Medicina Chinesa em Portugal

Sónia Ribeirinho

Entre a desconfiança e a procura.

O crescimento da popularidade das medicinas alternativas em Portugal, a cada vez maior aceitação por parte da população e do meio médico tradicional, e a notória abertura do Governo, nomeadamente do Ministério da Saúde, para estas práticas, tem feito com que haja cada vez mais profissionais nesta área.

Uma das medicinas que mais tem crescido em popularidade é a Medicina Tradicional Chinesa, especialmente na sua área de acupunctura. Não existem dados oficiais mas basta estar atento às notícias e às conversas de café para se saber que, da parte da população, há uma grande curiosidade e desejo de práticas que coloquem um pouco de lado a farmacopeia ocidental. «Um regresso a práticas antigas», como referiu uma especialista do sector.

Na Ásia a convivência entre a Medicina Chinesa e a Medicina Ocidental tem sido (quase) sempre pacífica, complementando-se em muitos casos. Em Portugal dão-se os primeiros passos – tímidos – para que tal seja também uma realidade, como a iniciativa do Ministério da Saúde em autorizar farmácias de medicamentos chineses em todos os hospitais públicos. E a existência, há já alguns anos, de um curso de pós-graduação em acupunctura na Universidade de Coimbra.

O CLARIM esteve à conversa com uma jovem portuguesa que exerce Medicina Tradicional Chinesa e Medicina Clássica Chinesa, para além de ser instrutora de Tai chi.

Sónia Ribeirinho estudou Medicina Tradicional Chinesa no Instituto Português da Natureza, na cidade do Porto. O curso durou quatro anos e deu-lhe as bases para avançar para uma carreira que nada tem a ver com a sua formação académica inicial. Sónia estudou Planeamento do Território mas desde muito cedo que se interessou pelas medicinas alternativas. Recordou que «deveria ter uns quinze anos quando Pedro Choi [um dos rostos mais mediáticos da Medicina Tradicional Chinesa em Portugal] organizou o primeiro curso de acupunctura». Sendo ainda muito jovem e não havendo tempo e dinheiro, acabou por ficar apenas com o desejo de participar. No entanto, o bichinho estava lá e vinha crescendo desde a altura dos episódios da série “Kung Fu”, que nos anos 80 e 90 passou na RTP, tendo David Carradine como actor principal. «Para além de todas as artes marciais, a série juntava lições de moral com tratamentos alternativos e doutrina budista».

Sónia, que tinha acabado a formação em Planeamento do Território, viu-se obrigada a colocar a carreira de lado, para se dedicar à mãe que havia adoecido gravemente. Algum tempo mais tarde, após o falecimento da mãe, e sem ter nada a perder, decidiu que era chegado o momento de tentar fazer algo que realmente gostava. Foi nessa época que decidiu ingressar no curso de Medicina Tradicional Chinesa no Instituto Português da Natureza. Passados quatro anos estava habilitada a exercer a actividade, mas o instinto pedia mais, pois tinha entretanto descoberto a Medicina Clássica Chinesa através de alguns professores.

Após dois anos de trabalho, inscreveu-se no curso de Medicina Clássica Chinesa, no Instituto Europeu de Estudos Medicinais Chineses, também no Porto. Este curso, com a duração de oito anos lectivos, aborda em profundidade todos os pilares da ciência medicinal chinesa na sua forma mais pura, sendo cinco as grandes áreas de estudo: Acupunctura, Ginástica Terapêutica (Qi Gong), Farmacopeia e os Remédios, Massagens (Tui Na) e Métodos de Preservação da Saúde. Segundo explicou, «são estes os pilares em que assenta a Medicina Clássica Chinesa e que servem para responder a todos os problemas clínicos, de um modo mais abrangente e aprofundado do que a Medicina Tradicional Chinesa. De acordo com os ensinamentos deste ramo da Medicina, não existem doenças sem causas e tudo está interligado».

Apesar da aceitação destas “novas” práticas em Portugal, «há ainda um enorme caminho a percorrer, especialmente pela Medicina Ocidental», defende Sónia Ribeirinho. No curso que frequenta não tem nenhum colega da área da Medicina, tirando um médico veterinário. Há também o obstáculo da língua chinesa, uma vez que «para se estudar a fundo este tipo de Medicina é necessário dominar a língua chinesa. Os manuais originais estão em Chinês, sendo que muitos deles, particularmente os de Medicina Clássica Chinesa, estão em Chinês arcaico ou usam muitos termos que já caíram em desuso no Chinês corrente. Isto obriga a um esforço ainda maior por parte de quem quer estudar a sério estas ciências».

Embora haja muitos manuais traduzidos para Inglês e para Português do Brasil, devido à grande tradição das medicinas alternativas no Brasil, «não há nada como estudar pelos manuais escritos na língua original», frisou.

Para fazer face a este dilema, agora que está a terminar o curso de Medicina Clássica Chinesa, vai ingressar no curso de Mandarim no Instituto Confúcio da Universidade de Aveiro. «Se tudo correr como planeado, espero num futuro próximo poder passar uma temporada na China, para aprofundar os conhecimentos de Medicina, de Tai chi e, eventualmente, de língua chinesa», revelou.

Quanto ao futuro destas práticas em Portugal, Sónia Ribeirinho acredita que «a população está cada vez mais aberta a novas formas de tratamento, em especial àquelas que não recorrem a medicamentos químicos, mas a produtos naturais, um pouco à semelhança dos tempos antigos em Portugal».

Os mais velhos sentem-se cativados, sendo que a média de idades dos seus pacientes é superior a sessenta anos.

JOÃO SANTOS GOMES

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