O Nosso Tempo

Paz, refugiados e segurança global

Paz, refugiados e segurança global.

O Papa Francisco dedicou a homilia da noite de Natal, e a mensagem do Dia Mundial da Paz para 2018, ao tema candente dos refugiados e ao imperativo que constituiu para os cristãos o seu acolhimento.

Ao ler a mensagem do Santo Padre, tive a crescente noção de que o texto constitui um desafio salutar para as pessoas de coração aberto e generoso – mas um imenso “perigo”, uma tese de confronto, relativamente a todas outras.

A mensagem é, de facto, um grande desafio e um perigo, conforme os diferentes destinatários. Os que aceitam o desafio de um mundo “sem fronteiras”, reconhecendo múltiplas oportunidades de enriquecimento pessoal e colectivo, na diversidade das culturas e das civilizações. E os que, por receio pessoal ou cálculo político, decidiram construir muros em torno de si. Muros erguidos em sucessivas camadas, de receios e de preconceitos. E, é importante insistir, com a demagogia fácil do discurso político radical que fomenta os piores receios ou exacerba os piores preconceitos.

 

O mundo está pior

A mensagem do Papa, focada embora numa só (e quão complexa) questão, não é, não podia ser neutra, mas pelo contrário empenhada no mundo concreto em que estamos a viver. Até porque 2017 representou um ano de fractura em muitas áreas e a propósito de muitas questões da vida internacional. E o Santo Padre está profundamente preocupado, como os mais esclarecidos líderes mundiais, com a direcção dos acontecimentos.

Foram doze meses em que se teve a noção de que o mundo recuou, em vez de avançar, na tentativa de solução de problemas globais. Por isso, o ano que findou deixou muitas marcas, nem sempre positivas, as mais das vezes negativas, na nossa memória colectiva.

Determo-nos para olhar para trás, por instantes, confere-nos a perspectiva necessária para melhor compreendermos o que vai acontecer, neste novo ano.

O símbolo mais forte de tal recuo, em 2017, foi o escândalo que constituiu, para a generalidade das pessoas, a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris sobre Alterações Climáticas, saída baseada, como se sabe, em razões anti-científicas. E até anti-económicas, a prazo.

Tratou-se, para a nova Administração americana, de proteger, ou de ressuscitar, indústrias caducas, como a do carvão, em regiões determinadas do País, cujo voto foi essencial para a controversa vitória de Donald Trump, nas presidenciais de 2016.

Fazendo tábua rasa do que unanimemente lhe disse a comunidade científica internacional, Trump foi para a frente, teimosamente (como é do seu temperamento), com o projecto condenável de excluir os Estados Unidos de um acordo penosamente conseguido, à mesa das negociações, apenas para satisfazer grupos restritos e clientelas privadas.

Os Estados Unidos são um dos dois países mais poluidores do mundo, mas o outro, a China, teve atitude oposta, de plena assunção de responsabilidades, encontrando-se na posição de líder, isto é, de força motriz, na implementação do Acordo.

 

Confronto em vez da diplomacia

Mas outros sinais houve, no ano passado, de que o mundo mudou para pior. Desde logo no clima, na atmosfera com que passaram a ser debatidas as grandes questões globais.

A linguagem com que (ainda) Trump passou a tratar das questões do comércio mundial, enfatizando a confrontação em vez do intercâmbio e da cooperação, deram o tom ao que viria a afirmar-se como uma das linhas directrizes da nova presidência: o neo-proteccionismo pronunciado, da parte do ex-campeão do comércio livre.

Toda a gente sabe que na vida há competição. E que, em matéria de negócios, a competição está mesmo no cerne da economia de mercado, hoje global, apesar das nuances. Mas sempre se considerou – e os Estados Unidos foram os principais “missionários” de tal doutrina – que as trocas comerciais abriam fronteiras outrora fechadas, punham em contacto povos e culturas, favorecendo a concórdia geral, por permitir uma melhor compreensão da complexidade do mundo em que vivemos.

Com a competição há, inevitavelmente, os que ganham e os que perdem. Mas se as relações são equilibradas, nem os vencedores de um momento ganham sempre, nem os vencidos do momento seguinte ou do anterior perdem sempre. O sistema funciona pois na convicção de que, em determinado lapso de tempo, as oportunidades são para todos.

Donald Trump descobriu, subitamente, que a América passou a perder sempre, e daí um discurso duro para com parceiros económicos outrora muito prezados, por terem aberto as suas fronteiras ao apetite das multinacionais americanas. Estas ganharam biliões com as chamadas deslocalizações para a Ásia, mas isso Trump esqueceu, para se lembrar agora apenas que as regras do jogo do capitalismo global, de que a América foi o grande arquitecto à escala mundial, passaram a não ser sempre favoráveis aos grupos económicos do seu país.

Enquanto o jogo decorreu a contento, tudo bem. Quando não, são as regras que têm de ser mudadas… Daí a linguagem das retaliações e da guerra económica, num mundo saturado já de outras guerras.

Curiosamente, é a China que fala cada vez mais de uma globalização económica em que todos ganhem, todos dela retirando vantagens.

É no fundo a continuação do discurso tradicional dos benefícios do comércio internacional, adaptado às novas circunstâncias do mercado global que Trump agora receia.

 

Os limites do egoísmo nacional

Com o novo Presidente americano inaugurou-se também uma nova época em que se acentua, no discurso e na prática, não a abertura com que se constrói o mundo, mas a nova/velha realidade do egoísmo nacional.

Trump não precisava de continuar a gritar, depois de passada a fase dos comícios eleitorais, na prioridade absoluta para os interesses da América, com a repetição exaustiva do “America First”, condição julgada indispensável para a concretização desse outro objectivo obsessivo: “America Great Again”.

Todos os países se movem pelo interesse nacional, já se sabe. Mas o que é próprio de líderes com responsabilidades mundiais, e não puramente nacionais, é a capacidade de gerar consensos, a fim de moldarem a comunidade das nações num sentido preciso.

Trump é uma personalidade que suscita divisão em vez de convergência. Essa será uma marca decisiva da sua presidência, dure ela o tempo que durar.

 

O fascínio pelo abismo

O discurso na ONU, ameaçando a Coreia do Norte de destruição total, constituiu um dos momentos mais baixos, em termos de dignidade do Presidente como líder mundial, estando embora Trump convencido do oposto.

É que, no relacionamento e no discurso somou-se, à linguagem paranóica errática de uma parte, a postura semelhante da outra…

O mundo não precisa disso mas, sem negar a dimensão do perigo, carece antes da racionalidade fria e calma de líderes… com “L” maiúsculo.

Carlos Frota 

Universidade de São José

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