Novembro, o mês da castanha

Novembro, o mês da castanha

A semana que passou foi parca em novidades dignas de registo.

O “velho” Governo PSD/CDS foi reconduzido como novo, numa cerimónia quase fúnebre, embora plena de sorrisos amarelos, perante a iminente rejeição de que vai ser alvo daqui a dias pela oposição parlamentar.

Na cerimónia de posse a que presidiu, o Presidente foi desta vez bem mais cordato. Limitou-se a salientar, de forma geral, algumas das grandes dificuldades que temos pela frente e a apelar ao esforço colectivo para as ultrapassar, dando ênfase à preservação do bom trabalho já realizado pelo Governo anterior (!?). Um discurso que, só por isto, não constituiu novidade assinalável, vindo da parte de Cavaco Silva…

Novidade pública, embora realidade reconhecida para quem está atento ao que se passa à sua volta, foram alguns resultados de estudos realizados à população do País e que têm vindo a ser divulgados.

O Governo andou a cortar progressivamente os subsídios de desemprego aos desempregados, na intenção expressa de baixar a despesa e reduzir o saldo negativo do País, pouco se importando com a difícil situação económica que criou a esses trabalhadores. No entanto, e pese embora os empregos fictícios que criou, os dados oficiais revelados agora pela Conta da Segurança Social indicam que, mesmo assim, o pouco apoio aos trabalhadores que caíram no desemprego, face ao seu número, aumentou a dívida nas contas do Estado nestes dois últimos anos, demonstrando, sem equívocos, que só a criação de emprego pode ajudar a diminuir esta despesa do Estado. Diminuir os já magros subsídios dos desempregados só alimentou o nível de miséria desses cidadãos.

E é da miséria que fala um recente estudo da DECO, ao revelar que metade das famílias portuguesas com filhos menores sobrevive apenas com menos de mil euros por mês e que 18% não consegue pagar a prestação da casa, as contas da água, da luz e do gás.

Também, segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho), apesar da diminuição que se tem vindo a registar na Europa relativa ao desemprego jovem, Portugal é um dos seis países mediterrânicos em que a taxa de desemprego jovem ultrapassa os 30%. Se a isto juntarmos os cerca de 827 mil empregados com vínculo precário, sem perspectivas de atingir o necessário equilíbrio económico, capaz de lhes proporcionar um futuro familiar estável, custa a perceber quais são os “bons resultados” obtidos por este Governo.

Ah, talvez os próximos resultados, que também foram relatados num estudo específico, ajudem a compreender o optimismo governamental.

Nunca a Porsche vendeu tantos carros de luxo em Portugal como nos primeiros nove meses deste ano (401). Este fabricante teve um crescimento das suas vendas de quase 40%, em relação a igual período do ano passado, antevendo bater todos os recordes até ao final do ano. Ora aqui está um bom exemplo do nosso necessário crescimento económico.

Não sei se iludidos (…) pelas vendas de carros da Porsche, ou pelo ambiente criado pelos luxuosos Mercedes, Audi, BMW, etc., que equipam as vastas equipas de todos os Ministérios do País, ou ainda pela ilusão de súbita riqueza que essa visão possa proporcionar aos cidadãos nacionais, o anterior/novo Governo andou a vender a imagem de um Portugal que, por mérito dele, já tinha saído da crise.

Vamos lá ver se, por essa atitude optimista/eleitoralista, este Inverno nacional não irá acolher uma forte tempestade. É que o Instituto Nacional de Estatística revelou recentemente que as famílias portuguesas estão a gastar as suas poupanças, conduzindo-as aos níveis mais baixos de sempre, ou seja, gastando 96% dos seus rendimentos com o consumo, tal como acontecia em 2008. Situação para a qual muito contribuiu o crédito bancário, que subiu 17% até ao passado mês de Setembro.

A economia voltou ao défice externo, o que já não acontecia desde 2012. Dentro de dias, se outra política não for seguida, ou seja, se o consumo não for canalizado para aumentar o rendimento das famílias, optando pelo consumo de bens nacionais, criando empresas e emprego, os portugueses vão arrepiar-se com a proximidade deste Inverno.

Se entretanto nada mudar e a “receita” for a mesma que nos foi imposta durante os últimos quatro anos, em Novembro ver-nos-emos forçados a eleger a castanha (ou a “castanhada”, como o elemento fundamental à nossa sobrevivência.

Luís Barreira

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