A CRUZ E O CRESCENTE

A Cruz e o Crescente

A Igreja no Mundo Islâmico

O Islão nasceu no Médio Oriente. Nesta região do Globo, na Ásia Ocidental, cerca de seis séculos antes, nascera o Cristianismo, que foi a religião predominante durante esses séculos. Todavia, passados dois mil anos, o Cristianismo já não representa mais de 5% de toda a população do Sudoeste Asiático. Muito menos que há cem anos. Mesmo noutras nações maioritariamente islâmicas, noutras partes da Ásia e da África, o Cristianismo mantém-se na mesma proporção. Forte minoria, os cristãos tendem, apesar desse epíteto histórico, a diminuir gradualmente. As principais causas são a natalidade mais elevada entre os muçulmanos, a emigração e as perseguições. No Médio Oriente e no Magreb (Norte de África), preponderantemente muçulmanos, os cristãos, nos seus diversos ritos e obediências, não ultrapassam os 14 milhões de fiéis (ou 16, segundo vários organismos), podendo vir a sofrer nas próximas décadas uma redução para metade dessa cifra, de acordo com organizações internacionais. O Egipto possui a maior parte dessa população cristã, com dez milhões (coptas), seguido da Síria (dois milhões), do Líbano (importante comunidade de 1,8 milhões), a Jordânia, a Turquia, o Iraque e o Irão, entre outros. Em certos países, como a Arábia Saudita, não existem cifras seguras, mesmo oficiosas, dada a “ilegalidade”. O “oásis” cristão em pleno mundo islâmico é, desde há mais de mil anos, a Etiópia, onde o Cristianismo, apesar de problemas conjunturais, tem mantido preponderância e estabilidade. De realçar ainda que na maior nação islâmica do mundo, a Indonésia – 195 milhões de muçulmanos em 230 milhões de habitantes – os cristãos contabilizam cerca de 28 milhões de fiéis, em aumento, mau grado certas dificuldades.

Os cristãos, segundo fontes do Vaticano, como também outras, de instituições laicas, são o grupo religioso mais perseguido na actualidade. Se atentarmos na lista dos dez países que mais perseguem os cristãos, só um não é muçulmano (ou maioritariamente): a Coreia do Norte, que figura, aliás, no topo da lista. Somália, Síria, Iraque, Afeganistão, por esta ordem, Arábia Saudita , Maldivas, Paquistão, Irão e Iémen são os países que seguem na lista, a qual, maior fosse, incluiria ainda mais nações islâmicas. Poderíamos recordar o caso da Argélia, tristemente célebre pelo assassinato de sete monges trapistas (Cistercienses de Estrita Observância) do mosteiro de Tibhirine, perpetrado pelo Grupo Islâmico Armado (GIA), em 1996. O Egipto, a Indonésia e a Nigéria, ou o Sudão, a Turquia ou a Tunísia, o pequeno Butão ou a Índia (nos seus Estados com forte presença islâmica, como Jammu e Caxemira), são outros dos países onde as comunidades cristãs têm sentido intolerância e problemas de coexistência religiosa e social, redundando em perseguições, assassinatos e destruição de igrejas, quando não de grande parte das comunidades. Em muitas regiões a destruição material de templos para substituição por mesquitas tem causado violência e situações extremas, por exemplo. Não falaremos aqui de conversões do Islão ao Cristianismo, um tema altamente sensível e revestido de drama, fuga e dor em grande parte dos casos, conhecidos. Se compararmos as nações onde o Islão maioritário mais situações de intolerância tem criado para com os cristãos, e os principais focos de conflito e instabilidade no mundo actual, a correspondência entre vários casos prefigurará cenários de violência e dor e adivinhar-se-ão a instabilidade religiosa e as diásporas forçadas. Mesmo em casos de processos políticos violentos ou de guerra contra Estados ou outros grupos, como os palestinianos, mesmo no seio da comunidade existem intolerâncias dos muçulmanos maioritários face aos cristãos, perseguidos e secundarizados. Mesmo estando no mesmo “lado do conflito”…

Mas se olharmos para a frondosa árvore do Cristianismo no Médio Oriente e Norte de África, Ásia do Sudoeste, enfim, poderemos constatar que tal se deve a um passado de irradiação cristã multiplicada por conversões e surgimento de comunidades, observâncias e ritos. Irradiação que coabitou com o Islão durante séculos, num clima de tolerância, ainda que marcado por conflitos, desencadeados ora por uns, ora por outros, como as Cruzadas dos Cristãos, por exemplo, ou conflitos regionais despoletados por muçulmanos. Assim, entre as várias Igrejas cristãs, encontramos, além de coptas ortodoxos e católicos, os católicos do Patriarcado Latino de Jerusalém (e comunidades dispersas pelo Médio Oriente), assírios divididos entre caldeus católicos e assírios orientais (ortodoxos), maronitas (união com Roma), siríacos ortodoxos e siríacos católicos, arménios (católicos e apostólicos arménios), georgianos ortodoxos, várias Igrejas ortodoxas autocéfalas, gregos ortodoxos (Igrejas de Antioquia, Alexandria, Árabes, Jerusalém, Sinai), gregos católicos (melquitas), entre outros grupos, são as principais Igrejas cristãs, a que poderíamos somar os cristãos de Rito Malabar (Índia), os ortodoxos etíopes ou os ortodoxos da Eritreia, além de cristãos evangélicos e protestantes. O Grego, o Árabe, o Arménio, o Georgiano, o Siríaco, o Aramaico, Amárico, entre outras, são as línguas litúrgicas destes grupos, que correspondem aos mesmos grupos étnicos e a muitos outros, que professam estes ritos.

Poderíamos estender-nos a referir outros grupos, mais pequenos, ou já extintos, memórias que seriam de um passado que foi mais marcado pela tolerância e convivência, pelo pluralismo, do que são os dias de hoje, mais dolorosos e sofrentes, onde os mártires são novamente “testemunhos” dos novos tempos. Nesta região onde até se pensa ter sido o Paraíso do Génesis, terra de Patriarcas, de Profetas e de carismas que marcam o devir da Humanidade até hoje. E sempre.

Vítor Teixeira

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