Não sou o único português

Não sou o único português

O nosso cantinho aqui em Rodney Bay, em St. Lucia, começa a ficar cada vez mais confortável também à medida que vamos conhecendo novos amigos. Aliás, esse é um dos grandes atractivos deste nosso estilo de vida: fazer amigos em todas as paragens, amigos que partilham dos mesmos interesses e dos mesmos anseios.

Tem sido uma constante por onde passamos conhecer pessoas de todo o género, provenientes de vários países e das mais variadas etnias e experiências de vida. Só por esse facto esta viagem tem valido a pena, tanto para nós como para a nossa filha, dando-lhe acesso a variadas culturas e ensinando-a a conviver com todo o tipo de pessoas, não olhando à sua cor ou origem. Os meus pais assim me ensinaram e eu espero assim conseguir ensinar à minha filha.

Como temos muito tempo livre e não temos muitos horários a cumprir, permitimo-nos a alguns períodos dedicados a visitar os amigos que vivem nos outros barcos, uns na marina outros no ancoradouro onde estamos. É sempre uma boa oportunidade para conversar, trocar experiências ou apenas para bisbilhotar acerca de qualquer assunto. Além disso é uma excelente oportunidade para polir as línguas que vamos dominando. Aqui falamos Inglês, fundamentalmente; Francês, frequentemente; Castelhano, agora cada vez menos; e algum Chinês (nomeadamente no restaurante chinês, cujo proprietário é de Hong Kong).

Esta semana foi com alegria que também falámos Português com o dono de um catamaran que estava ancorado atrás de nós há já alguns dias. Tinha aqui estado logo quando chegámos a St. Lucia e depois desapareceu. Agora voltou e o seu proprietário, o senhor Júlio, transmontano, casado com uma senhora turca e que viveu na Alemanha muitos anos. Resolveu pois vir bater à nossa porta para perguntar se éramos portugueses. Foi uma conversa animada.

O senhor Júlio viveu muitos anos num veleiro em Portimão, antes de vender tudo e rumar às Caraíbas com a esposa. Por aqui comprou outra embarcação, onde andam desde então sem grandes planos a não ser continuar a velejar, como me segredou.

Foi com surpresa que souberam que temos um cachorro a bordo porque eles também tinham um no Algarve, mas foram obrigados a deixá-lo com familiares porque o seu animal nunca se habituou a viver na embarcação fora das marinas. A esposa ficou maravilhada com o Noel e muito satisfeita por lhe dizermos que poderia brincar com ele, visto que é uma apaixonada por animais e tem sofrido pelo desgosto de não ter sido possível trazer o seu animal de estimação.

O casal luso-turco está com rota orientada para Norte, com destino final em Nova Iorque, mas não tem data definida nem planos para o caminho até lá chegar. Por permeio vão recebendo amigos a bordo, como o casal que tinham com eles a festejarem o aniversário de casamento. Um casal turco com duas filhas que veio passar três semanas nas Caraíbas e assim festejar a data do seu matrimónio.

Também esta semana fizemos mais uma amiga, uma autêntica fonte de inspiração. Uma senhora australiana, a rondar os sessenta anos, que veleja há mais de vinte anos sozinha no seu catamaran nas águas das Caraíbas. A NaE já a conhecia de um dos fóruns da Internet dedicados a velejadoras, mas nunca tinha tido a oportunidade de a conhecer pessoalmente. A oportunidade apareceu agora quando a senhora australiana descobriu que estávamos em St. Lucia, fazendo questão que passássemos pelo seu barco na marina para conversarmos pessoalmente. É impressionante ver pessoas de idade com tanta agilidade física e mental e com espírito para – sozinhas – se fazerem ao mar para conhecer novos destinos.

Segundo nos explicou, o plano é navegar por estas águas nos anos mais próximos, indo trabalhando sempre que a oportunidade apareça. Estava à espera, neste momento, da confirmação de um contrato que a levará à Tailândia por três ou quatro meses. Quando se decidir reformar vai fazê-lo no Sudeste Asiático. Tailândia, Malásia e Filipinas são as hipóteses em aberto.

Esta semana vamos tentar resolver o problema burocrático relacionado com Macau de que vos falei na semana passada – uma bendita procuração que teima em não ficar pronta. A ver vamos!

João Santos Gomes

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