2015, o “Ano da Graça”

2015, o “Ano da Graça”

A grande maioria dos portugueses terminou as suas férias ou, pelo menos, aqueles que as puderam gozar, uma vez que são cada vez mais os desempregados a aproveitar o Verão para ganharem uns “cobres” em empregos sazonais.

Este “querido mês de Agosto”, que agora terminou, funcionou como um escape para as preocupações de um quotidiano cheio de problemas.

Como se paga a renda, a água, a luz, o gás, os transportes, a comida, a roupa, os medicamentos e a escola dos miúdos com um salário mínimo de 485 euros, cada vez mais generalizado em Portugal, foi problema para resolver depois das férias. Férias são férias e os portugueses, durante um mês, quiseram eliminar todos os depressivos com alguns mergulhos nas praias ou em festas e romarias que, com a preciosa ajuda dos emigrantes, se multiplicaram pelas aldeias e vilas de Portugal.

Durante um mês as ralações ficaram na “nuvem cibernética” da memória, tentando recuperar algum espaço disponível para a alegria de viver.

O Primeiro-Ministro deu o exemplo, ao responder a uma jornalista que o interrogava sobre os mais recentes chumbos do Tribunal Constitucional… que estava de férias. Alguns ficaram zangados com a resposta! Como é que o PM de um país a passar por tantas dificuldades pode dar-se ao luxo de responder desta forma? Outros nem por isso e até estariam dispostos a conceder-lhe férias permanentes.

Mas à medida que se aproximava o fim do mês e num esforço para manter o “sonho das férias” o Governo começou a dar, doseadamente, “boas” notícias.

A dívida pública continua a subir, atingindo já 134% do PIB. Mas não faz mal! O Governo estima que em 2015 ( o “Ano da Graça”) ela vai descer para 128,7%…

Durante este ano as compras de bens e serviços pela Administração Pública (o Estado) deveriam baixar 10%, em relação a 2013. No entanto, durante os primeiros sete meses deste ano, aumentaram 0,4%. Não faz mal! O Governo estima resolver o problema até ao início de 2015 (o “Ano da Graça”).

Em Abril o Governo estimava que o crescimento económico para este ano seria de 1,2%, mas agora rectificou para 1%. Mas não faz mal! Com o reforço de mais 15% para o Ministério da Economia chegar-se-á a 2015 (o “Ano da Graça”) a crescer o dobro.

Este ano, e até agora, gastou-se menos com a Segurança Social (15,2%). Mas na verdade, entre os mais de 700 mil desempregados (fora aqueles que já desistiram de recorrer ao sistema), quase metade já não tem subsídio de desemprego e os que o recebem veem o seu valor cada vez mais reduzido, sendo que 50 mil pessoas ficaram sem complemento social para idosos, 60 mil sem rendimento social de inserção, 30 mil crianças sem abono de família e 25% das crianças portuguesas sentem o drama da pobreza infantil. Dizem que o desemprego diminuiu para 14,2%, mas na verdade uma grande parte do emprego foi criado pelo Estado através dos temporários cursos de formação que retiram os desempregados das estatísticas e não foi avaliado o impacto do emprego sazonal neste período de Verão. No entanto, o Governo espera que em 2015 (o “Ano da Graça”) e face ao aumento do crescimento económico possam ser corrigidas algumas “distorções”…

A receita dos impostos aumentou e permitiu ao Governo uma “folga” no Orçamento e uma indisfarçável alegria na comunicação ao povo de que “não iria aumentar mais os impostos”. Ficámos todos “contentes” e sem perceber porque é que se pressionou tanto o Tribunal Constitucional, considerando que os chumbos nos cortes dos rendimentos da população, propostos pelo Governo, viriam a ser uma derrocada económica para o País, quando afinal até havia dinheiro. No entanto, o Governo parece admitir que, talvez para 2015 (o “Ano da Graça”), se possa diminuir a actual e “brutal” carga de impostos.

Entusiasmados com as boas notícias, o povo ouviu ainda o Governo garantir que vai cumprir com a meta do défice para este ano, fixada pela “frau” Merkel, ou seja, 4%, e para 2015 ( o “Ano da Graça”) o valor será de 2,5%.

Como ninguém explica como vamos conseguir ser os “melhores da Europa” com a economia a abrandar, as exportações a descer e sem aumentar os impostos, pensa-se que a solução é vender o resto dos “tarecos”, como é o caso da “TAP que não anda, voa” (perdão “boa”).

Como é bom Portugal em férias e em vésperas de eleições. Em 2015 (o “Ano da Graça”) quem vier atrás que feche a porta!

Luis Barreira

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