A Igreja Católica na Rússia

Sofrimento, resiliência e acção

A Igreja Católica na Rússia

Segundo os censos de 2011, a população da Rússia contava 143,5 milhões de habitantes, no maior país do planeta, que se estende por 17 124 442 km2, abarcando 13 por cento da água da Terra, com mais de cem povos e línguas. Eis a Rússia, terra imensa, sem fim, variada e cheia de contrastes, de povos e credos. Dominada pela Igreja Ortodoxa Russa, a qual hoje conta, de acordo com os seus números, perto de 58 por cento da população, embora dados mais neutros revelem que essa cifra se poderá situar na ordem dos 40-41 por cento da população, embora em crescendo. Todavia, a sua força e influência são determinantes na marcha de vida da Rússia actual. Os muçulmanos são a segunda componente religiosa na Rússia a seguir à população cristã (maioritariamente ortodoxa, como vimos), com dez milhões de fiéis (alguns fóruns internacionais apontam mais do dobro dessa cifra), seguidos dos budistas com perto de 700 mil seguidores (dois milhões de acordo com outras estatísticas) e depois os católicos, a par de vários credos não cristãos e de outras minorias. Recordemos que a população ateia ou agnóstica, sem religião ou credo, na Rússia, permanece na ordem dos vinte por cento da população, senão mais, herdeira ainda das “tradições” marxistas-leninistas da era soviética (1917-91), profundamente anti-religiosas.

Mas vejamos então a situação dos católicos na Rússia. Serão aproximadamente 0,5 por cento da população, ou seja, 760 mil habitantes (ou 717 mil, segundo outros dados), de acordo com o “Anuário Pontifício de 2012” (Santa Sé). De acordo com a publicação da organização PEW Research Center, “Christian Population as Percentages of Total Population by Country 2010”, reeditado em Outubro de 2015, essa percentagem da população católica na Rússia é confirmada, como o é por outros estudos internacionais independentes, além de relatórios de departamentos estatais de vários países.

Todavia, há outras avaliações da situação da Igreja Católica na Rússia. Por exemplo, quer o “Arena – Atlas of Religions and Nationalities in Rússia” quer o “Survey Maps, in Ogonek”, nº 34 (5243), de 2012, apontam cifras mais baixas, 150 mil habitantes a professar a fé católica, ou seja, 0,1 por cento da população russa. Refira-se que estes estudos poderão enfermar de imprecisões, senão mesmo estar ligados a lóbis político-religiosos russos. Poderíamos interpretar também, em certa medida, esses números como pertencendo aos russos étnicos católicos, pois a maioria da população católica da Federação Russa não pertence a esse grupo étnico, mas sim a grupos germânicos, lituanos, ucranianos, bielorrussos, bem como a minorias polacas ou arménias, além de outros povos. E recorde-se que muitos destes grupos étnicos têm registado o “regresso” de muitos dos seus efectivos às “pátrias” de origem, como os alemães, por exemplo, o que reduz ainda mais a componente católica da população russa. Todo um conjunto de cenários que revelam o perene contexto, afinal, das históricas dificuldades da Igreja Católica na Rússia. Mas diga-se em abono da verdade: existem milhares de católicos na Rússia, existem há séculos e têm sobrevivido a dificuldades, perseguições, problemas contínuos, num quadro geral que nunca foi novidade para a Igreja Católica e tem sido até o seu maior incremento e sentido de vida e missão: sofrimento, resiliência e acção.

A Constituição russa prevê a liberdade religiosa, a qual em geral é observada pelas autoridades, que no entanto impõem restrições pontuais que acabam por inibir ou dificultar a acção e labor de credos fora do âmbito da Igreja Ortodoxa Russa, como a Igreja Católica, entre outras instituições ou associações religiosas. Vistos de permanência para clérigos católicos são dificultados, ou restringidos a períodos muito curtos, numa Igreja que depende ainda muito dos sacerdotes estrangeiros. A igualdade entre religiões perante a lei está também prevista na Constituição, que inscreve também a separação entre o Estado e a(s) Igreja(s) como imperativo, mas a realidade é outra, bastando analisar a situação das várias tentativas de construção de igrejas católicas no País, por exemplo, entre outras dificuldades, como a aquisição de propriedades ou seu usufruto.

A Igreja Católica está na Rússia há mais de mil anos. Desde as embaixadas a cortes germânicas e envio de missionários para as terras de “Rus”, de Novgorod, no Norte, a Kiev, na Ucrânia, cada vez mais com relações com Roma, como atestam missões e “embaixadas” de vários Papas às terras russas, depois com missões de ordens religiosas, como os dominicanos, além da influência das cristandades escandinavas e bálticas, da Polónia também, todo um conjunto de laços foram sendo criados com a Igreja Católica, embora com choques e disputas com a toda poderosa Igreja Ortodoxa Russa, através do seu Patriarcado de Moscovo, no quadro da situação pós-Grande de 1054. Sempre minoritária, acossada, à mercê de casamentos de princesas e príncipes, do estado das relações entre Moscovo e a Santa Sé, das alianças políticas dos czares ou da entrada de vagas de colonos provenientes do Ocidente, como os “Alemães do Volga” trazidos no séc. XVIII pela czarina germânica Catarina II a Grande, assim foi-se mantendo a Igreja Católica.

Em 1917, data da Revolução Soviética e instauração do marxismo ateu e monopartidário e o fim da monarquia, existiam duas dioceses: Mogilev (com a sede em São Petersburgo) e Tiraspol (com sede em Saratov), com 150 paróquias, 250 sacerdotes e 500 mil fiéis. Em finais dos anos 30, existiam apenas duas igrejas na Rússia dos Sovietes: São Luís, em Moscovo, e Nossa Senhora de Lourdes, em São Petersburgo. E perseguições, assassinatos, deportações para gulags, dificuldades sem fim. Uma das razões era depender de um poder externo, fora da Rússia: Roma!

Em 1991 renasceu a Igreja Católica, sendo reconhecida juridicamente pelo Estado. O renascimento muito se deve ao arcebispo bielorrusso D. Tadeusz Kondrusiewicz, na arquidiocese da Mãe de Deus Moscovo (criada em 1991 e elevada a este título em 2002), a metropolita russa e uma das quatro dioceses do País: as outras são São Clemente de Saratov, Transfiguração de Novossibirsk e São José de Irkutsk, todas assim criadas em 2002 (anteriormente eram administrações apostólicas). As duas últimas são na Sibéria, onde o catolicismo tem crescido. Em 2007 D. Paolo Pezzi, italiano, foi nomeado novo arcebispo de Moscovo. Na Rússia actual existem 300 paróquias católicas e 270 sacerdotes, maioritariamente estrangeiros. O Seminário Maior “Maria Rainha dos Apóstolos” em São Petesburgo é o único em funcionamento, com cinquenta estudantes, sendo reitor o monsenhor Pietro Scalini, italiano também. Uma Igreja a crescer, refira-se!

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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