MATA-BIRUS DA INDONÉSIA A lenda da areia movediça

Mata-Birus da Indonésia

A lenda da areia movediça

Reparei, à chegada a Banda Aceh, que o ruído que me impressionara aquando da minha primeira visita, na Primavera de 2002, estava de regresso à capital da província mais setentrional de Samatra. Todos possuíam algum tipo de veículo, sobretudo motociclos, que transformavam as ruas num pesadelo que começava logo pela manhã. Banda Aceh era uma das urbes mais ruidosas do arquipélago indonésio, talvez por ser totalmente plana.

A ausência de qualquer barreira natural permitiu também que as águas, enfurecidas pelo maremoto de 2002, entrassem pela cidade adentro, levando consigo o que era menos sólido. A mesquita Raya, símbolo maior do Aceh, foi dos raros edifícios que resistiram. Mantinha à entrada a mesma tabuleta: “show respect and get impressed”. A praça em redor voltara a ser o pólo aglutinador dos achéns, que notoriamente preferiam olhar em frente a recordar o amargo passado. Empunhando armas automáticas, com inexplicável jactância, jovens polícias patrulhavam as imediações, malgrado o cessar-fogo assinado com os independentistas.

Ao contrário do que inicialmente se temia, houve sobreviventes entre os elementos da comunidade luso-descendente, que foram deixando o seu testemunho nos dias e semanas que se seguiram à tragédia. Entre eles encontrava-se Ratna Willys, que eu conhecera no início das minhas investigações e que agora revia com todo o prazer. Uma Ratna Willys com um olhar ainda mais triste e distante. Sobrevivera ao tsunami porque habitava nos arredores da cidade. O mesmo não se pode dizer da sua irmã Marzuki Ayah Te, residente no bairro de Padang Seurahit, totalmente arrastado pela fúria das águas. Popy Diana, a irmã mais nova, essa, vivia em Meulaboh, a pequena cidade da costa oeste varrida do mapa… Restava-lhe uma quarta irmã, que anos antes se casara com um comerciante chinês e se mudara para Langsa, na costa oeste, perto de Medan, o quinhão de Samatra poupado à devastação. Só depois de me contar tudo isto, de lágrimas nos olhos, me pediu para que não lhe falasse mais do passado.

Ambos evocámos, contudo, a memória de Abdula, empregado do pequeno hotel onde fiquei alojado, o “Uncle´s Homestay”, e que me colocara na senda da gente de Lamno. Dissera-me ele, em 2002: «– Aí vivem muitas famílias de descendentes de portugueses, embora as mulheres mais bonitas tenham já sido levadas pelos homens de negócios de Jacarta. Graças a isso, é possível encontrar gente de Lamno em toda a Indonésia».

Dizia Abdula que, em certa ocasião, tinha metido conversa, em Inglês, com uma mulher que julgava ser ocidental e que esta lhe tinha respondido em bahasa indonésio. «– Era uma dessas portuguesas de Lamno. Nem imagina a vergonha por que passei».

Para minha surpresa, o homem demonstrou ter alguns conhecimentos quanto ao quotidiano dos embarcadiços do século XVI: «– Naquele tempo as embarcações levavam apenas homens». A propósito do naufrágio da nau que esteve na origem da comunidade de Lamno, mencionou a «lenda da areia movediça», que em dialecto local se diz “lam”, termo facilmente identificável com o nosso “lama”. Para Abdula, “lam”, areia movediça, era uma metáfora que designava as mulheres achéns, com quem esses portugueses se viriam a casar e a constituir família. Segundo a lenda, quando os achéns avistaram os náufragos rogaram-lhes que não avançassem, pois o terreno era pantanoso, ou seja, “lam”. Aqueles, porém, ignoraram o aviso, tendo por isso ficado presos nas areias, «afundaram-se em Lamno». Quer dizer: perderam a identidade, acabando por esquecer os seus sobrenomes e a sua língua natal. Ironia das ironias, séculos depois, seria a lama, empurrada pela força das vagas de um mar em fúria, que os faria desaparecer para sempre.

Abdula apresentar-me-ia depois a Andy Ikshan, jovem funcionário «do sector da manutenção das vias públicas», de 26 anos. Assumindo-se como luso-descendente, dissera-me que o seu avô do lado materno era nativo de Lamno. A mãe também lá nascera. O pai, esse, era puro achém, «nado e criado em Banda». Ikshan, sabendo ao que eu ia, logo me falou de uma tia de olhos azuis, também ela residente em Banda. Um dia depois deparava-me, para meu espanto, com uma senhora totalmente europeia, não fosse o nariz achatado. Chamava-se Ratna Willys, tinha 49 anos e estava casada com um achém de 51.

Enquanto percorria a centena de quilómetros de costa que separa Banda Aceh de Lamno, confrontado com uma notória alteração da paisagem (gigantesca ferida não totalmente cicatrizada), fui revivendo as impressões da viagem anterior.

Atravessava uma zona de intensa actividade guerrilheira. Comprovavam essa realidade as barreiras, primeiro do exército, depois da polícia militar, a denominada Brimob (brigada móvel), à entrada e saída de todas as povoações ao longo do caminho, por mais pequenas que fossem. Pneus, ripas de madeira, arame farpado, tudo servia para intimidar e controlar.

Visualizei mentalmente os coloridos estaleiros de barcos de pesca de Nhg Ko e Lamouk, a dezassete quilómetros de Banda, e a esplêndida panorâmica que me proporcionara o topo de um outeiro a escassa distância de Lamno. Dali avistava-se uma sucessão de palmeirais e campos de arroz, seguidos de uma povoação quase plantada no mar. Soube mais tarde que se tratava de Kuala Daya, a mais “portuguesa” dessas aldeias.

O marco quilométrico Lamno/2km, colocado na colina sobranceira ao vale de Lamno, continuava no mesmo sítio. Tudo o resto, lá em baixo, fora pura e simplesmente varrido da paisagem.

Joaquim Magalhães de Castro

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