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Poderemos demonstrar a existência da Causa Primária?
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Filosofia, uma dentada de cada vez (78)

Poderemos demonstrar a existência da Causa Primária?

Poderemos demonstrar a existência da Causa Primária? Primeiro, o que queremos dizer por “demonstrar”? Demonstrar é mostrar algo que não podemos conhecer directamente (exemplo: uma realidade não nos é evidente por si só. Ela é verdadeira recorrendo a algumas verdades que são por nós melhor conhecidas).

São Tomás dizia que existem dois tipos de demonstração: (1) a demonstração “propter quid” e (2) a demonstração “quia” (ver Suma Teológica).

A demostração “propter quid” também é conhecida como demonstração “a priori”. Isto porque o raciocínio começa com a causa ou o princípio universal e conclui com o efeito particular, efeito concreto ou aplicação. É chamada de demonstração “a priori” porque começa com o que na realidade, ou de facto, vem primeiro: a causa (o efeito, esse, vem depois). Aristóteles chamava dedução a este tipo de raciocínio.

Segue-se um exemplo simples de dedução: Todos os seres humanos morrerão (Princípio Universal). Sócrates é um ser humano. Sendo assim, Sócrates morrerá (Aplicação Particular).

Por outro lado, a demonstração “quia” (também conhecida como demonstração “a posteriori”) vai no sentido oposto: ela começa com o efeito e conclui com a causa. É chamada “a posteriori” porque começa pelo que na realidade vem depois: o efeito. Aristóteles chamava indução a este tipo de raciocínio.

As ciências naturais, como a biologia, fazem uso intensivo deste tipo de demonstração. Pela observação da ocorrência de um dado fenómeno é possível formularem-se princípios gerais.

Na realidade, a pesquisa científica usa normalmente ambas as formas (de demonstração). Aristóteles via a pesquisa científica como um processo para se fazerem observações, e daí se extraírem princípios genéricos (indução). Mas depois, aplicamos os princípios genéricos a casos específicos (dedução).

Note-se que a indução tem por certo e garantido que a natureza actua sempre da mesma maneira dadas as mesmas condições. Este facto é fundamental à ciência. Se o mundo estivesse em constante processo de mudança, não poderíamos estabelecer nenhum tipo de base científica. Assim, a ciência aceita implicitamente conceitos filosóficos, tais como “essência” e o princípio da não contradição.

Poderemos demonstrar a existência da Causa Primária? São Tomas disse ser possível. Quando um efeito nos é mais manifesto que a sua causa, chegamos ao conhecimento desta. Ora, podemos demonstrar a existência da causa própria de um efeito, sempre que este nos é mais conhecido que aquela. Dependendo os efeitos da causa, a existência deles supõe necessariamente a preexistência desta. Por onde, não nos sendo evidente, a existência de Deus é demonstrável pelos efeitos que conhecemos. (Suma Teológica).

Uma última nota: Mencionámos os termos “a priori” e “a posteriori”. O significado dessas duas expressões mudaram com Immanuel Kant (1724-1804). Nos primórdios da filosofia, as duas expressões referiam-se aos processos de raciocínio. Com Kant, estas duas expressões passaram para um nível de apreensão simples ou de julgamento (ver FILOSOFIA, UMA DENTADA DE CADA VEZ, nº 7), especialmente com referência a experiências sensoriais.

Ao contrário de Aristóteles, que nos ensinava que as nossas mentes são “tanquam tabula rasa” (“como uma lousa em branco onde ainda nada foi escrito”) quando nascemos, Kant afirmou que ainda antes de experimentarmos o mundo exterior já temos, anterior a essa experiência, algum conhecimento: conhecimento “a priori”. Mas também admitiu que adquirimos algum conhecimento posterior depois de termos experiências sensoriais: conhecimento “a posteriori”. Vale a pena descobrir as diferenças entre Kant e São Tomás.

Pe. José Mario Mandía

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