As Grandes Basílicas Romanas

Peregrinação, memória e arte

As Grandes Basílicas Romanas

O que são basílicas? Na sua etimologia, ou origem do termo, “basílica” vem do Grego βασιλική στοά (ou οἰκία, “oikia”), ou basiliké stoá, domus basilica em Latim. Basílica, em si, significa “real”, logo “casa real”. As basílicas eram antes do século IV, até à “tolerância” de Constantino em 313, tribunais, espaços judiciais. Os cristãos manteriam a planta destes edifícios e transformaram-nos em igrejas, ditas basílicas, não apenas em Roma mas por todo o mundo cristão.

Os fiéis dispunham-se em quatro áreas dentro da basílica, que determinavam a composição arquitectónica das mesmas: no atrium (ou, por defeito, no nártex, mas distantes da porta interior da igreja, ficavam os penitentes de 1º grau, ou flentes; depois, no nártex (ou pronaos), mas junto à porta interior, os penitentes de 2º grau (audientes) e os catecúmenos iniciados (também designados de audientes); dentro das naves da igreja e junto às portas, os penitentes de 3º e 4º graus (prostrati e consistentes), com os catecúmenos mais adiantados; mais à frente, os fieis mais antigos e plenamente formados, experientes, os comunicantes, ou que participavam nos divinos mistérios. Depois, existiam as áreas para mulheres (esquerda, ou lado do Evangelho), matronikion (casadas e filhos pequenos) ou gynnaceum (viúvas e virgens), para os homens (andron), além de ambões, púlpitos e uma secção para o coro.

Em sentido litúrgico, são basílicas todas aquelas igrejas que, pela sua importância eclesiástica ou histórica, obtenham privilégio papal. Existem basílicas maiores e menores. São basílicas por prerrogativa papal, que pode aliás conceder à comunidade que presta o seu culto numa basílica a graça de ganhar a indulgência plenária se visitar esse templo em quatro ocasiões especiais: dia dos santos Pedro e Paulo; o dia da Cátedra de São Pedro; o aniversário da entronização do Pontífice reinante; outra data do ano escolhida aleatoriamente. Uma basílica menor, já agora, ganhava este estatuto quando passava a exibir no altar mor os signos da dignidade papal e da sua união com a Santa Sé: o Umbraculum (ou Conopeu) e o Tintinábulo, ambas insígnias.

As basílicas papais são as mais famosas e visitadas pelos peregrinos do mundo inteiro. São seis e gozam do mais elevado estatuto entre as igrejas católicas romanas. As quatro ditas “maiores” situam-se em Roma, enquanto as outras duas estão em Assis (Basílica de São Francisco e a de Santa Maria dos Anjos), sendo consideradas “menores”. Anteriormente eram designadas também como Patriarcais, mas como Bento XVI renunciou formalmente ao título de Patriarca do Ocidente, passaram a ser apenas “papais”. Papais porque possuem um altar papal (só o Papa pode aí presidir a Eucaristia, ou, a título excepcional, alguém que ele designe) e goza de privilégios especiais. A Basílica de Latrão, para além de tudo, tem a cátedra papal, a sede (daí Sé), enquanto as outras têm um trono. Sendo basílicas maiores, têm uma Porta Santa (ou Jubilar) e um altar papal. A Porta Santa só é aberta com um rito especial do Papa, ou alguém por ele indicado, para abrir o Ano Santo, sendo fechada no fim do mesmo. Gozam todas também do privilégio de indulgência plenária.

As quatro basílicas papais de Roma são as ditas “maiores”: São João Baptista de Latrão, Catedral de Roma (ou Arquibasílica Lateranense); São Pedro no Vaticano (ou Basílica Vaticana); São Paulo Fora de Muros (ou Extramuros, dita Basílica Ostiense); e a de Santa Maria Maior (ou Basílica Liberiana).

Começámos por Latrão, sim, pois é a mais antiga igreja de Roma, erigida a partir de 320, por Constantino, sendo a principal igreja de Roma, a catedral e sede do bispo desta cidade, sendo a “mãe de todas as igrejas”. Até 1309 junto à basílica estava a residência papal.

Depois, São Pedro, no Vaticano, também Constantiniana, sobre a tumba de São Pedro. Foi reformulada a partir de 1506, acolhendo algumas das maiores obras-primas dos maiores artistas do Renascimento e do Barroco.

Temos São Paulo, fora dos muros antigos da Cidade de Roma, daí o seu nome, junto à Via Ostiense (a caminho do porto de Óstia), sobre o túmulo de São Paulo. Também foi começada a construir no século IV, tendo sido incendiada em 1823 (excepto o claustro), tendo sido depois reconstruída. É uma abadia da Ordem Beneditina, refira-se, cujos monges custodiam e animam a vida religiosa da basílica.

Santa Maria Maior é dita Liberiana porque foi fundada sobre uma igreja erigida pelo Papa Libério (352-366) na sua localização actual, segundo desejo de Nossa Senhora, que ali operou o milagre de nevar em pleno Agosto (o “ferragosto” romano, devido ao calor na cidade), no ano de 352. A basílica foi erigida apenas depois do concílio de Éfeso (431), o concílio de Maria. Esta basílica é a primeira igreja dedicada ao culto da divindade materna de Maria, com efeito. As quatro basílicas compõem o Grande Jubileu (Ano Santo), para quem as visitar em peregrinação nessa magna celebração da Igreja.

A Basílica de São Lourenço (Fora de Muros) é tradicionalmente considerada papal (em sentido lato), também por herança de uma antiga (desaparecida) basílica Constantiniana que existia nas proximidades da actual e por fazer parte da antiga “Pentarquia” (as cinco basílicas: esta e as quatro maiores). Possui altar papal, mas não Porta Santa, nem concede indulgência plenária no Jubileu. Fora de Roma, mas neste caso fora dos limites até da região do Lácio, temos as basílicas papais (mas menores) de Assis, a de São Francisco (desde 1754) e a de Santa Maria dos Anjos (desde 1909), com a pequena igreja da Porciúncula, dentro, ambas com altar papal.

Por fim, falemos da tradição das Sete Igrejas de Roma. Para os peregrinos que vinham a Roma (os Romeiros) por algum tempo, era obrigatório o chamado Giro (volta) das Sete Igrejas, mas num dia inteiro! Esta tradição, renovada no século XVI por São Filipe Néri, compreende as já referidas quatro basílicas maiores (antes também Patriarcais); a de São Lourenço Fora de Muros (túmulo de São Lourenço, mártir); a de Santa Croce in Gerusalemme (Santa Cruz em Jerusalém), onde era o palácio de São Helena, imperatriz romana e mãe de Constantino (relíquias da Santa Cruz); e São Sebastião Fora de Muros, junto às catacumbas deste santo, na Via Ápia Antiga. Outras basílicas menores (igrejas pontifícias) são as italianas Santa Casa de Loreto, San Nicola Bari, Nossa Senhora do Rosário (Pompeia) e de Santo António de Pádua, além da espanhola de São Miguel de Madrid.

 Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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