A IGREJA CATÓLICA NA INDOCHINA

A Igreja Católica na Indochina

Fé em tempos de Guerra

Nem só de guerra e sofrimento tem vivido a Indochina, o Vietname, o Laos e o Camboja, mas nem sempre os tempos têm sido de mel para esta região asiática. O fel tem, na sua história recente, marcado presença, não só na história da Igreja Católica da região, mas em todas as faces do seu contexto histórico-geográfico. Tempos difíceis com amanhãs de esperança, longe se esperam estar os ocasos de dor e as madrugadas sangrentas e devastadas das guerras e tragédias desde, pelo menos, a Guerra do Pacífico (Segunda Guerra Mundial, 1939-45).

Mas falemos da história da Igreja na região, no todo e no particular de cada um dos três países. Estes apenas porque optámos pela Indochina em sentido restrito, correspondendo à antiga “Indochina Francesa”. Myanmar (“Indochina Britânica”), Tailândia e Península Malaia (com Singapura), fazem parte do sentido mais lato do conceito histórico-geográfico, nem sempre consensuais ou assim considerados esses países como “da Indochina”.

Começando pelo Reino do Camboja, onde 95% da população (15 milhões de habitantes) professa o Budismo (Theravada), a Igreja Católica ocupa uma franja reduzida, embora com uma longa história. Independente da França em 1953, o Camboja regista cerca de 450 anos de labor missionário. Hoje subordinado directamente à Santa Sé, o Camboja viu na figura do dominicano português Gaspar da Cruz, em 1555-56, o primeiro missionário católico. Naquele tempo, como depois, a forte implantação do Budismo, religião de Estado, converteu aquela missão num fracasso, dada a resistência da população e dos monges. As visitas de missionários do Padroado Português do Oriente sucederam-se, mas com poucas conversões e muitas dificuldades. A colonização francesa, iniciada em 1863-67, terminou em 1953. A Sociedade das Missões Estrangeiras de Paris (MEP) trabalhou na região desde fins do séc. XVIII, a par da colonização francesa. Todavia, sem grandes resultados. Em 1953, os cristãos (maioritariamente católicos) eram 120 mil (50 mil vietnamitas). Em 1972, por exemplo, em plena República Khmer (1975-93), comunista, contavam-se 20 mil cristãos no País, contra, dois anos antes, de 62 mil. A repatriação de vietnamitas entretanto baixou o número. Os que ficaram eram na maioria ou franceses ou euroasiáticos descendentes de franceses. Hoje, entre o Vicariato Apostólico de Phnom Penh e as Prefeituras Apostólicas de Battambang e Kompong Cham, subsistem 20 mil apenas, 0,15% da população.

No Laos (colónia francesa entre 1893 e 1953), a Igreja Católica é também minoritária, numa população de 6,5 milhões de habitantes (maioritariamente budistas, Theravada), contanto com 43 mil fiéis (0,6% da população), boa parte deles vietnamitas (ou as etnias Khmu e Thai Deng, nas montanhas). O Laos é um Estado socialista monopartidário, o qual só reconheceu o Catolicismo oficialmente em 1991, depois de perseguições e dramas, com os últimos cinco missionários a abandonar o País em 1976. As missões católicas no Laos iniciaram-se no séc. XVII, com os padres jesuítas, a que se seguiram as da MEP e mais tarde, a partir de 1935, com os missionários dos Oblatos de Maria Imaculada. O Vicariato Apostólico do Laos foi fundado em 1899. Em 2008 eram quatro os vicariatos apostólicos: Luang Prabang, Paksé, Savannakhet e Vientiane, directamente dependentes da Santa Sé. Contavam em 2005 com 123 paróquias, 14 sacerdotes, 88 religiosas. Fazem parte da Conferência Episcopal do Laos e Camboja.

O Vietname é a terceira maior cristandade católica no Sudeste Asiático, a seguir às Filipinas e à Indonésia. Colónia francesa entre 1858 e 1954 (o País só se unificaria, porém, em 1976), A República Socialista do Vietname conta com sete milhões de católicos, em 92 milhões de habitantes. Entre luzes e sombras, dificuldades de acção e missão, evangelização difícil, ainda existem assim no Vietname três arquidioceses e 26 dioceses, 44 bispos, três mil e 200 presbíteros diocesanos e mil e 100 religiosos (mais dois mil e 300 irmãos religiosos), em trinta congregações masculinas (uma das quais monástica, cisterciense), além de 16 mil religiosas, em 65 congregações, bem como 16 institutos seculares. A diáspora vietnamita é grande, com mais de três milhões de pessoas em 37 países, boa parte dos quais católicos. Os seminaristas no Vietname são dois mil, tendo-se registado um crescimento de vocações nos últimos dez anos de 50%. O número de paróquias é superior a duas mil e 200, contando mais de 53 mil catequistas. A religião católica neste país de regime comunista, monopartidário, vive no limite da legalidade, ou da clandestinidade, entre perseguições, proibições e não reconhecimento oficial de relações com o Vaticano. Só em 2007 começaram a descongelar, com a vinda do primeiro representante da Santa Sé, depois da interrupção de 1976. A “Associação dos Católicos Patrióticos e Amigos da Paz” é a única instituição católica oficial, criada pelo Estado.

Franciscanos, Dominicanos, Jesuítas, portugueses ou hispano-filipinos, desde 1533 que aportam às costas de Tonquim, Anam, delta do Mekong, tentando missionar. Alexandre de Rhodes, SJ, francês, em 1627, foi o primeiro missionário efectivo e perene, criando a “Casa do Senhor dos Céus” ((Nha Duc Chua Troi), para formar leigos e até sacerdotes entre as populações. Mas em 1630 a religião católica era proibida. Passava-se à clandestinidade, com sofrimento, afinal um destino da Igreja vietnamita… Os vicariatos apostólicos de Tonquim e da Cochinchina foram criados em 1659; em 1670 realiza-se o primeiro sínodo de bispos, em Nam Dinh. A Santa Sé reconheceria, em 1673, a “Casa do Senhor dos Céus”. Depois, perseguições, martírios, missões em perigo, com o imperador, em 1825, a declarar que «a religião perversa dos Europeus corrompe o coração dos homens». Massacres de missionários (dominicanos e da MEP) registam-se no séc. XIX. A colonização francesa apaziguou a situação, incrementou e criou condições para as missões, dando-se forte crescimento das cristandades vietnamitas. Hoje, a Igreja o Vietname cresce, mau grado as dificuldades, entre guerras, entre luzes e sombras, mas com coragem e caminho a fazer.

Vítor Teixeira

Universidade de São José

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