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Europa: o Verão quente de 2017

Europa: o Verão quente de 2017

Quando os líderes vão de férias, como fica o mundo? Como fica a Europa? Quem governa?, pergunta ironicamente o meu alter ego, neste Verão quente de 2017.

Só por mera diversão mental formulo, claro, tal pergunta, já que a resposta, as respostas são óbvias. A natureza tem horror do vazio…

Delega quem pode delegar… – ouço dizer-me – e quem não ousa fazê-lo, por receio de perder o lugar, tem que fingir que continua a trabalhar, sem interrupção.

Claro que ninguém da rua vê se está ou não vazio o gabinete, onde a luz fica acesa toda a noite… mesmo no Verão.

É que o tempo, europeu e universal, não pára; o relógio da História nunca se estraga (mesmo se parece, por vezes, contar as horas e os minutos ao contrário); e a vida quotidiana nunca se interrompe, nas suas grandezas e nas suas misérias, nos seus múltiplos desafios. Excepto, claro, quando as grandes catástrofes se abatem sobre as populações, as catástrofes que a natureza dita ou a mão humana provoca ou não consegue evitar.

Como viverá, neste momento, por exemplo, a população dos campos de refugiados em Lesbos? E da Turquia? E das cidades de tendas disseminadas por toda a Europa mediterrânea e Central, com arame farpado como nova fronteira lá onde a liberdade de circulação só teoricamente prevalece? E, fora da Europa, a população de Aleppo “pacificada”? E os milhares de candidatos norte-africanos à travessia clandestina, em embarcações de fortuna?

Claro que os substitutos dos líderes políticos existem, no organigrama dos Governos, para fazer o trabalho dos temporariamente ausentes; os conselheiros, por sua vez, fazem turnos; e as máquinas burocráticas – que são o suporte tantas vezes tentacular dos Governos – não cessam de produzir ordens e fabricar directivas, muitas vezes em pleno Verão, para apanhar distraídos os cidadãos-banhistas. Para não terem que justificar a subida de preços ou de impostos, mas justificando sempre a burocracia e os burocratas.

Quando os políticos, europeus ou doutras paragens, “vão a banhos”, a marcha do mundo não se interrompe. Nem se interrompe a lógica do poder e das suas estratégias de sobrevivência.

A geopolítica nunca entra de férias. E nas geografias de fractura, nas fronteiras do medo ou da inquietação, onde a paz e o conflito se decidem a cada momento (como olvidar, neste Verão, o tristemente famoso paralelo 38?) nem as armas, nem os soldados vão de férias.

Também não se interrompe a curiosidade dos média, em saber onde vão os políticos repousar das enormes canseiras, dos ingentes trabalhos de todo um ano. Em que ilha deserta ou hotel de luxo, em que iate de algum amigo ou seminário privado se acolherão, nesses círculos restritos onde, diz-se, se decidem, à porta fechada, os destinos do mundo?

Outro desporto estival: as universidades políticas de Verão que são, por via de regra, o sucedâneo dos campos de escuteiros… mas estritamente só para gente adulta, aqueles que vão ali apreender a “realpolitik”, longe dos princípios abstractos impressos nas cartilhas dos partidos, mas muito perto dos interesses concretos.

Do emprego que se dá ou se promete. Da promoçãozinha que avança. Do contrato que se antecipa. Da troca de favores que se concretiza. É este o nervo da vida. É esta a coluna vertebral dos sistemas, lealdades se esperam e se recompensam.

De forma realista confirma-se que a vida política, como a económica, é uma teia permanente de transacções. Entre valores e interesses. Entre pessoas, interesses e valores.

E isto tanto quanto ao mundo liliputiano das trajectórias individuais, como a propósito do domínio do mundo. Há os adeptos das teorias da conspiração e os adversários das mesmas teorias. Nenhum dos dois campos faz férias, verdadeiramente. Porque o mundo continua, mesmo depois do Verão.

A velha humanidade é feita da argamassa que se conhece. A mesma argamassa que molda as instituições, as sociedades abertas e as outras, os clubes, as agremiações – que o homem cria, muitas vezes com as melhores das intenções.

 

As férias de Verão de…

Emmanuel Macron. O jovem Presidente, adepto, como se tem visto, da expressão “à grande e à francesa”, passará as férias… no Palácio de Versailles? Passeará solitário pela Galeria dos Espelhos, sonhando glórias passadas, de quando o Rei era o Sol e a França o centro da nossa galáxia?

Theresa May. Irá a chefe do Governo de Londres procurar alívio, no “countryside” (ou no acolhedor Ulster, terra da sua coligação salvadora…) das suas muitas dores políticas, infligidas pelos adversários de fora, mas sobretudo de dentro do seu partido, após as eleições antecipadas? Ou pelos “pérfidos” membros da Comissão Europeia, em Bruxelas, que lhe querem fazer pagar caro a ousadia do Brexit e as incertezas do complicado processo de divórcio?

Angela Merkel. Com eleições à porta, não terá Verão, terá campanha eleitoral… forma de diversão regular em que Merkel é campeã, pois briga um quarto mandato. A Europa, ouso dizer, precisa dessa Senhora de volta.

O nosso bem amado Marcelo não faz férias porque se autonomeou bombeiro voluntário, ao abrigo dos seus vastos poderes presidenciais.

E Vladimir Putin? Poderá fazer férias descansadas em Sochi, depois de varrer as ruas de Moscovo de quase oitocentos “indesejáveis” diplomatas americanos…

E fora da Europa?

Nicolas Maduro. O tenaz líder venezuelano, esse, resolveu não ter férias. Tem um país inteiro a meter na ordem. E tem uma economia caótica a reorganizar, se puder… porque sobretudo no quadro de um modelo político a defender. O problema é que a insurreição generalizada não premeia os esforços do abnegado Presidente.

“Os venezuelanos são uns ingratos!” – pensará o bom do Nicolas, nestas repetidas noites de insónia. “Defendo os interesses do povo e o povo não me compreende!”.

O antigo condutor de autocarros perdeu o GPS. Não se usava no seu tempo? Também, pelos vistos, não o sabe usar agora.

Donald Trump vai passar as férias a fazer o inventário de todos os “twitters” enviados desde que é Presidente. E a fazer a lista de nomeações por períodos não superiores a quinze dias, para os mais altos cargos da sua administração.

Carlos Frota 

Universidade de São José

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