MYANMAR De Cosmim ao Cabo Negrais

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De Cosmim ao Cabo Negrais

Palco de sangrentos confrontos entre mons e birmanes, Pathein acabaria por cair nas mãos de Arracão em finais de Quinhentos, destacando-se, a partir de então, como importante entreposto de comércio para os produtos originários da Índia e da Insulíndia. Os tecidos, largamente exportados para a Birmânia, eram trazidos do Coromandel, costa oriental da Índia, para serem trocados por bens alimentares, uma vez que o porto era frequentado sobretudo pelos navios dessa região, mas também de Bengala e do Ceilão.

Pathein deriva da palavra “pathi”, que designa muçulmano, devido à forte e histórica presença de comerciantes indianos islamizados.

A enorme mescla de culturas e raças era bem visível não só no fácies das pessoas com quem me cruzava, como também na traça dos edifícios, onde predominava o indo-português (com elementos chineses, mouriscos e ocidentais), tal como em Macau, Penang, Malaca, Pukhet, Hoi An ou Yogjacarta, só para citar as cidades que me vieram à mente.

Aqui conviviam e comerciavam livremente muitos renegados portugueses, actuando por conta própria, malgrado a interdição do Estado da Índia. Eram o “império-sombra”, que não hesitava em colocar-se à sombra do império quando tal era conveniente. Este comércio privado estava particularmente activo nos portos de Arracão, já que Goa insistia em rumar a Pegu, nessa sua eterna preocupação em abastecer Malaca de arroz. De Cosmim – um dos principais portos do então poderoso reino do Pegu – os mercadores portugueses levavam arroz, almíscar, madeira para a construção naval ou navios acabados, lacre, ouro, prata, rubis e outras pedras preciosas e produtos alimentares. Como moeda de troca disponibilizavam tecidos da Costa do Coromandel e ópio do Iémen.

É preciso ter em conta que, no início do século XVI, o reino do Pegu estendia-se do Cabo Negrais a Tavai, ocupando todo o delta do Irrauadi e o baixo Saluém, confinando a oeste com o Arracão e a leste com o Sião.

Quando Fernão Mendes Pinto chegou a Cosmim deparou com uma pequena colónia de católicos, resultante dos casamentos inter-raciais entre mercadores portugueses ali estabelecidos e mulheres locais. Diz-nos o viajante que havia nessa altura na cidade vários dominicanos – entre os quais Gaspar da Cruz – que «velavam pelas necessidades espirituais da comunidade».

A presença de padres portugueses prolongar-se-ia pelo menos até 1855, altura em que se documenta a presença de um outro português, o reverendo George D`Cruz, formado em Roma e que em Cosmim implantou uma tipografia e fundou uma escola.

A diocese da Pathein que conheci abarcava vinte paróquias num total de oitenta mil fiéis. Dando seguimento à tradição, muitos deles continuavam a miscigenar-se e a partilhar a alegria de uma festa de casamento, com particular empenho quando se tratava de um estrangeiro. À semelhança de outros transeuntes, fui convidado a participar numa boda que decorria à porta aberta. Da ementa do repasto, vislumbrei traços da culinária legada pelos portugueses, como é exemplo o pão-de-ló, um doce sobejamente popularizado em quase todos os países da Ásia.

Na parte norte da cidade, junto ao vistoso pagode Vinte Oito Payas, capela rectangular com vinte e oito estátuas de Buda sentado e outras vinte e oito de pé, concentravam-se três dezenas de oficinas dos afamados pára-sóis. Cor de açafrão, o pára-sol dos monges é o único que pode ser utilizado quando chove. A sua impermeabilidade deve-se à sucessiva aplicação de camadas de resina numa operação que dura dois dias. Todos os restantes, permeáveis, destinam-se a proteger o seu utilizador do intenso sol do delta. Há-os de várias cores, em vários tons, sempre garridos. Por norma, são lisos ou com motivos geométricos, mas há-os que incluem padrões da natureza. A sua confecção está a cargo de unidades familiares, tal como acontece com a produção dos charutos ou das morcelas e chouriços nas aldeias bayingys, e geralmente são feitos por encomenda; tamanho e feitio são ao desejo do freguês.

Quase todos os pagodes ou comunidades budistas organizam festivais próprios, para além das festividades celebradas a nível nacional, daí que seja frequente deparar com eventos religiosos nos lugares mais imprevisíveis. Ocorrem habitualmente durante o ciclo da Lua Cheia, logo após a colheita do arroz, considerada a altura mais propícia para a construção de novos templos. Em Pathein, calhou-me em sorte a agradável surpresa de um cromatizado e extravagante cortejo, que recriava um conhecido episódio histórico interpretado por figurantes vestidos a rigor, todos eles bastante jovens.

Situado a 190 quilómetros a norte da capital, a Cosmim de outrora era, à semelhança de Yangon, um importante porto do delta apesar de estar a grande distância do mar.

Hoje, a viagem fluvial de Pathein a Yangon é diária e demora entre dezasseis a dezoito horas, em barcos expressos, sendo que as embarcações normais cobrem igual distância em não menos de vinte horas.

Foi esse o percurso que escolhi para regressar onde tudo tinha começado, ao Sirião, aproveitando para ler algumas passagens do Roteiro de Navegação de Goa ou Cochim para Pegu em Abril e Setembro, reformado por Gaspar Pereira dos Reis, em 1634. A páginas tantas, pode ler-se o seguinte: «Da Ponta de Negrais até à barra de Sirião haverá 35 léguas pouco mais ou menos. Toda esta barra é baixa, mais numas partes do que noutras (…). Indo de Negrais para Sirião podeis passar por entre a Ilha Alagada e a outra ilha que chamam Dorandiva».

Provavelmente um desses ilhéus que avistei ao longo da pitoresca jornada pelo delta do Irrauadi, que por vezes dá impressão de nos conduzir ao mar alto para logo nos limitar à estreiteza de um canal, sempre aldeolas e pequenas cidades ao alcance do olhar. E, claro, os omnipresentes campos de arroz e búfalos de água.

Joaquim Magalhães de Castro

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