O torreão da Gereza de Quiloa

Memórias e Fortalezas no Leste de África – Parte 13

O torreão da Gereza de Quiloa

Quinze minutos depois, o forte de Quiloa – a Gereza, como lhe chamam aqui, com o sentido de prisão – surge-nos pela frente, recortado num céu de um azul muito intenso. Enriquece o quadro uma série de barcos varados num fundo lamacento rico em moluscos que a maré vaza revela.

Se preciso foi molhar os pés para embarcar, preciso é molhar os pés para desembarcar. Por sugestão dos tanzanianos visitamos previamente os restos de umas edificações de origem muçulmana, à frente das quais as duas raparigas do grupo fazem questão de serem fotografadas.

Actualmente, só o torreão da Gereza é de origem portuguesa, tendo a restante estrutura sofrido transformações depois de termos abandonado a ilha, em 1512, dando lugar aos sultões omanitas, que se revezariam no poder durante séculos. O portão de madeira principal, decorado com motivos florais emaranhados à mistura com versos do Corão, é o original e claramente de origem árabe. Uma placa em frente, já com umas boas décadas de existência, menciona um projecto de conservação urgente implementado pelo departamento de antiguidades tanzaniana e a UNESCO, com o financiamento de um fundo norueguês. É lastimoso o estado actual da estrutura, que explica bem o facto de, desde 2004, este local integrar a nada prestigiante lista do Património Mundial em Perigo. Os holofotes partidos e desactivados em frente à fortaleza testemunham isso muito bem.

Quiloa foi desde sempre uma importante metrópole no empório comercial muçulmano, que se estendia da costa oriental africana às Molucas, passando pelo Golfo Pérsico e a Índia, se bem que na altura em que a visitaram os portugueses estivesse já em decadência. Em 1502, Vasco da Gama apoderou-se da cidade, tendo o rei de Quiloa ficado vassalo de D. Manuel. Com o produto do primeiro tributo em ouro da novel possessão africana o monarca mandou fazer a célebre Custódia de Belém, uma das obras-primas da arte portuguesa.

Contemporânea de Sofala, a fortaleza de Quiloa seria erguida em 1506, sob a supervisão directa de D. Francisco de Almeida, sendo a primeira estrutura de pedra e cal edificada na região – típico castelo medieval com quatro torres nos cantos e uma torre de menagem, não na praça central, mas encostada à face principal da muralha. Era sua principal função dar abrigo aos passageiros dos barcos da carreira da Índia. A presença portuguesa foi, contudo, bastante curta. Devido aos elevados custos de manutenção e por questões de estratégia militar (havia nas proximidades os fortes de Mombaça e de Moçambique), Quiloa seria abandonada pelos portugueses em 1512, assumindo de novo o seu estatuto de cidade-Estado do mundo swahili. Passaria então a ser ocupada e reocupada por sucessivos sultões que a adaptariam consoante as suas necessidades e desejos. Em 1843, a transformação da cidade vizinha de Kivinje em porto marítimo, levou ao abandono de Kilwa e à consequente ruína dos seus edifícios.

 

MOÇAMBICANOS E A ESCOLA CORÂNICA

Exige algum esforço intelectual tentar imaginar o dia-a-dia neste forte construído por invasores que para se defenderem em caso de rebelião lançavam projecteis de um buraco estrategicamente colocado por cima da entrada, ainda hoje perfeitamente visível. Os soldados buscavam refúgio e aproveitavam-se das aberturas nas ameias para disparar os seus canhões e espingardas. Fundamental para sua sobrevivência era o poço, agora tapado com cimento, e nos assentos de granito erguidos quase ao nível do solo podiam sentar-se para descansar no intervalo da refrega, como o faço agora também, sob o olhar atento e constante de dois rapazitos da aldeia local que ficam tão ou mais admirados que eu ao ver entrar no exíguo espaço um casal de jovens japoneses, os primeiros turistas que avisto na Tanzânia, e que com certeza terão chegado a Kilwa Kisani de avião a partir de Dar es Salam.

Habitam a ilha um milhar de pessoas, entre os quais alguns adolescentes moçambicanos que frequentam uma escola corânica. Um deles cumprimenta-me com um sonoro “bom dia” que me deixa surpreendido. É como se não tivesse deixado ainda a esfera do mundo lusófono.

