MARIA LÚCIA, IRMÃ FRANCISCANA, SOBRE A DIVERSIDADE CULTURAL

Maria Lúcia, Irmã Franciscana, sobre a diversidade cultural

Falta o Transcendente

Macau tem o sonho de ser o melhor em tudo, mas a nível cultural esquece-se do grande Valor, o Transcendente, que segundo Maria Lúcia enriquece o território, em vez de ser algo para que apenas outros vejam. Em entrevista a’O CLARIM, a irmã franciscana também falou sobre a estreia do coro “Paz e Bem” com músicos da Escola Portuguesa de Macau, da crise de valores na Europa e da ligação familiar ao Milagre de Fátima.

O CLARIMEstá em Macau desde 9 de Outubro de 2013. Qual a sua missão como Franciscana Missionária de Nossa Senhora?

MARIA LÚCIA – É falar de Jesus ao jeito de Francisco de Assis na catequese e na pastoral da família, das crianças, dos jovens e dos adultos, sobretudo através da música.

CLO que está planeado?

M.L. – Comecei por criar um coro com cerca de vinte vozes que terá o nome “Paz e Bem”. A sua estreia será no dia 4 de Outubro, pelas 18 horas, na Sé Catedral, por altura da eucaristia solene em homenagem a São Francisco de Assis, que é o padroeiro de toda a ordem franciscana. A missa será presidida por D. José Lai. Vai também haver uma encenação à volta do poema atribuído a São Francisco de Assis, mas rezado como se fosse dele: “Senhor, Fazei de Mim o Instrumento da Vossa Paz”. E vamos terminar com o cântico “Longe de mim gloriar-me senão na Cruz do Senhor Jesus Cristo”, extracto de uma carta pastoral de São Paulo aos Gálatas que São Francisco de Assis repetia muitas vezes.

CLHaverá acompanhamento instrumental?

M.L – Temos quatro violinistas, um violoncelista e dois flautistas, todos alunos da Escola Portuguesa de Macau que se juntaram ao coro após uma visita por mim efectuada [à instituição de ensino], onde fiz uma pequena apresentação sala a sala. Estou à espera de confirmar mais um músico da Academia de Música de São Pio X.

CLEstá optimista?

M.L. – Desta estreia pode partir muita coisa…

CLPode concretizar?

M.L. – Podemos partir para o alargamento do programa litúrgico religioso para outros cânticos sérios, mas não propriamente religiosos. Podemos alargar para estimular as pessoas à divulgação de um CD, ou DVD, para publicar a riqueza interior que pode vir de um cântico religioso, através da compreensão das palavras, dos textos e também para se interpretar melhor a música que se canta.

CLTem esperança no projecto a que se propõe realizar, numa sociedade bastante conservadora onde o catolicismo é minoritário?

M.L. – Por haver uma gota de água, não quer dizer que não pertença ao oceano. Portanto, a pouco e pouco podemos fazer um grande mar e não vou morrer desta esperança. Tenho a certeza que se soubesse falar Mandarim, Deus poderia fazer mais por nós. Por isso, estou a aprender…

CLMacau é um território multicultural. Será que a oferta cultural está aquém do desejado? Ou será que já contempla um programa substancialmente rico?

M.L. – Pelo que vejo através da televisão e leio na Imprensa, sinto que há um sonho muito grande de Macau em ser quase o centro de toda a cultura mundial. Prima por ser o primeiro em tudo, a nível da demonstração cultural, científica, artística e desportiva…

CLMas?

M.L. – Mas falta um grande Valor, que nós, como missionárias, gostaríamos de ajudar a descobrir nos irmãos de Macau, independentemente da raça, cultura ou religião. Falta o grande Valor: a descoberta e a atracção pelo Transcendente.

CLOu seja…

M.L. – Sinto que há vontade em fazer as coisas, mas parece-me que se está a construir a casa pelo telhado, sem alicerces. Em Macau há muita coisa para que os outros vejam, mas não quer dizer que se parta do íntimo. Uma casa construída sem alicerces pode ficar em ruínas. Através da música pode-se fazer muito para se chegar ao coração das crianças, dos jovens e dos adultos.

CLE na Europa?

M.L. – Infelizmente a crise de valores é muito forte porque impera o materialismo e está espalhada a indiferença pelos valores de Deus. Aliás, nota-se essa indiferença em todo o mundo, nuns lugares mais do que noutros.

 

O Milagre de Fátima (CAIXA)

Maria Lúcia Fonseca nasceu em Olival, a cerca de dezasseis quilómetros de Fátima (Portugal). Recebeu o nome em homenagem à vidente Lúcia, que presenciou, juntamente com os primos Francisco e Jacinta, o Milagre de Fátima, na Cova da Iria, em 1917. O pai foi um dos muitos milhares de pessoas que testemunharam o milagre do Sol, a 13 de Outubro de 1917. «Contava-nos que ouviu falar da aparição de Nossa Senhora e pediu aos meus avós para ir com eles. Tinha seis anos. [Já no local] ouviu, entretanto, a Lúcia dizer para a multidão: “Olhem todos para o céu”. O meu pai também olhou e viu o Sol andar à roda e nunca mais se esqueceu do que presenciou. Naquele momento, o Sol não feria a vista e depois nunca precisou de usar óculos. Contou-nos que viu um milagre autêntico, porque chegou-se a questionar se o Milagre de Fátima seria ou não verdade. Não é dogma de fé, mas eu acredito», descreveu. Maria Lúcia acrescentou que deve a vocação «ao ambiente familiar porque lá em casa havia uma grande devoção por Nossa Senhora e um cumprimento rigoroso dos deveres religiosos», mas também por causa da sua «“mana” mais velha, que está há 53 anos na Califórnia como missionária Franciscana Hospitaleira da Imaculada Conceição». A devoção por Nossa Senhora resulta de certas manifestações religiosas que aconteceram no seio da família, mas que preferiu guardá-las consigo.

PEDRO DANIEL OLIVEIRA

pedrodanielhk@hotmail.com

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *