O Nosso Tempo

Preconceitos, opiniões, certezas...

Preconceitos, opiniões, certezas…

A revolução de hábitos e atitudes, provocada pela informação audiovisual contínua, transformou o mundo num grande palco, em que o espectáculo nunca pára, em que a cortina nunca desce.

Algo pode ser objecto de notícia na outra parte do mundo, assim que fechamos a luz do candeeiro e nos dispomos ao sono reparador. Porque, fechando nós os olhos, a vida continua nos outros pequenos bairros (mesmo se com bandeira e hino nacional), das mais variadas geografias, de que se compõe o quadro completo da nossa aldeia global. E enquanto estamos a dormir, nasce-se e morre-se noutras paragens, ri-se e chora-se nos mais recônditos lugares do mundo, ganha-se e perde-se, ama-se e odeia-se, confraterniza-se ou iniciam-se lutos, apertam-se as mãos ou aponta-se a arma para liquidar inimigos…

FALAR DE TUDO

Umas horas sentados em frente ao ecrã de televisão, com ou sem “zapping”, ou dedilhando nas teclas do computador/telemóvel/iPAD ou outros “tablets” – e eis-nos perante centenas de semelhantes nossos que opinam sobre tudo. Sobre a economia. Sobre a astrologia. Sobre a climatologia. Sobre a política caseira ou mundial. Sobre Religião e Filosofia. Sobre música, ballet, teatro, cinema. E sobre desporto. E nele, sobre futebol, futebol, futebol, futebol…

E os analistas analisam, os observadores observam, os articulistas publicam artigos, os comentadores comentam. E fala-se, fala-se, fala-se, fala-se… debate-se, debate-se, debate-se… opina-se, opina-se, opina-se… Fala-se de tudo. E ainda bem!

 

MAS OUVE-SE O OUTRO?

Se falar é a “arte” sempre presente… ouvir, pelo contrário, é a grande Arte – omissa. O ouvir para compreender as razões, exteriores à nossa razão. Os argumentos, para além dos nossos argumentos. As certezas absolutas, para além das nossas certezas absolutas.

Devo confessar que, à medida que os anos passam, mais me intriga e seduz a questão de saber como formamos as nossas certezas. E o que lhes está tantas vezes na base: os preconceitos e as meras opiniões.

Como chegamos a acreditar no que acreditamos? E como podemos partilhar tais opções de vida com quem de nós discorda, nessa imensa praça pública digital que são hoje, antes de mais, as redes sociais?

O debate de ideias sereno, sincero, construtivo, respeitador, é possível? O mesmo é perguntar: pode evitar-se a ofensa do outro, a humilhação do outro, a desvalorização tantas vezes insultuosa do ponto de vista oposto?

Tal implica, naturalmente, exercermos a maior vigilância racional sobre as (des)vantagens do meio social em que se nasceu e ou se cresceu. E aceitar-se que, paralelamente ao planeta, mais ou menos harmonioso ou conflituoso, nos valores e na diversidade social, que foi sempre o nosso, há outros planetas igualmente mais ou menos fracturados a girar em torno do mesmo sol…

 

TUDO TEM UM PREÇO

Falar tem consequências. E falar de uma certa maneira, consequências tem. Por isso cabe perguntar: qual a saúde do debate público em geral?

Qual a saúde do debate político? Apela às convergências ou aprofunda divisões?

E qual a saúde do debate entre culturas? Constrói pontes de entendimento ou conclui pela irredutibilidade e antagonismo das diferentes tradições?

E entre religiões? O meu deus ou deuses é/são melhor(es) que o(s) teu(s)? E entre os diferentes nomes de Deus? Alá é melhor que Javé? E onde mora Este na Santíssima Trindade cristã?

 

E ENTRE AS NAÇÕES?

E entre… as nações, já que se fala cada vez mais frequentemente dos perigos de um nacionalismo extremo? Que nação é melhor, ou superior, ou de gente mais inteligente, ou mais capaz… etc. etc. etc.?

Como se percebeu já, pelo tom veladamente crítico destas formulações (para mim erradas e perigosas ), o que pretendo é muito mais salientar as balizas erradas de certos tipos de debate público, do que marcar distinções intelectualmente aceitáveis…

E chegado a este ponto da minha reflexão, não posso evitar o recurso àquela ideia básica da nossa mesma e comum humanidade que tanto tem servido de óculo ao meu olhar sobre o mundo.

Somos as mesmas pessoas, digo-me então, só mudam as circunstâncias de tempo e de lugar… e sendo assim como podemos conversar uns com os outros, entre iguais?

 

ENTRE AS MUITAS VERDADES

Costumo pensar que a última prova, o último bastião da nossa humanidade reside num olhar honesto sobre o que se vai passando.

Pois esse olhar honesto inquieta muitos. Como os inquieta um debate público isento, sereno, elevado, feito das convergências e naturalmente das divergências de milhares , de milhões de “olhares honestos”.

A generalização das notícias falsas é a prova mais recente de que para as respectivas fontes o olhar honesto sobre a realidade é insuportável. Por isso é preciso manipular, para perverter.

 

COMO DIZIA NO INÍCIO…

…a revolução de hábitos e atitudes, provocada pela informação audiovisual contínua, transformou o mundo num grande palco em que o espectáculo nunca pára, em que a cortina nunca desce.

Mas esse espectáculo poderia converter-se num exercício de verdadeiro diálogo entre todos, o que obviamente não acontece. De quem é a culpa?

Para retomar o título desta crónica, a culpa é de quem fomenta e manipula preconceitos, desde o racismo a todos os outros “-ismos”.

A culpa é a de quem condiciona as opiniões. E a culpa é a de quem impõe as suas certezas.

Vivemos num mundo onde as possibilidades são infinitas para cada um crescer no plano da cidadania. Mas onde novos e velhos iluminados chegam apressados à praça pública das ideias para fechar todas as luzes, excepto as suas. Como se está a assistir na Europa, com o regresso ao passado, à época dos poucos que pensavam em nome de todos. Porque eram iluminados, exactamente.

Tão iluminados, que quando a tragédia chegou, em forma de guerra a mais mortífera, a todos atingiu, numa partilha então a mais democrática das dores, dos lutos, das destruições, das amputações dos corpos e sobretudo das almas.

Carlos Frota 

Universidade de São José

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