O Nosso Tempo

O suicídio dos deuses – II

O suicídio dos deuses – II

Para além da fome e da sede, para além das inquietações do dia a dia, para além da estabilidade familiar, do futuro dos filhos, das perspectivas de carreira, do montante dos impostos, do custo de vida, da renda da casa, cada um de nós preocupa-se com outra coisa. E isso nos distingue dos seres vegetais.

Para além ainda do boletim clínico, das facturas da água e da luz e dos demais detalhes do quotidiano, cada um de nós busca ainda algo de muito diferente que não vem nessa lista.

E com tal atitude nos distinguimos da indiferença das rochas. Ou do fatalismo biológico desses outros enigmas da vida, nossos companheiros no planeta comum e que são os outros animais, os mamíferos, os répteis, as aves.

Cada um de nós, humanos, procura o SENTIDO de tudo. Não nos resignando facilmente ao absurdo, aspiramos a ter vida para além da vida, desejamos o permanente que contradiz o transitório, buscamos uma lanterna, cuja luz nos conduza ao SENTIDO das coisas essenciais.

E essa procura de sentido leva-nos às alturas da Fé, à busca incessante da estética, à consolação filosófica ou ao seu desespero, à crença na Ciência… ou, pelo contrário, à descrença total, rendidos muitos de nós ao fatalismo de não compreender.

Dizem alguns que a filosofia conduz-nos a um beco sem saída. Dizem outros ou os mesmos que as promessas de explicação de tudo pela Ciência estão por milénios adiadas, sobretudo quando sabemos que o universo em expansão nos aponta sempre para caminhos onde nunca chegaremos.

Resta-nos então a resignação, quase bovina (perdoe-se-me a imagem), de olhar para o chão, limitados às ofertas verdejantes do prado à nossa frente?

Ou, olhando para cima e não para baixo, cabe-nos afinal interrogar as estrelas?

Dizem não poucos que, quanto aos negócios do céu, a religião é uma mera bengala, para quem anda trôpego pelos caminhos da existência. Mas outros argumentam, pelo contrário, que o céu nos pertence, porque só nós, humanos, temos voz e razão para o interrogarmos, para o questionarmos.

Para uns o céu permanece mudo, silencioso. Para outros, está cheio de sinais, de mensagens. E estas são lidas pelos que têm Fé. Sentem-se por isso deuses. Deuses transitórios, deuses vulneráveis, mas deuses. Quer dizer: seres intemporais, cuja eternidade está inscrita no selo genético com que fomos individualizados à nascença. Esses são os crentes. Somos nós, os seguidores de uma bela aventura humana e divina. Divina e humana.

 

A novidade da Boa Nova

Com o Jesus histórico e os seus sinais surgiu uma concepção do mundo e da vida que nos abre à extraordinária justificação de nós mesmos. Cristo elevou-nos à condição de pequenos deuses, co-obreiros da criação, por consentimento e generosidade do Deus único.

Jesus coloca mesmo um desafio maior à nossa compreensão, propondo-nos a originalidade desafiante de um Deus nascido no meio dos homens, para nos mostrar como se vive a nossa completa humanidade, isto é, a nossa parcela de divindade.

“Deus tornou-se homem, para os homens se tornarem deuses” – é dos pensamentos mais ricos e fecundos na reflexão cristã, e de maiores consequências para a nossa compreensão de nós mesmos, da nossa dignidade, do mundo e da vida.

Cada um de nós tem um valor que nos transcende. E a partir desta certeza, muitas das grandes questões de ética, com que se debatem as sociedades contemporâneas, ficam resolvidas.

 

Os deuses não se suicidam…

Se os deuses não podem ser assassinados, antes mesmo de nascerem – e aqui fica “resolvida”, para os crentes, uma das questões mais controversas do “direito das mulher a dispor do seu corpo” – esse NÃO MATARÁS é, segundo a mesma lógica, extensivo à nossa própria vida, isto é, ao não suicídio dos pequenos deuses que somos.

O chamado direito ao aborto e, no extremo oposto, o chamado direito à eutanásia são manifestações de um princípio abusivo de liberdade pessoal que, no primeiro caso, tem como vítima quem não foi consultado sobre o seu próprio destino – e no segundo, quem decide destruir um bem que não lhe pertence, a vida, mesmo que a “sua” própria.

 

Ambiente e novas tecnologias

Claro que tudo isto só faz sentido para quem partilha a convicção de que a vida não nos pertence, mesmo a nossa.

Tal concepção não pode impor-se, naturalmente, a quem não comungue dos seus pressupostos, isto é, todos os que, preferindo a orgulhosa solidão do universo, recusam a bela aventura de serem deuses, tributários de um Deus maior. E que, por coerência preferem, à parcela de divindade que lhes oferecida, a mortalidade dos sem esperança.

Mas conformam-se à condição de meros mortais? Não é assim tão simples. Muitos actuam como verdadeiros deuses, promovendo-se ao estatuto de donos de um mundo de que não são autores, mas simples utilizadores precários.

Esses serão os que, seguindo a lógica de “donos do mundo”, não se consentem limites em outros dois domínios específicos: o da protecção ambiental e o das questões éticas, suscitadas pelas novas tecnologias.

A quem pensa que tudo o que está ao alcance do homem ao homem pertence – mesmo o seu corpo, a sua vida – é difícil pedir outro tipo de altruísmo ou generosidade, hoje tão importantes, decisivos mesmo, como o respeito pelo planeta e a atenção para com a sua vulnerabilidade, no plano ambiental. E a esses mesmos e a outros que em tudo vêm jogos de poder mundial, é difícil pedir também contenção por razões éticas. Sob o argumento de que o poder tem a sua própria ética…

A dilação de medidas mais sérias contra as alterações climáticas, por um lado, e a ausência de limites às pesquisas no domínio da inteligência artificial, suscitam as mais fundadas dúvidas sobre o destino do planeta e do homem.

Não quereria terminar em tom apocalíptico mas a ideia impõe-se-me.

Os excessos do ser humano conduziram, ao longo dos tempos, aos conflitos maiores e menores que a história registou. E para culminar a caminhada louca da nossa espécie temos, desde 1945, a possibilidade de nos destruirmos num ápice, num holocausto nuclear.

A Ciência e a técnica casaram-se, no contexto já tão sangrento do segundo conflito mundial, para gerarem um monstro: a bomba.

À monstruosidade do nazismo outra se lhe seguiu. O perigo da destruição total.

E aí temos um brinquedo letal tão sedutor que os poderes mundiais não cessam de os produzir e de os acumular às centenas, aos milhares, como se houvesse mais do que um planeta para destruir.

Os deuses não se suicidam? Quem disse?

Carlos Frota 

Universidade de São José

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