Agora o tempo africano

O Nosso Tempo

Agora o tempo africano

Se as viagens do Santo Padre marcam, pelo seu profundo impacto, um tempo próprio, nos países e povos que visita, este foi, de facto, o novo tempo africano.

Entre temor e esperança, as notícias sobre o continente africano alternam entre as promessas de uma descolagem definitiva “tipo Ásia” e os bloqueios de sociedades aparentemente desorientadas e à procura de um rumo.

Toda a perplexidade do confuso mundo em que vivemos se espelha nesse continente admirável, de gente admirável que, se antiquíssimo na sua identidade cultural original (não nasceu o Homem em África?) está hoje aberto ao mundo, como todos os recantos deste nosso planeta, pelo milagre tecnológico da comunicação instantânea.

A linguagem dos tambores, comunicando entre aldeias distantes, deu lugar ao telemóvel e à Internet. África nunca mais será a mesma. O futuro está todo em aberto. A questão está sempre em saber para onde ir e que passos dar, quando a bússola aponta a direcção certa.

Quem detém a bússola? Desde logo as autoridades de cada país e as respectivas elites, no continente que menos experiência histórica possui de instituições próprias dos Estados modernos. Foi assim a História e não vale a pena olvidá-la.

Se a inexperiência não explica tudo, não se peça também a certas sociedades que se desenvolvam em todos os domínios, à velocidade da luz, quando outras, mais afortunadas, se deram o tempo do trote dos cavalos… acelerando depois, progressivamente, desde os primeiros Ford T…

Bem sei que o exemplo do sucesso chinês põe em causa muitos conceitos e preconceitos do tempo histórico tradicional. A nova face da China foi construída, como se sabe, em menos de quatro décadas, podendo assim dizer-se que é mais recente do que a maior parte dos Estados africanos saídos da descolonização europeia. Mas esse é debate – fascinante mas muito complexo – para outra ocasião e outro lugar.

 

Imagens e símbolos

A missa no campus da Universidade Nacional em Nairobi, na presença de Uhuru Kenyatta. O Presidente anfitrião, dançando levemente na cadeira, na primeira, ao som da música de cariz popular (e todavia profundamente religioso) que só o génio africano sabe criar, misto singular da fidelidade à sua tradição cultural e de aceitação dos desafios da Fé.

E, com o Presidente, milhares dos seus concidadãos elevando as vozes num coro lindíssimo, preparando-se para ouvir a homilia de Francisco ou depois da exortação do Papa.

E o Pontífice tocou em todas as grandes questões com que hoje se defrontam a sociedade queniana e as sociedades africanas em geral, como aliás as de outros continentes: a escolha entre uma civilização baseada nos valores da família ou no salve-se-quem-puder do egoísmo desenfreado, fruto do culto do individualismo que tão maus resultados tem dado noutras partes do mundo.

Dirigindo-se aos jovens universitários em Nairóbi, Francisco falou do progressivo desaparecimento da solidariedade entre grupos (citou o esquecimento cada vez mais notório dos velhos…), a entrega à tóxico-dependência, a tentação fundamentalista, o desapego às raízes no frenesim urbano em que impera a lei do mais forte.

A corrupção foi outro tópico importante, como freio ao desenvolvimento de sociedades mais justas. Aqui o Papa não deixou de ironizar com a anedota do corrupto que morreu e cujo funeral foi adiado: o caixão não podia fechar, tão abarrotado estava de dinheiro… não lhe fizesse ele falta na eternidade!

E toda a gente riu e percebeu naturalmente a mensagem…

 

Mártires e martírios

África, pois, entre o fundamentalismo e o subdesenvolvimento…

Entre, por um lado, as propostas de paraíso terrestre (e sobretudo de martírio suicida, como bilhete para o céu), da parte do Boko Haram e do Al Shabab ; e, por outro, os nichos de riqueza ostensiva que exclui o maior número.

Como noutros lugares do mundo, o Papa denunciaria a pobreza, ligando-a aqui ao fenómeno do terrorismo, essa epidemia facilmente transmissível que muitos querem associar à natureza intrínseca do Islão. Não dando a sociedade um lugar aos jovens, como surpreendermo-nos com a sua vulnerabilidade ao “absoluto” que a demagogia radical lhes oferece, interrogou-se Francisco.

Mas ao homenagear os Mártires Cristãos que foram sacrificados por não renunciarem à sua Fé, Francisco sugeriria, sem o referir, a diferença abissal entre a entrega livre de uns e a intoxicação e lavagem de cérebro de outros. Há mártires e há mártires, de facto.

 

Uma geopolítica da Paz

Se há uma geopolítica da Igreja Católica, como os especialistas gostam de dizer, pode-se ver como efeito colateral desta viagem do Papa Francisco a África uma tentativa de, ao mesmo tempo que fomenta o diálogo inter-religioso (também) com o Islão, ajudar a contrariar a expansão do fundamentalismo islâmico, no seio da juventude, pelo uso da mensagem evangélica. Desde logo pela associação feita pelo Papa, como referi e repito, da pobreza à radicalização dos jovens, falhos de saídas em sociedades bloqueadas.

Ouviu a mensagem Uhuru Kenyatta e todas as personalidades ilustres da vida queniana que o acompanhavam. E ouviram desde logo os jovens a quem a mensagem era também dirigida.

 

Concluindo…

Suscitou-me as reflexões que antecedem uma visita difícil, arriscada e singular, a do Papa Francisco ao Quénia, ao Uganda e à República Centro-Africana. São, repito, muito fortes as imagens que fui colhendo e que conservo dos diversos momentos altos do périplo. E fortes precisamente porquê, para além da sentimentalidade dos sucessivos momentos, com a atmosfera tão especial que Francisco cria sempre com as suas intervenções.

Desde logo, pela fome e sede de uma palavra de conforto e de orientação por milhares e milhares de jovens que querem um presente e um futuro diferentes, neste tempo diferente. E, neste contexto, pela sua espontânea adesão às palavras do Santo Padre, desconfortáveis que foram para alguns, pelos temas que com simplicidade invocou, perante as próprias autoridades nacionais.

Na forma muito própria e extremamente tocante que o Papa tem de falar “de coração aberto”, os mais graves problemas são invocados sem complacência – mas sem ofensa – constatando e não acusando, porque o objectivo é sempre o de alertar as consciências e de suscitar mudança de comportamentos, e nunca de apontar o dedo a culpados.

Carlos Frota 

Universidade de São José

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