preciso um mês exacto para que os austro-húngaros declarassem guerra à Sérvia, e nem aí era certo que o conflito tivesse de alastrar. Durante quatro dias, Nicky e Willy – era assim que se tratavam mutuamente os imperadores da Rússia e da Alemanha, pois eram primos direitos – trocaram telegramas numa tentativa cada vez mais desesperada de evitar que a guerra envolvesse os seus dois países e os tornasse inimigos. Em vão.

Serve tudo isto para mostrar que a Primeira Guerra Mundial não era inevitável, nem mesmo depois do atentado de 28 de Junho. Os manuais de História estabelecem quase sempre uma relação directa e incontornável entre o assassínio de Francisco Fernando e a eclosão do conflito, mas um estudo mais atento dos acontecimentos mostra-nos que tudo poderia ter corrido de uma forma bem diferente.

Se a própria morte do arquiduque já tinha resultado, em grande medida, de um acaso (o motorista do carro que o transportava enganou-se no percurso e, ao inverter a marcha, parou a viatura mesmo junto a Princip), o que se passou depois também resultou, em parte, de decisões e actos inconscientes, cujo verdadeiro impacto só mais tarde – e tarde demais! – se tornaria aparente.

E certo que a política de alianças militares (muitas delas secretas) prendeu os Estados numa teia de compromissos que quase colocava o controlo dos seus destinos em mãos alheias: a Rússia declarou guerra à Austria-Húngria porque tinha a Sérvia como aliada, mas o Governo de Viena só tomou esse passo porque obteve da Alemanha um “cheque em branco”, a garantia de que, fizesse o que fizesse, teria sempre o apoio da sua aliada. E teve.

Com a Alemanha envolvida, os franceses, aliados dos russos desde o início do século, sentiam que não podiam ficar de fora, até porque tinham contas antigas a ajustar com os alemães: a sua derrota humilhante na Guerra Franco-Prussiana, em 1870, que tinha levado à criação da Alemanha unificada, tinha tornado os dois países inimigos mortais, e essa inimizade tinha definido boa parte da política europeia nos 44 anos seguintes.

Finalmente, havia a Grã-Bretanha, que ao longo dos dois últimos séculos tinha seguido consistentemente a mesma política: distanciamento em relação a todos os conflitos europeus que não afectassem directamente os seus interesses; oposição determinada a qualquer potência que tentasse alcançar uma posição dominante no continente e pusesse em causa o domínio britânico dos oceanos. Foi por sentir que a Alemanha queria competir consigo em termos de poder naval que a Grã-Bretanha se aliou à França, um compromisso cuja verdadeira profundidade era conhecida de muito poucos e só se tornou clara para todos quando a guerra começou.

Tudo isto explica porque é que a guerra era possível, mas não é suficiente para justificar as decisões que a tornaram real e a prolongaram por quatro longos anos. Porque foram pessoas de carne e osso que tomaram essas decisões, e não meros agentes de um qualquer destino inelutável.

A Grande Guerra custou a vida de mais de 16 milhões de pessoas e reformulou o mapa da Europa, África e Médio Oriente porque, naquela altura, a maioria das pessoas ainda acreditava que a guerra era um meio legítimo, e até desejável, de resolver os conflitos entre Estados.

Muitos dos que contribuíram para que ela começasse estavam conscientes do enorme custo material e humano que teria, mas mesmo assim não mudaram de rumo. Na véspera da declaração de guerra da Grã-Bretanha à Alemanha, o ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, Edward Grey, disse que «as luzes se estão a apagar em toda a Europa, e não voltaremos a vê-las no nosso tempo».

Grey estava certo. As luzes só se acenderam mesmo em 1945, porque as lições da Grande Guerra não foram devidamente aprendidas. Esperemos que o que custou tanto e tanto tempo a aprender não esteja a cair no esquecimento.

Rolando Santos

In Família Cristã

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