Críticas ao monarca

Costa da Memória

Críticas ao monarca

Mais caricato ainda foi o que se passou na tenda montada no passeio marítimo, onde a comitiva jantou, observando barcos de pesca e ferries, aos círculos na baía em frente, apitando incessantemente as sirenes e atirando uns foguetes luminosos que para surtirem algum feito visual teria de fazer noite, o que não era o caso. Na praia em frente, grupos de crianças em idade escolar acenavam continuamente bandeirinhas multicoloridas. Não viram, os delegados, o lixo que cobria o areal mais afastado, quando, nos autocarros precedidos de autotanques dos bombeiros, motos da polícia e carros pretos, deixaram o local, sob o aceno tímido de alguns populares. Na tenda patrocinada pelo traiteur Rahal, fornecedor oficial do evento, foi um ver-se-te-avias de pessoas a disputar os restos do repasto, o que gerou algumas cenas menos dignas. A maioria ansiava decerto degustar novos sabores, embora houvesse no grupo gente com um aspecto menos nutrido.

Com certeza não ajudaria a uma decisão positiva por parte do comité da BIE a atitude do polícia à paisana que me interpelou depois de me ter visto a fotografar o evento e a conversar demoradamente com uma professora, membro da Associação de Mulheres Muçulmanas. Acompanhava um grupo de crianças de famílias difíceis e sem possibilidades financeiras, e vaticinara «vinte e cinco por cento de possibilidades» à candidatura de Tânger. Quis saber o agente qual o assunto tratado com ela e alegou razões de segurança para me analisar à lupa o passaporte. Eis a prova provada de que, em Marrocos, as declarações de democracia plena não passavam de palavras bonitas.

Para o berbere Abu, comerciante com loja no Grand Socco, que arriscava uns 75 por cento de probabilidades de Tânger vir a acolher a Expo 2012, o melhor sinal do «total descrédito na endinheirada classe política» fora a fraca participação nas mais recentes eleições. Votaram apenas cinco por cento dos eleitores. Abu não partilhava do entusiasmo do editorialista do Le Matin, mencionando um rei cuja «mobilidade tonifica o País»; um rei empenhado na «reforma, mudança e inovação»; referindo a sua presença no lançamento de uma série de projectos nas antigas praças-fortes portuguesas de Azamor e Safim. O laudatório texto falava em «ubiquidade real». Para Abu, o monarca não passava de um ditador que «apenas serve os capitalistas». Ou seja, os cinco por cento que tinham votado «e que detêm toda a riqueza do País». Quanto à suposta ubiquidade real, o berbere contradizia-a dando como exemplo as ainda recentes chuvadas torrenciais na região desértica fronteiriça à Argélia, causadoras de medonhas inundações, pois o solo daí não tem qualquer capacidade de absorção.

«– O rei só visitou aquela gente, que tudo tinha perdido, quatro semanas após a tragédia», comentava. «– E foi para distribuir umas migalhas em forma de compensação monetária».

A candidatura de Tânger viera inflacionar, e muito, os terrenos e pôr em valor o sector do imobiliário. Novos empreendimentos estavam à vista, havendo nos subúrbios da cidade talhões e talhões de terreno com vivendas em fase final de acabamento.

«– Um metro quadrado é mais caro aqui do que em Málaga», garantia Abu.

Entre as infra-estruturas relevadas para tentar impressionar os delegados da BIE contava-se a estrada em construção frente ao porto. Uma vez concluída, contornaria a cidade até ao cabo Espartel, “obra de uma empresa portuguesa”. Em concorrência com os portugueses, neste género de empreitadas, estavam os turcos, os espanhóis e os coreanos.

Havia toda uma retórica poética quando se mencionava Tânger, “a porta de entrada para Marrocos”. Tânger era o porto e os mercados com odores a menta, incenso e carne grelhada. Era os jardins do sultão e a sumptuosidade dos tectos do palácio de Dar-el-Makhzen. Quando se falava em Tânger discutiam-se os secretos atributos que inspiraram os inúmeros artistas que nela viveram ao longo dos séculos, embora se ignorasse a pobreza expressa nos grupos de desempregados que enchiam os jardins durante o dia e os cafés à noite, a consumirem todo o futebol que houvesse para consumir.

Essa realidade, não a viram os delegados responsáveis pela atribuição da tutela de tão apetecido evento, no qual se revia todo o continente africano. A esse respeito, a revista Le Reporteur intitulava, em jeito de questão: “Vitória, sim ou não?”.

Fazer do Norte de África uma extensão de Portugal era um dos objectivos de D. Afonso V, que centraria todas as suas preocupações políticas nas campanhas militares além-mar. A praça de Alcácer Ceguer seria a primeira das façanhas. Com apenas vinte e seis anos e um exército de vinte e cinco mil homens, o jovem monarca conquistou-a em 1458, tendo transformado a mesquita em igreja e armado cavaleiros vários fidalgos, como era hábito. A praça viria a sofrer dois cercos prolongados, de vários meses, levados a cabo pelo rei de Fez, que nunca se conformou com a perda de mais um porto (o primeiro fora Ceuta). E seria tal a resistência, que Alcácer jamais seria recuperada pelos mouros, constituindo, ainda hoje – o que resta dela – o único exemplo de uma típica cidade portuguesa dos séculos XV e XVI.

Joaquim Magalhães de Castro

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