O Nosso Tempo

Que guias para o caminho?

Que guias para o caminho?

Os princípios orientadores do exercício do poder, como forma de serviço à comunidade, têm sido aludidos frequentemente pelo Santo Padre. Tendo por referência tais ensinamentos, empreendo a reflexão que se segue.

Vivemos tempos incertos. E quando isso acontece precisamos, mais do que nunca, de líderes imaginativos e mesmo generosos, como guias para o caminho.

Líderes aparecem, sempre, claro, porque, como se costuma dizer, a Natureza tem horror do vazio. Mas muitos deles não passam de defensores de antigas receitas, cujo mau resultado a História registou.

Este, mais do que num passado recente, é um tempo de desafio para líderes nacionais e mesmo internacionais (o secretário-geral da ONU, o actual Alto-Comissário para os Refugiados, outros ainda), num mundo em rápida transição.

De facto, as mudanças, operadas recentemente na Europa, com a crise dos refugiados e as diferentes reacções dos Governos nacionais, prolongadas na América com a vitória surpreendente do agora Presidente, provocaram uma alteração sensível no quadro social e político a que estávamos habituados.

Nos países ocidentais, ainda há pouco considerados estáveis e confiantes, o clima mudou.

A Europa interroga-se. Grande parte da América interroga-se. E os vizinhos imediatos desta não deixam de se interrogar, a norte e sobretudo a sul.

Reina a inquietação nos espíritos. O futuro parece menos previsível. Uma espécie de nebulosa envolve a percepção do que está para vir, onde pululam fantasmas de todos os perigos.

Neles avultam a ameaça de um novo conflito generalizado a prazo (o novo guru americano Steve Bannon, íntimo de Donald Trump, fixou mesmo já o tempo e o lugar), bem como a perspectiva de uma hecatombe ecológica, se o Acordo de Paris sobre Alterações Climáticas não for implementado, como ameaçou o novo ocupante da Casa Branca.

Vem de trás, e poucos deram por isso, o lento evoluir para o estado de espírito a que se chegou.

Desde logo, a sensação de classes políticas divorciadas dos cidadãos. E na sequência disso, o esvaziamento da noção de representação política, vista cada vez mais como concha onde se gerem interesses individuais ou de grupo, à revelia ou contrariando o interesse geral.

Mas, pretendendo contrariar o pessimismo dominante, permita-se-me a invocação de um exemplo de sinal contrário.

 

Um almoço entre amigos

Sim, foi um almoço entre amigos, o de há semanas, no Palácio de Belém, entre Marcelo Rebelo de Sousa e os seus adversários da corrida presidencial de há um ano.

Bonito gesto! – disse eu de imediato. Gesto inteligente! – ouvi-me ainda acrescentar. Porque o Presidente escutou, durante o tempo de uma refeição, aqueles que, na convicção de cada um, fariam muito melhor que ele!…

Mas para além da “traquinice” escondida no gesto, fica a generosidade do nosso chefe de Estado, cuja sintonia com a população não carece de maiores provas.

Marcelo Rebelo de Sousa tornou-se, no decurso deste último ano, uma referência incontornável do diálogo social e político em Portugal.

Não há maior medalha do que este reconhecimento justo, a colocar na lapela do casaco presidencial…

A proximidade afectuosa e confiante praticada pelo Presidente é um acto tão sincero quanto político, e assim é que está bem.

Ser deliberado não é ser falso, pelo menos para o meu dicionário pessoal. Vivemos numa sociedade de homens e não de anjos. E entre seres humanos tudo se constrói, incluindo a solidariedade.

 

Popularidade a claro e escuro

Outros cultivam uma popularidade errada, pelos maus motivos, contra a qual os cidadãos não deixam, a prazo, de reagir.

A Conferência Episcopal das Filipinas determinou a leitura, em todas as missas dominicais do passado dia 5 de Fevereiro, de uma mensagem condenando, nos termos mais fortes, a prática que o actual poder vem consentindo (alguns dirão, vem encorajando) de execuções sumárias, extra-judiciais, de pessoas supostamente ligadas ao comércio da droga no País.

A análise da situação social e humana no País – que se degrada desde a eleição de Duterte – mereceu agora a condenação a mais formal por parte da Igreja.

Aprendemos todos que o primado da lei representou historicamente um momento vital de evolução das nossas sociedades.

Recair na arbitrariedade de acusações sem defesa e julgamentos fora da lei é voltar… a passos rápidos, à lei da selva.

 

A telenovela americana

A memória trai-me. Falar de líderes hoje é falar do que se passou nos States, a 20 de Janeiro último. E Interrompo tudo para ver cada novo episódio da telenovela americana! Exactamente como nos velhos tempos da Gabriela. Só que agora a televisão é a cores, sem o filtro do preto e branco…

E lá revejo as fotos do “maior” movimento de sempre, de apoio a um Presidente americano recém-eleito, onde estranhamente pude observar enormes clareiras, vazias de gente, fruto por certo da manipulação da perigosa oposição mediática.

É ainda Hillary, (ponho-me eu a ironizar ) essa “nasty woman”, como carinhosamente a tratou o amigo Donald, é Clinton por detrás da cortina, qual maléfica influência…

Mas lá estava a grande derrotada e vencedora ao mesmo tempo, com um sorriso oficial no rosto descolorido, a fazer das fraquezas forças e a festejar a vitória… do adversário! Não pude deixar de admirar!

Dos detalhes da cerimónia de posse de Trump, passo logo à seriedade do discurso inaugural, no puro estilo de comício, a que o candidato nos habituou.

Tal discurso confirmou – se necessário fosse!… – o calibre do líder com que a magia das urnas brindou os americanos. E o mundo, já agora…

Discurso virado para dentro, para a visão catastrófica de uma América que, certamente carente de soluções urgentes para muitos dos seus problemas, mais parecia um retrato do Biafra, do tempo da guerra civil na Nigéria.

Exagerastes, pá! Apeteceu-me tweetar a Donald… Carregastes nas cores só para fazer efeito!

Ouvir os dislates presidenciais, imediatamente depois do juramento, foi o último sacrifício pedido a Obama, impassível, mas certamente a pensar já nas suas férias! E em como se havia de rir, ao lado da sua simpática Michelle, ambos diante da televisão, seguindo atentamente as primeiras horas e dias da NEDO – a Nova Era Depois de Obama…

Faltou tudo no discurso de posse: a altura do estadista, o sentido de respeito e unidade para com quem não votou nele… e foi “só” a maioria; o reconforto a dar a amigos estrangeiros; e a promessa de cooperação para com aqueles que o são menos. Ou que, na sua “imensa sabedoria”, designou como alvos preferenciais.

No dia seguinte, os comentários do seu porta-voz, no primeiro encontro com os media, foram… um desastre! Ficará na História desta presidência o novíssimo conceito de “factos alternativos”, isto é, a versão Trump da nova era Trump. E pronto!

Carlos Frota 

Universidade de São José

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