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A casta dos mercadores soldados

A casta dos mercadores soldados

Como é sabido, Macau é fruto da teimosia não só dos missionários mas também, e sobretudo, de uma determinada casta de gente habituada a andar por conta própria – nessa já longínqua segunda metade do século XVI – livre do freio imposto pelas autoridades sedeadas em Lisboa ou em Goa.

Muitos deles embarcavam porque eram filhos segundos, ou seja pessoas que do ponto de vista da lógica económica das famílias – podemos dizê-lo – estavam deserdados, porque normalmente o património era herdado pelo filho mais velho e mantinha-se intacto, não sendo fraccionado.

As famílias da época disponibilizavam dotes para os casamentos das filhas e encaminhavam os filhos segundos para outras actividades que fossem bem remuneradas. Uma delas era o serviço militar à Coroa; outras a carreira judicial ou a carreira eclesiástica. Estas eram as saídas profissionais dos jovens daquele tempo, digamos, bem-nascidos, de uma condição social média alta. Tornavam-se por iniciativa própria aventureiros, deixando as suas casas paternas e as suas terras de origem para rumarem a Lisboa, local de embarque, sobretudo para o Oriente.

E se a Índia se mantinha como o destino mais cobiçado em termos de carreira profissional, isso deve-se ao facto de os serviços militares prestados na Índia – e na Ásia em geral – serem mais bem remunerados e mais prestigiados do que qualquer outro tipo de serviços noutras áreas do Império. Mesmo assim, os contingentes que seguiam para a Ásia mantinham-se limitados.

Muitos desses aventureiros obtinham na Índia um estatuto que não possuíam até então. Há inúmeros casos desses. Esse constituía, aliás, o grande objectivo de muitos deles. Fora de Portugal podiam quase mudar de identidade e fazer-se passar por quem não eram, dependendo isso das suas qualidades pessoais.

Incorporados directamente no norte do País (sendo aí recrutados) ou na capital, de uma maneira geral, quando embarcavam para o Oriente, estes soldados eram pagos pela Coroa. Quanto aos fidalgos, estes estavam na contingência de embarcar à sua própria custa. Uns e outros tinham de transportar consigo mantimentos para toda a viagem, que era de longos meses. As pessoas de então não funcionavam ou se comportavam de forma tão isolada como acontece hoje. Funcionavam mais em grupo, dentro de um clã, da família, das parentelas, num esquema quase de carácter medieval. Portanto, nesse sentido não se pode dizer que estavam entregues a si próprios. Depois, no Oriente, as oportunidades também surgiam em função dos conhecimentos e das ambições de cada um. Havia em muitos deles um objectivo deliberado de demandar um porto fora da rede oficial portuguesa, para assim ter mais margem de manobra.

E se essas pessoas casavam com as mulheres locais, com uma cultura tão diversa da deles, isso deve-se à escassa imigração feminina para o Oriente. À excepção de alguns fidalgos que levavam as mulheres e as filhas ou alguma órfã enviada pelo rei, para casarem com os melhores fidalgos, a maior parte dos portugueses que sobrevivia pela Ásia e em África estava na contingência de se casarem com mulheres nativas. O que acontece é que essa aclimatação portuguesa às mulheres nativas e às culturas locais se faz sem grande dificuldade. Ela é desejada. O Oriente emerge como uma miragem de algo muito desejado na medida em que a licenciosidade sexual por parte daqueles portugueses que imigravam para a Ásia acabava por se tornar muito maior do que aquela que eles gozariam no Reino. Os relatos dos viajantes estrangeiros deixam a entender isso mesmo. Os portugueses vivem em dois opostos. Por um lado, são extremamente ciosos das suas mulheres, tal como as comunidades muçulmanas; por outro, têm muitas escravas e escravos de prazer. Existe uma enormíssima prostituição, não só em Goa mas também noutras cidades. E, portanto, tudo isso mostra que há um poder relativamente incapaz de beligerar os costumes e, fora dessa sociedade europeia, as práticas locais acabavam por imperar. E os portugueses não foram refractários a isso. Foram os que levaram essas práticas mais longe no contexto de uma imigração europeia para Ásia naquela época. Rapidamente e quando se estruturam estas comunidades, há uma tendência para uma certa endogamia. As mestiças e os mestiços filhos de portugueses e mulheres nativas casam normalmente com outros mestiços ou casam com outros portugueses recém-chegados. Muitas vezes só numa primeira fase temos casamentos entre portugueses e nativas e numa segunda fase temos casamentos entre mestiços ou entre portugueses e mestiços. É assim que estas sociedades se perpetuam e vão recebendo algum novo sangue europeu.

Não é de crer que as sociedades locais fossem muito abertas para aceitar no seu seio este modo de vida, só que, simplesmente, nas costas da Ásia existia o princípio de que cada comunidade regia-se pelos seus próprios usos e costumes, fossem quais fossem. A excepção era a Índia, devido ao sistema de castas e devido aos interditos alimentares e de convívio.

Joaquim Magalhães de Castro

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