Protegido pela sombra proporcionada pelas ameias, pescadores remendam a lona das velas triangulares dos seus dhows e alguns estudantes decoram em voz alta passagens do livro sagrado. À conversa com eles, e de forma involuntária, descubro dois verbos que me soam familiares. Nesta região os termos “pegar” e “chegar” têm exactamente o mesmo sentido que nós lhe damos. “Kihistoria” significa “história” e a Portugal chamam-lhe “unrenu”, o que soa bastante a “reino” ou “no reino”, mas aqui pisamos já território da pura especulação. Comprovadamente portuguesas são as palavras “família”, “chupa”, “mesa” ou “calafate”, que já antes, ao escutar conversas avulsas entre falantes de Swahili, me tinham chamado a atenção.

 

AMIZADE TANZANIANA

Poderia ficar o resto da tarde na companhia destes homens do mar (ainda mais entusiasmados do que eu, nesta improvisada busca de palavras que temos em comum), porém, antes do regresso ao continente, impõe-se uma visita a uma mesquita e a um palácio, comprovativos arquitectónicos da grandiosidade de Quiloa. Já em 1332, Ibn Batuta, o famoso viajante e geógrafo marroquino, mencionava os «edifícios construídos de pedra de coral» e as «estruturas formidáveis de vários pisos». Dessa época dourada restam vestígios da Mesquita Grande, da qual destaco os impressionantes arcos em ogiva que a mim me fazem lembrar a cisterna manuelina da cidade portuguesa de Mazagão, em Marrocos, e o magnífico interior do Palácio de Husuni, nas ruínas da cidade fortificada de Mukutani, caracterizado por colunas poligonais separadas entre si mais de uma dezena de metros.

Na costa oriental africana, ao contrário do que acontece na Índia, não se encontram com facilidade os ditos “educated man”, que, quando não são chatos, revelam-se preciosos aliados num local que nos é alheio; mas há sempre a possibilidade de depararmos com alguém como Jonas Wairimu, um jovem natural de uma aldeia dos arredores de Dar es Salam, que veio a Kilwa Masoko tentar vender atrelados de tractores, “trelas” como dizem em Swahili, e que, selada a amizade, graças a um fortuito encontro num desses restaurantes de berma da estrada que servem peixe grelhado quando a noite cai, me passa a tratar como se eu o fosse o seu irmão mais novo, embora seja mais velho do que ele.

No dia seguinte, de madrugada, Jonas e eu partimos na primeira camioneta rumo a Dar es Salam, onde espero apanhar transporte para o Quénia nesse mesmo dia ainda. Na junção de Namgurukulu, as mulheres dos pescadores locais tomam literalmente de assalto as janelas da camioneta mostrando-nos travessas de alumínio a transbordar de peixe e lulas fritas, de tal forma gordurosos que me tiram logo o apetite matinal.

Nesta viagem, as paragens parecem-me ainda mais frequentes do que é habitual, para além de entrarem muitos mais passageiros do que os que vão saindo, sempre às pinguinhas. “We are moving mountains” é o mote da empresa a que pertence o camião carregado de árvores que ultrapassamos na primeira subida com que deparamos. Nas traseiras de um outro veículo similar está estampado um “C. Ronaldo”, mas estas são excepções à regra mais frequente no domínio da decoração automobilística, e que é a efígie, representada de todas as formas e feitios, de Barack Obama, aqui um verdadeiro herói da história recente. Talvez para contradizer esta obsessiva Obama-mania, alguém se lembrou de pintar no respectivo camião um rosto do Presidente americano deposto, e, lá fora, depois de coleccionar na retina uma alucinante sucessão de interessantes desenhos, sempre muito coloridos (alguns deles autênticas obras de arte), publicitando cabeleireiros e profissões liberais do género, apanha-me de surpresa um descarado George W. Bush, mas sem a imagem condizente. Também na parede de um templo de Pentecostes o religioso “God is so Good” contrasta com os preocupantes apelos “It’s Kill Time” e “Make the Best of War”, desenhados no beiral do contíguo White Hotel, que apesar do pomposo nome não passa de uma mera barraca de cimento.

Joaquim Magalhães de Castro

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